Crítica | Quatro Vidas de um Cachorro

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estrelas 0,5

Dirigido por Lasse Hallström, que já nos trouxera um filme sobre um cão e seu dono anteriormente, com Sempre ao Seu Lado, além de outras obras de destaque, como Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador ChocolateQuatro Vidas de um Cachorro é o típico filme feito para arrancar lágrimas da audiência, afetando especialmente os amantes de cachorro. Mas filmes sobre os caninos não são nenhuma novidade nos cinemas, afinal, já tivemos K-9: Um Policial Bom pra Cachorro, cujo subtítulo, vulgo piadinha infame, me faz rir até hoje; Marley e Eu, outro longa-metragem feito para as pessoas entrarem em prantos e, é claro, toda a franquia Beethoven, que faz o músico revirar em seu túmulo só pelo uso de seu nome.

A obra em questão até tenta adotar um tipo de espiritualidade ao trazer a ideia de que o espírito do cachorro reencarna em diferentes caninos (seria muito mais interessante e perturbador se encarnasse em seres humanos também, mas não vamos divagar). A trama toma isso como base e nos mostra as cinco (sim, o título está errado) vidas de um cão: a primeira é muito curta e por isso, provavelmente, foi ignorada por quem traduziu o nome do filme no Brasil, na segunda ele encontra o dono perfeito, Ethan (Bryce Gheisar, K.J. Apa e Dennis Quaid), que acompanhamos da infância à juventude e na quarta vida voltamos para a fase adulta. A terceira vida, por sua vez, o coloca como um cão policial, na quarta como um Corgi e a última temos um retorno às origens.

Se eu fui muito breve com a descrição de cada vida é justamente porque elas não oferecem absolutamente nada além de seu melodrama barato, não há conteúdo algum, ou conflito além da morte que sabemos que irá acontecer. Se havia alguma surpresa sobre o cachorro reencontrar seu dono em uma vida futura, isso foi completamente estragado pelos trailers. Para aqueles que leram essa crítica e não sabiam nada disso, não se preocupem, a própria história faz questão de deixar esse reencontro bastante óbvio desde cedo, inclusive tornando os trechos com Ethan bem mais longos que os outros, o que estraga qualquer potencial surpresa.

Essa preocupação maior com os trechos do “dono perfeito” acabam gerando uma outra dúvida: era necessário mostrar mais duas vidas filler entre a segunda e a quinta? Evidentemente que não, aquilo está ali somente para tornar o negócio todo o mais dramático possível e fazer as pessoas saírem do cinema dizendo “que filme bom, eu chorei muito”, quando, na verdade, foram pegas pelo velho truque do filme sem conteúdo. Chega a ser engraçado como nenhum arco pessoal, mesmo do cachorro, é desenvolvido ao longo da projeção, apenas o vemos fazendo cachorrices e o roteiro tenta nos empurrar de que isso é material digno para um longa-metragem, quando seria muito melhor colocado como propaganda de casa de adoção.

Esse irônico humor, aliás, é o único que consegue nos atingir no filme, visto que a constante voz em off de Josh Gad tenta ser engraçada, mas não consegue, na maioria das vezes não refletindo nem um pouco o que o cão demonstra em tela. Temos aqui um desejo absoluto do texto se demonstrar “fofinho” e que não oferece nenhuma informação além das óbvias que já vemos pelas imagens. Ouso dizer que a obra conseguiria ser mais impactante apenas com os latidos dos cachorros, dispensando o ser humano que fala por trás delas. Mesmo a busca pelo seu propósito de vida, que permeia toda a narrativa, prova ser uma total perda de tempo para o espectador, visto que nada de relevante emerge no final, além da óbvia mensagem que já seria firmada sem ser necessário o uso de palavras.

No fim, Quatro Vidas de um Cachorro prova ser exatamente o que fora mencionado antes aqui no texto: uma propaganda para a adoção de cachorros e nada mais. De fato, sou 100% a favor disso, mas não precisávamos sentar por duas hora em uma sala de cinema para descobrirmos se queremos ou não um animal de estimação. Puro melodrama barato, temos aqui uma obra completamente ausente de conteúdo, que finaliza com o óbvio em todos os sentidos e nem entrarei na polêmica envolvendo os maus-tratos a um dos cachorros, já que a própria (ausência de) qualidade da obra é o suficiente para que as pessoas decidam ou não assisti-la nos cinemas.

Quatro Vidas de um Cachorro (A Dog’s Purpose) — EUA, 2017
Direção:
 Lasse Hallström
Roteiro: W. Bruce Cameron, Cathryn Michon, Audrey Wells, Maya Forbes, Wally Wolodarsky
Elenco: Josh Gad, Dennis Quaid, Peggy Lipton,  Dennis Quaid, K.J. Apa, Bryce Gheisar, Juliet Rylance, Luke Kirby, Britt Robertson
Duração: 120 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.