Crítica | Que Estranho Chamar-se Federico – Scola Conta Fellini

estrelas 4

Se realizar uma boa cinebiografia já é algo complicado devido os impasses narrativos relacionados ao gênero, imagine fazer uma cinebiografia múltipla de formatos sobre um diretor do porte de Federico Fellini.

A aposta de Ettore Scola em Que Estranho Chamar-se Federico é mista de ousadia e saudosismo. O diretor octogenário volta ao passado para contar um pouco de sua infância, sua relação com Fellini desde os “tempos de artista de jornal” e como a obra do Mestre de Rimini esteve presente em toda sua vida e marcou definitivamente o cinema italiano e mundial. Misturando caraterísticas do documentário, da dramatização e colagem cinematográfica, Scola realiza um belo filme-homenagem ao amigo diretor, um filme metalinguístico que se assume como tal e se orgulha de olhar para o próprio umbigo.

O modelo de referências e o modo como são realizadas ao longo do filme me lembrou o elenco de símbolos fellinianos espalhados por Milo Manara na graphic novel Viagem a Tulum, e aqui, tenho o perdão da diferença de mídia. Indicações de cenários, angulação e planificação, palhaços, mágicos, mulheres de seios fartos, pessoas de “cara engraçada e estranha”, bizarrices e sutilezas… todos esses elementos podem ser vistos no filme de Scola em maior ou menor grau dependendo do momento da reprodução. Lá estão os planos que nos fazem lembrar Oito e Meio, a clara referência ao documentário-dramático Os Palhaços, as muitas indicações do amor e percalços artísticos presentes em A Doce Vida e relações imagéticas que trazem tanto informações conhecidas sobre a infância de Fellini quanto reproduções ou homenagens a sequências de Roma e Amarcord.

Scola manipula com maestria os muitos lados possíveis da História e da Ficção desde a sua faceta particular até a exploração da obra de Fellini como um todo, algo que ganha um belo e inteligente contorno no início, se expande no desenvolvimento da obra, mas infelizmente se perde no desfecho, dando-nos a impressão do objeto pelo objeto, passando de uma linha cadenciada de dramatização e exploração biográfico-cinematográfica vida para uma rápida montagem com trechos de filmes de Fellini, de Abismo de um Sonho até A Voz da Lua. É como se o sentido diverso da fita se perdesse rapidamente, dando lugar a um exibidor veloz de momentos fílmicos.

Diz-se que Scola ficou preso no universo que ele próprio se dispôs explorar e ressignificar. Bem, eu não vejo assim. O diretor tem bastante experiência com trabalho vanguardista de imagem e já escreveu roteiros que faziam da diferença entre documentário e drama ou comédia apenas um tênue detalhe. Em Que Estranho Chamar-se Federico, ele não se perde no jogo metalinguístico que cria, muito pelo contrário. Ele encontra formas em tempos diferentes e com personagens em várias etapas da vida para narrar e mostrar uma relação de amizade e crescimento profissional, algo que, como já foi dito, só encontra sua falha no desfecho.

A evocação de Nino Rota na trilha sonora de Andrea Guerra e o uso da inesquecível composição de Rota para Oito e Meio, já no desfecho do longa, servem de plano de fundo para tornar o mundo felliniano mais presente, quase físico. Todavia, ao mesmo tempo que nos traz Fellini, Scola também traz a si mesmo, não só com trechos de seus próprios filmes, mas através de sua estética narrativa para realizar um filme sobre outro diretor. É como se víssemos dois formatos distintos se fundindo para formar um todo coerente, mesmo que saibamos possuir fontes distintas.

Que Estranho Chamar-se Federico nos apresenta uma jornada corajosa, divertida e inteligente pelo universo de Fellini e, ao mesmo tempo, nos mostra o trabalho de Scola com novas tecnologias tendo como base o uso de “velhos métodos”. No sentido estético e conceitual, trata-se de um filme incrível. De uma forma ou de outra me lembrou tentativas plurais e audaciosas de realização como a de Resnais em Vocês Ainda Não Viram Nada! ou dos irmãos Taviani em César Deve Morrer. O conceito de mistura de formatos, variação estética e ponte entre momentos diferentes de se fazer cinema marcam essas obras, como também marcam Que Estranho Chamar-se Federico, fazendo deste longa uma homenagem notável a um dos grandes mestres do cinema, um filme que infelizmente peca na finalização, mas que consegue sua louvável absolvição quando avaliado no todo.

Que Estranho Chamar-se Federico – Scola Conta Fellini (Che strano chiamarsi Federico) – Itália, 2013
Direção: Ettore Scola
Roteiro: Ettore Scola, Paola Scola, Silvia Scola
Elenco: Tommaso Lazotti, Maurizio De Santis, Giacomo Lazotti, Giulio Forges Davanzati, Ernesto D’Argenio, Emiliano De Martino, Fabio Morici, Carlo Luca De Ruggieri, Andrea Salerno
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.