Crítica | Que Fiz Eu Para Merecer Isto?

estrelas 4

Fruto da primeira fase da carreira de Pedro Almodóvar, Que Fiz Eu Para Merecer Isto? (1984) é uma ousada narração sobre uma família disfuncional (não da maneira banal do termo) onde cada um dos membros apresenta uma particularidade fora do que é socialmente aceito, e o mesmo vale para os conhecidos desses indivíduos, que juntos, formam uma fauna de personagens “sujos e malvados”, pequenos retratos do que está no subterrâneo social da bela Madri cosmopolita vista nos anúncios de TV.

Fazendo um jogo de representação e realidade –- ironizando, inclusive, a publicidade televisiva -–, Almodóvar realiza uma crônica familiar que muito bem pode ser vista como o cotidiano de centenas de famílias pelo mundo a fora, seja em sua totalidade ou parcialidade. Os arquétipos sociais mais diversos estão postos na tela: o jovem viciado e traficante que vai mal na escola; a mãe desapegada aos filhos e infeliz no casamento; o pai alheio à família e fascinado por um amor do passado; o filho adolescente homossexual que mantém relações com pessoas bem mais velhas que ele; a sogra que é um peso para a família… Juntos, esses personagens formam um todo que mistura drama, tragédia e suspense com fortes doses de humor negro e crítica social.

O filme lembra um pouco os três exercícios anteriores do diretor, principalmente em sua coragem de mostrar os segredos infames das pessoas que aparentemente vivem uma vida normal e invejável, à sua maneira. Como nestes filmes, temos aqui uma colagem de diversas situações, todas elas passando por temáticas já bem estabelecidas na filmografia do diretor, que só estava em sua 4ª película. Assim, vemos a imoralidade comportamental, inclusive com inclinações políticas como em Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980); o desregramento sexual, o vício e a tentativa de fugir da “prisão de erros” como em Labirinto de Paixões (1982) e a preocupação em aliar forma narrativa e estética – através de símbolos arquitetados na fotografia, direção de arte e montagem – como em Maus Hábitos (1983).

Esses retalhos comportamentais e estilísticos fazem de Que Fiz Eu Para Merecer Isto? um filme com características realmente peculiares e acompanha a prematura maturidade que o diretor começou a palmilhar em Maus Hábitos. O jovem cineasta mostra saber modular muito bem a delicadeza e a brutalidade, o asco e o fascínio diante das coisas comuns, desde o ato sexual até as pequenas manias que todos nós possuímos, um detalhe do filme que alcança imediata identificação com o público, mesmo que as personagens, em um momento admiradas, se tornem odiadas com o passar dos minutos.

Aqui, o diretor não percorre meandros narrativos e nem floreia situações, uma prática que infelizmente se tornaria constante em seus trabalhos posteriores a Fale Com Ela (2001), muitas vezes exagerando a dose, embora o resultado final fosse bom (caso de Abraços Partidos, 2009) e muitas vezes se entregando à canalhice fácil, corrompendo o seu próprio universo (caso de Os Amantes Passageiros, 2013). A objetividade é a palavra de ordem em Que Fiz Eu Para Merecer Isto?, ingrediente que torna a obra fluída, com um significado imediato e dissecado de maneira fantasiosa pelo diretor através da garotinha telecinética ou do tom metalinguístico utilizado no início.

Podemos dizer que Que Fiz Eu Para Merecer Isto? é um filme sobre as reações em cadeia quando o marasmo, a dubiedade moral e o acúmulo de desgraças alcançam um ponto crítico na vida de algumas pessoas. Todos os pequenos e grandes defeitos se aliam para formar um ciclo onde cada um é afetado de alguma forma pelos erros ou ações do outro. Ao final, entendemos que tudo aquilo que parecia grande demais era apenas um ponto em uma enorme cidade onde inúmeras outras situações semelhantes e até piores se passam. A pergunta-título, então, paira como uma ladainha fatalista sobre todos, especialmente sobre aqueles que acham normal demais padecer suas desgraças e pouco fazem para mudar estas situações enquanto ainda é possível.

Que Fiz Eu Para Merecer Isto? (¿Qué he hecho yo para merecer esto!!) — Espanha, 1984
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Carmen Maura, Luis Hostalot, Ryo Hiruma, Ángel de Andrés López, Gonzalo Suárez, Verónica Forqué, Juan Martínez, Chus Lampreave, Kiti Mánver, Sonia Hohmann, Cecilia Roth, Diego Caretti
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.