Crítica | Quase 18

A adolescência é um momento extremamente único e conturbado. A tendência do jovem, em condições favoráveis para isso, de tornar todos os seus problemas melodramas de proporções estratosféricas infelizmente acaba por tornar o sofrimento, independente de qualquer causa, real. A forma como muito lidam com essa época passageira da vida como se fosse “apenas uma fase” acaba prejudicando ainda mais a situação na qual a juventude se encontra. Mesmo desmerecendo os conflitos, e a relevância verdadeira deles, não se pode desmerecer o sofrimento alheio, que muitas vezes não é diretamente proporcional à problemática. Por isso é importantíssimo obras como Quase 18 resgatarem as dores – e por que também não as alegrias – dos jovens, dando voz àqueles que apesar de pensarem que estão na beira do mundo, prestes a cair, na realidade não estão, embora realmente sintam um prenúncio pungente da queda.

Tendo esse contexto apresentado, a diretora Kelly Fremon Craig evidentemente busca inspiração na filmografia de John Hughes, e isso é perceptível na seriedade e no humor do filme. A diretora, também roteirista, encontra o tom certo para a maioria das piadas e adota muita honestidade no processo de desenvolvimento da história e de seus personagens. A peça fundamental, contudo, é a atriz Hailee Steinfeld, a qual está perfeita na sua encarnação de Nadine Franklin, garota de 17 anos sem histórico algum de popularidade na escola que acaba não aceitando nem um pouco bem o fato de sua melhor amiga ter começado a namorar com seu irmão mais velho.

A personagem funciona na medida que seus conflitos e seus pensamentos são bem relacionáveis com o público. Isto é provido tanto pelo roteiro quanto pela atriz, sendo que o primeiro dá espaço de sobra para Hailee desenvolver o seu trabalho com honestidade. O espaço foi, obviamente, excepcionalmente aproveitado, mesmo que um momento do filme, logo em seu início, relacionado com o pai de Nadine (Eric Keenleyside), esteja completamente fora do tom estabelecido pela diretora durante o restante da projeção. Esse momento em específico não contribui nem um pouco para a construção da personagem de Hailee, que, na percepção realista do acontecimento, precisaria de uma carga dramática maior, ou então, uma apuração mais sensível de Kelly. Era o momento mor para que nos importássemos com a personagem. No final das contas, ainda nos importamos com ela, mas tal cena soa jogada, embora seja essencial para a narrativa, pedindo maior coesão com o todo apresentado.

A maior falha do roteiro, no entanto, é com a melhor amiga de Nadine, Krista (Haley Lu Richardson), a qual recebe pouco material comparado com o que se esperaria da premissa. A amizade entre Krista e Nadine convence nos minutos iniciais, e algumas interações entre as duas são bem pertinentes com a relação que o roteiro quer nos fazer entender, mas do meio do filme para o final, a personagem simplesmente some. Falta, no mínimo, um diálogo, durante o clímax ou na própria conclusão; um diálogo que, por outro lado, Darian (Blake Jenner), irmão de Nadine, oportunamente recebe. O ator, por sinal, está muito competente. A narrativa não nos leva a ter nem simpatia, nem desgosto absoluto pelo personagem. Sua relação com a protagonista é uma bagunça, que provavelmente nunca será consertada. Complementar a isso, os motivos são intensamente cabíveis; o background funciona.

Ademais, a estrutura familiar de Nadine ainda conta com a sua mãe Mona (Kyra Sedgwick), a qual, infelizmente, não alcança objetivo narrativo algum. A personagem exprime muita superficialidade, e mesmo se entendendo que tal possui justificativas residentes no passado, a sensação de frivolidade permanece. Com uma estruturação de família quase desmoronada, cabe ao Sr. Bruner (Woody Harrelson) ter o papel de levar Nadine do desespero ao conforto. Diferentemente do que se espera, tal figura amiga não é nenhum pouco cliché. Os diálogos – em geral outro ponto alto do filme – entre o personagem e a protagonista são inspiradíssimos, e pouco convencionais. É uma relação ambígua, com os dois trocando desfeitas surpreendentemente simpáticas.

Outrossim, embora perceptível o caminho que será designado ao personagem Erwin (Hayden Szeto), a escalação não poderia ser mais acertada. O ator imprime muita afeição, destacando-se sempre que está contracenando com alguém. O momento entre ele e Nadine na piscina parte de um pressuposto conflito entre ambos para uma jocosidade inesperada. Novamente, assim como Krista, o personagem parece sumir de hora em hora. Para o desenvolvimento da sua relação com Nadine era necessário mais tempo de tela dele, que reaparece repentinamente no final do filme, em uma sub-trama que, particularmente, eu já tinha esquecido que existia. Falando nela, a conclusão da obra traz uma esperança positiva, porém, apressada, abrupta e não condizente com a construção da protagonista. O filme se rende às expectativas mais pobres e comuns que se tem quando o assunto é cinema; dolorosamente – vide a qualidade do filme apresentada – previsível.

Tendo em vista o belo elenco de Quase 18, os deméritos da obra acabam alcançando em suma o roteiro de Kelly Fremon, a qual, apesar das melhores das intenções e com uma inspiração para lá de certeira – John Hughes estaria orgulhoso dessa sua obra-filha – acaba não encontrando os caminhos mais adequados para contar a história que quer contar. Todavia, este é, independente de tudo, um filme com valor, que vale a pena ser assistido por todos, adultos e adolescentes, tanto os que vão se relacionar com as personagens do longa, quanto com os que vão entender o outro através da empatia.

Quase 18 (The Edge of Seventeen) — EUA, 2016
Direção: 
Kelly Fremon Craig
Roteiro: Kelly Fremon Craig
Elenco: Hailee Steinfeld, Haley Lu Richardson, Blake Jenner, Woody Harrelson, Hayrden Szeto, Kyra Shedgwick, Alexander Calvert, Eric Keenleyside, Nesta Cooper, Lina Reena, Ava Grace Cooper, Katie Stuart, Christian Michael Cooper, Daniel Bacon
Duração: 104 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.