Crítica | Quarteto Fantástico e os Inumanos (Quarteto Fantástico #44 a 48)

estrelas 4,5

Este arco da revista do Quarteto Fantástico traz a primeira aparição dos Inumanos; a origem definitiva da Medusa (que já tinha aparecido para o grupo antes); a volta do Homem-Dragão e uma densa trama envolvendo medo do desconhecido, busca insana pelo poder, sexismo e paixão à la Romeu e Julieta envolvendo Johnny e Cristalys (ou Crystal), uma inumana. A trama vai da edição #44 até as páginas iniciais da edição #48, onde é finalizada e seguida pela saga que nos traria dois outros grandes personagens da Marvel, o Surfista Prateado e Galactus, na chamada Trilogia de Galactus.

Após o casamento de Sue Storm e Reed Richards, fica evidente que o Quarteto muda bastante o seu cotidiano, passando de um convívio mais científico para um modelo mais “família-anos-60”. Mesmo que tenhamos o grupo constantemente envolvido em aventuras e perigos diversos, Stan Lee adicionou às histórias esta familiar convivência diária, algo que acaba irritando o Tocha e o Coisa no início do arco atual, o que, convenhamos, não é sem motivo. Reed deixa de criar máquinas de uso científico e fazer pesquisas importantes para a humanidade para dar a Sue menos trabalho doméstico, criando para ela uma máquina de lavar louças e coisas do tipo..

Ainda nessa linha narrativa, temos Sue Storm assumindo o papel típico da “mulher tradicional” ainda em alta nos anos 60. De aventalzinho, fazendo faxina ou preocupada com o penteado (porque Reed “não olhava mais para ela” — sim, este é o nível da coisa), Sue é a personagem mais afetada pelos sinais da época, encarnando o sexismo típico das histórias nesse período. O interessante é que uma outra mulher deste mesmo arco, a Medusa, não passa pelo mesmo processo, sendo uma noiva rebelde… alguém de ações independentes, quase nunca aceitando ordens ou dependendo da ação de um homem como ponto de partida para suas atitudes. E nem é preciso dizer que ela é tratada como uma personagem “errada” enquanto Sue, obediente e cuidadora, é a “mulher certa” nesse contexto..

O ponto inicial dos eventos com os Inumanos começa com esse convívio papai-mamãe no Edifício Baxter, que rapidamente é alterado com a saída de Johnny e a posterior chegada da Medusa, do Homem-Dragão e de Gorgon à trama. Os Inumanos, uma das muitas raças desenvolvidas na Terra antes mesmo dos Humanos (nesse caso, o Homo Sapiens) dominarem o planta, são apresentados de forma indireta, através de um artifício narrativo muitíssimo bem conduzido por Stan Lee. No início, achamos tratar-se de uma história da Medusa, mas não demora muito e outros personagens se apresentam, mudando nossa ideia inicial. No decorrer das edições, temos Gorgon, Raio Negro, Karnak, Triton, Dentinho, Cristalys (ou Crystal) e Maximus numa batalha e fuga dos humanos que envolve interesses e formas diferentes de enxergar as relações sociais e possível amizade entre espécies diferentes. Uma trama sempre atual e sempre problemática, convenhamos.

Jack Kirby deu uma excelente identidade visual a cada um dos personagens, criando cenários de batalha e exposição de poderes simplesmente majestosos, acompanhando com qualidade o roteiro de Lee, que se tornava cada vez mais intricado ao longo das publicações. O final da história com os Inumanos nos traz a reflexão sobre o poder do medo. Descobrimos que os Inumanos são, na verdade, humanos com poderes, apenas um ramo da nossa espécie que se desenvolveu antes e se achou diferente demais dos galhos da mesma árvore genética que brotaram depois, por isso, se fastaram.

Esse sentimento reflexivo é ainda mais tocante quando vemos a separação de Johnny e Cristalys, quando Maximus cria uma Zona Negativa e fecha os Inumanos aparentemente para sempre em sua antiga cidade. Eis aí um ponto familiar e amoroso que caiu perfeitamente bem à história, encerrando o arco com uma centelha duvidosa de esperança e um nível de pesar que toca até o leitor de coração mais duro.

Quarteto Fantástico Vol.1 #44 a 48 [1ª parte] (Fantastic Four, Vol. 1 #44 – 48) – EUA, 1965 – 1966
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Vince Colletta, Joe Sinnott
Letras: Sam Rosen, Artie Simek
Capas: Vince Colletta
Editora nos EUA: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 1965 a março de 1968
Editora no Brasil: Ebal
Data original de publicação (no Brasil): O Homem-Aranha #62 a #64 (maio a julho de 1974)
22 páginas (cada número)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.