Crítica | Quarteto Fantástico (2015)

estrelas 1

A primeira família da Marvel conta com uma conturbada história nos cinemas – primeiro, uma produção praticamente amadora de 1994, que jamais viu a luz do dia, trouxe uma representação risível dos heróis, filme cujo único ponto merecedor de nota é a caracterização do Doutor Destino, clássico arqui-inimigo do grupo. Onze anos mais tarde, o primeiro longa da Fox baseado nesses quadrinhos foi lançado e também não atingiu um grau de qualidade minimamente satisfatório, com péssimo desenvolvimento de personagens, dentre dezenas de outros problemas, que, aparentemente, foram ignorados, gerando mais uma péssima continuação. É apenas natural, portanto, que o novo Quarteto Fantástico conte com uma recepção evidentemente receosa por parte dos críticos e espectadores médios. Ainda assim, os trailers – apoiados em uma estratégia de marketing que escondeu o longa até o último momento – nos trouxeram resquícios de esperança, que, infelizmente, foram despedaçados já na primeira metade da projeção.

Bebendo diretamente do universo Ultimate, a obra nos apresenta um Reed Richards (Miles Teller) adolescente, um jovem que sempre sonhara em ser o primeiro homem a desenvolver o teletransporte – algo que efetivamente consegue realizar quando ainda criança, porém com objetos inanimados. Descoberta sua genialidade pelo doutor Franklin Storm (Reg E. Cathey, o Freddy de House of Cards), Richards é contratado para trabalhar no edifício Baxter, onde inúmeros cientistas, com apoio do governo, buscam desvendar os segredos da viagem interdimensional. O experimento ganha vida, mas algo não planejado acaba ocorrendo, levando a Reed, Sue Storm (Kate Mara), Johnny Storm (Michael B. Jordan) e Ben Grimm (Jamie Bell) ganharem poderes especiais, que logo ganham a atenção do governo americano.

Apesar de contar com uma ótima introdução, explorando rapidamente a infância do futuro Sr. Fantástico, algo tirado diretamente de Ultimate Quarteto Fantástico, o filme acaba se perdendo em uma infindável história de origem, que gasta 90% de seu tempo de projeção para criar cada aspecto do grupo. É evidente que o roteiro de Simon Kinberg, Jeremy Slater e Josh Trank buscava nos trazer um filme de heróis diferente, algo que soasse mais como uma ficção científica que o hero flick que costumamos ver. Essa tentativa, porém, apenas arranha a superfície, algo tornado claro especialmente pelo excessivo didatismo presente na projeção. Inúmeras vezes vemos Teller pronunciando palavras que buscam explicar o que ocorre – problema muito presente em Exterminador do Futuro: Gênesis Jurassic World – algo que acaba prejudicando não só a credibilidade da obra, como seu ritmo, ao passo que precisamos parar para ouvir explicações tão desnecessárias que já esquecemos de tudo cinco minutos após as ouvirmos.

O mais curioso dessa longa introdução é o quão raso cada um dos personagens principais permanece, com motivações primárias que em nenhum ponto são desenvolvidas, exploradas – os personagens estão prontos desde a primeira vez que aparecem e isso vale para Richards até Victor von Doom (Toby Kebbell), que aqui nada mais é que um jovem irritado com a raça humana pela forma como ela trata o planeta – mais um vilão que segue o mesmo estereótipo utilizado em Vingadores: Era de UltronTomorrowland. A longa introdução que ocupa a maior parte da projeção, portanto, enfatiza muito mais o experimento em si e quando chega a hora de vermos os heróis em ação o resultado é simplesmente decepcionante. Primeiro pela curta duração destinada a essa parcela do longa, segundo pela retratação do grupo em si, que carece de qualquer emoção, evidenciando a falta de talento de Trank para filmes de ação. Ao menos a origem dos poderes de cada um é explorada de forma interessante, procurando ser explicada mais a fundo, ainda que em alguns aspectos soe forçada demais, especialmente em se tratando do Coisa. O sofrimento passado por cada um deles, porém, chega a nos chocar, ganhando pontos para o filme.

Infelizmente, da elasticidade de Richards até os socos do Coisa, nenhum movimento passa qualquer credibilidade, resultado de efeitos especiais mal elaborados em conjunto de uma decupagem risível. Escolhas que deveriam ser óbvias dentro do filme jamais são utilizadas e a sensação passada é que tudo busca esconder os defeitos visuais da obra. Por exemplo, em nenhum ponto vemos, dentro do mesmo quadro, o Quarteto em ação – há uma preferência por planos mais curtos e individuais, que, no fim, fragmentam as sequências, tirando dela qualquer factível unidade, soando como se os heróis sequer estivessem juntos no mesmo local. Os golpes do sr. Fantástico são tão reais quanto as artes marciais de Star Trek (a série original), nos deixando incrédulos, não conseguindo acreditar que esse filme realmente fora finalizado. Dos personagens principais, porém, o ápice do desgosto se apresenta com o Tocha Humana, cujo fogo parece ter sido tirado direto de um jogo de Playstation 3 no início de sua geração, em outras palavras, um CGI deplorável que felizmente ocupa pouco tempo em tela.

Tudo ainda parece ser jogado diretamente no lixo com a aparição do Doutor Destino, que mais parece ser uma livre adaptação do Doutor Manhattan, com poderes simplesmente absurdos que, em momento algum, são utilizados em todo seu potencial contra os heróis. De jovem revoltado a destruidor de planeta, Von Doom é possivelmente o personagem mais mal aproveitado da obra e tem sua forma vilanesca reduzida a um breve cameo, que ocupa no máximo dez minutos da projeção, evidenciando o nítido problema do clímax, que é  iniciado e resolvido em um piscar de olhos, apressadamente. O visual do ser ainda deixa muito a desejar e certamente fará legiões de fãs se retorcerem na cadeira. E já que entramos nesse aspecto, devo criticar a falta de um visual próprio dentro do filme inteiro. Há uma ênfase gigantesca em tons mais escuros, mas que tiram qualquer plasticidade do longa – trata-se, evidentemente, de uma abordagem mais scifi, como dito antes, mas que tira todo o espetáculo esperado. Mesmo a zona negativa (ou seja lá qual for o nome utilizado dessa vez) carece de um trabalho de cores mais criativo ou até mesmo um design mais deslumbrante, que efetivamente diferencie o lugar de um deserto rochoso qualquer.

Com esses aspectos em mente é difícil realmente gostar dessa nova releitura da primeira família da Marvel e mais difícil de acreditar em como não conseguem acertar com esses heróis. Josh Trank tenta misturar o sci-fi com filme de super-herói e não consegue realizar plenamente nenhum dos dois, nos trazendo uma obra completamente dispensável que certamente fugirá de nossas memórias (felizmente) em um futuro próximo. E a conturbada história do Quarteto Fantástico no cinema continua, com um filme que sequer diverte.

Quarteto Fantástico (Fantastic Four – EUA, 2015)
Direção:
Josh Trank
Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater e Josh Trank
Elenco: Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.