Crítica | Quarteto Fantástico: O Fim

estrelas 2

Alan Davis tem muita qualidade como artista, é um escritor que normalmente entrega bons trabalhos, mas a sua versão para a última aventura do Quarteto Fantástico é simplesmente um amontoado de lutas e explosões, fan service, bobagens mescladas de intrigas e falta de foco narrativo. Eu realmente quis gostar de Quarteto Fantástico: O Fim. Mas não consegui.

Parte de uma linha de histórias da Marvel intituladas “O Fim”, cujo propósito era mostrar, em uma realidade alternativa, como seria a “última aventura” de determinados heróis (Hulk, X-Men, Wolverine e Justiceiro também ganharam suas versões), esta história traz a princípio ideias interessantes e pequenos blocos em seu interior que mostram muito bem uma possibilidade aceitável de futuro para a Primeira Família. Mas essa característica, infelizmente, não é padrão para toda a minissérie.

Ao longo de seis edições vemos como cada um dos integrantes do Quarteto vive a vida após a Guerra Mutante e após a fatídica luta contra o Doutor Destino, logo na abertura. Franklin e Valéria Richards são mortos e este é o pontapé para a “separação” do Quarteto. O grupo em tese existe, mas não trabalha mais junto. Como um hiato sem previsão de volta, ou algo o tipo. Embora esse início seja levado aos tropeços, com uma luta cujo único sentido é o pontapé inicial para uma história que se bifurcaria em vários atalhos (Alan Davis tem capacidade para fazer coisa melhor), não podemos dizer que é exatamente um péssimo começo. Há alguma promessa ali e o leitor espera que esse evento trágico somado às suas consequências seja o foco da história. Mas Alan Davis e seus sonhos de grandeza não permite essa concentração em um único ponto. Ele teve que apelar para algo no estilo space-opera.

quarteto fantastico

Sim, estas são páginas de uma história do Quarteto Fantástico. Bem cheias, não é? Agora imagine isso durante 6 edições…

Com Reed vivendo como um ermitão, Sue focada em pesquisas arqueológicas, Johnny nos Vingadores e o Coisa vivendo em Marte, casado com Alicia Masters e pai de três filhos, temos a mais perfeita ideia do que é um grupo de pessoas que conviveram juntos por um tempo e depois, por acontecimentos sobre os quais não tiveram controle, acabam se separando. A verossimilhança aí é bacana e bem abordada pelo autor e desenhista, que se destaca em duas questões: a vida do Coisa e Alicia em Marte (disparada, a melhor parte da HQ) e a crise conjugal de Reed e Sue.

Seria muito bom se Davis tivesse tomado esse eixo narrativo para trabalhar, e seria um ótimo recorte, mas ele resolveu trazer praticamente todo mundo para a arena. Começam a aparecer os Novos Vigadores, os Inumanos, Krees, Skrulls, Vigias, Toupeira, Galactus (mas esse vale a pena, porque a aparição dele é muito bem conduzida), Aniquilador, Fantasma Vermelho e pelo menos mais uma dezena de personagens periféricos (heróis e vilões) à guisa de homenagem e “memória de um passado” que aparentemente é enterrado no desfecho. Quase um crepúsculo dos deuses, só que de tantos deuses, bons ou ruins, que nos perguntamos constantemente sobre o que foi a história.

quarteto fantastico o fimE para piorar o exagero do enredo, Davis exagera igualmente nas páginas-painéis. Particularmente gosto muito de páginas cheias, com diagramação fora do convencional, muitos objetos dentro dos quadros e vários eventos acontecendo ao mesmo tempo, como exercício de uma herança que os quadrinhos trouxeram das artes plásticas e do cinema: a profundidade de campo. Todavia, esse modelo artístico deve fazer sentido dentro da história e passar por uma decupagem visual. Seu uso constante satura o olhar e faz toda a grandeza perder força narrativa. Ou seja, mesmo que Quarteto Fantástico: O Fim tenha um ótimo trabalho artístico de Alan Davis e ótima finalização de Mark Farmer, o resultado final, em termos estéticos, é boicotado — de novo! — pela insistência na grandeza a qualquer custo.

Tivesse deixado o Quarteto, Destino e Galactus na história, estava bom demais. Com o trágico evento inicial em evidência, havia espaço para uma boa aventura e nós, leitores, não terminaríamos a história com vontade de tirar apenas algumas páginas e jogar todo o restante num limbo qualquer. De fato, o fim. Da nossa paciência.

Quarteto Fantástico: O Fim (Fantastic Four: The End) — EUA, 2007
No Brasil: Editora Salvat (A Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel #48)
Roteiro: Alan Davis
Arte: Alan Davis
Arte-final: Mark Farmer
170 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.