Crítica | Quarteto Fantástico: Primeira Família

estrelas 4

Parece uma regra nas grandes editoras de quadrinhos de super-heróis a re-imaginação de origens de seus personagens de tempos em tempos, à guisa de atualizá-los aos novos tempos. E essa estratégia realmente faz sentido, pois o público muda e cresce e há a necessidade constante de se atrair mais leitores que, via de regra, preferem ter como “porta de entrada” algo que seja moderno a seus olhos, sem terem que procurar e ler HQs escritas há 40 ou 50 anos.

E, se olharmos para trás, repararemos que a constante revisita às origens dos mais diferentes gera muito bons frutos, como as duas incursões de Frank Miller por esse território em Batman: Ano Um e Demolidor: O Homem Sem Medo. É claro que nem todas dão certo – muito ao contrário, na verdade – mas o mero fato de um novo olhar permitir que o autor e a editora refresquem seus personagens mais famosos já significa que existe vontade de se caminhar de forma certeira para a frente, sem necessariamente ficar preso à mitologia pré-estabelecida.

Quarteto Fantástico: Primeira Família é uma minissérie híbrida, na verdade, que ao mesmo tempo reconta e respeita integralmente a história pregressa do primeiro grupo de super-heróis da Marvel Comics. Ao recontar a história de origem da primeira família da editora, Joe Casey traz a história para um passado mais presente, se é que me entendem, com tecnologia mais compatível com a que temos hoje em dia. Assim, quem nunca leu sobre como Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm se tornaram, respectivamente, o Sr. Fantástico, a Mulher-Invisível, o Tocha Humana e o Coisa, essa talvez seja a melhor forma de descobrir.

No entanto, aos leitores mais antigos, aqueles que trepidam de pavor toda vez que ouvem falar que a origem de seus heróis prediletos será “reimaginada”, muita calma, pois Quarteto Fantástico: Primeira Família, como disse, é impressionante ao resgatar e respeitar os princípios informadores do Quarteto, sem necessariamente repisar o exato mesmo caminho que Stan Lee e Jack Kirby percorreram em 1961, com o lançamento de Quarteto Fantástico #1, em 1961, edição que viria revolucionar a Marvel Comics em especial e a Nona Arte em geral. Portanto, a minissérie tem um sabor mais especial ainda para quem já leu os primórdios do Quarteto Fantástico.

mosaico quarteto primeira familia

As capas dos seis números da minissérie.

É que o roteiro de Casey aborda todos – TODOS! – os elementos (grandes e pequenos) da gênese dos heróis usando uma técnica indireta, em que os aspectos que Lee e Kirby mostraram em 1961 ficam em segundo plano em relação ao que o roteirista deseja tratar agora. É como se o trabalho de Casey preenchesse os “espaços em branco” da obra seminal da dupla sessentista de maneira limpa, sem forçar a barra, sem inventar situações que traem a natureza dos personagens. Sim, ele cria um novo inimigo, o primeiro do Quarteto, mas ele o faz de maneira exemplar, inserindo-o na forma de um retcon benigno que não afeta a continuidade ou muda a mitologia. No final das contas, seu trabalho acaba sendo não o de recriar a origem, mas sim de expandi-la, de torná-la ainda mais interessante.

Esse novo inimigo é Franz Stahl, um professor e cientista que é alvejado pelos mesmos raios cósmicos que transformaram a fisiologia do Quarteto Fantástico e que se torna um poderosíssimo telepata, com o efeito colateral de se transformar em um psicopata assassino. Ele tenta trazer Reed Richards para seu lado ao longo de toda a narrativa, que é, na verdade, um belo passeio pelas primeiras histórias do grupo, com o bônus de revelar detalhes sobre como Reed e companhia se adaptaram aos poderes com a ajuda da exército, sobre como eles lidaram com o público e sobre como o edifício Baxter tornou-se o QG dos heróis, além de focar na receptividade dos novaiorquinos às estupendas demonstrações de poder.

No entanto, o roteiro de Casey não é só acertos. Quando ele, no sexto número, alcança o clímax, o resultado fica abaixo do esperado. O embate final entre Reed Richards e Franz Stahl dentro da base militar onde Stahl trabalhava e para onde o Quarteto foi enviado após o desastre que os criou tem resolução apressada e conveniente demais, fugindo muito da fluidez narrativa que marcara os números anteriores. Talvez Casey, trabalhando apenas em “território desconhecido”, tenha se empolgado demais para deixar sua marca na história do Quarteto Fantástico e ele acaba metendo os pés pelas mãos. Não é, porém, algo que apague a habilidade anteriormente demonstra por Casey em recontar e ampliar os detalhes da famosa origem dos heróis.

A arte de Chris Weston funciona em grande parte para lidar com a ambientação da narrativa, com muitos detalhes da tecnologia empregada (algo que remete um pouco à Jack Kirby) e a reimaginação dos personagens principais nesse ambiente mais moderno. Ele não fere as criações originais, mantendo tanto o Fantasti-Carro como o edifício Baxter em suas configurações originais, mas empresta seu toque pessoal a diversas situações, especialmente quando cada membro do Quarteto nós é revelado pela primeira vez dentro da base militar. Nesses momentos, Weston consegue aliar o grotesco ao inusitado, como na imagem que ilustra a presente crítica, acrescentando valor à narrativa. Tenho, porém, sérios problemas sobre como ele desenha rostos. Seus traços são muito oscilantes e variam muito e normalmente as fisionomias são feias, até mesmo asquerosas.

Quarteto Fantástico: Primeira Família é uma excelente forma de se conhecer os detalhes da origem do Quarteto Fantástico, sem reimaginações completas ou apelos para pegadas mais sombrias. Vemos o Quarteto da maneira como ele foi criado em 1961, com elementos extras que detalham os primeiros meses de existência dos heróis em um pacote atraente e que, espero, fará os leitores mais novos terem curiosidade pelas publicações originais.

Quarteto Fantástico: Primeira Família (Fantastic Four: First Family, EUA – 2006/7)
Contendo: Fantastic Four: First Family #1 a #6
Roteiro: Joe Casey
Arte: Chris Weston
Arte-final: Gary Erskine, June Chung (#4, com Gary Erskine)
Cores: Chris Chuckry
Letras: Comicraft
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: maio a outubro de 2006
Páginas: 150

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.