Crítica | Que Mal Eu Fiz a Deus?

estrelas 4

A França é, talvez, o país da Europa que mais convive com diferenças raciais. O país é conhecido por ser esse grande caldeirão de etnias, mas nem sempre isso termina de uma forma amistosa.

O cineasta Philippe de Chauveron se apropria desse “problema” vivido pelos franceses todos os dias como premissa para a comédia rasgada Que Mal Eu Fiz a Deus? O filme fez parte da programação do Festival Varilux de Cinema Francês e não tem data para estrear no Brasil.

Na trama, o casal Verneuils tem quatro lindas filhas. Católicos, conservadores e um tanto preconceituosos, eles não ficaram muito felizes quando três de suas filhas se casaram com homens de diferentes nacionalidades e religiões (um judeu, um argelino e um chinês). Quando a quarta anuncia o seu casamento com um católico, o casal fica nas nuvens e toda a família vai se reunir para o casório tão esperado. Mas logo eles vão descobrir que nem tudo é do jeito que eles querem, já que o pretendente é de origem africana, vindo da Costa do Marfim.

O bacana do longa é que todos os personagens possuem algum grau de preconceito e isso faz a história fluir melhor. Ninguém é santo naquela família cosmopolita e aos poucos os personagens vão se dando conta que as diferenças raciais, culturais e religiosas é o que torna todos ali especiais e diferentes.

As piadas entre os genros e o sogro são as melhores. E ninguém escapa: o humor dos chineses, ou a falta dele, tradições judaicas, diferenças na culinária, tudo é motivo para risadas dos espectadores. Até a igreja católica leva ferro com um padre pouco convencional.

Muito inteligente também mostrar a família do pretendente de uma das filhas. Lá na Costa do Marfim os preconceitos são os mesmos, nem maiores, nem menores. O pai é contra o casamento, queria que o filho se casasse com uma moça negra, da cidade, com as mesmas tradições. Mas ninguém manda no coração e o que nos torna tão especiais não seria mesmo essa louca mistura?

Alguém pode pensar que o humor usado no filme é nocivo e fazer piada da cultura de um povo não tem graça nenhuma! Discordo. Apesar de ter sido feito antes dos ataques à Revista Charlie Hebdono início desse ano, roteiro explora bem e mostra que as brincadeiras e preconceitos fazem parte daquela família, que se ama, é verdade, como fazem parte de cada um de nós também. Afinal, somos cheios de preconceitos. E não adianta dizer que não!

Essa comédia toca em um problema que a França vive de uma forma leve e muito gostosa de assistir. Um filme divertido, para aquele final de semana sem pretensões, sabe, que você está afim de dar risada com alguma coisa mais inteligente do que comédias americanas sempre iguais? Claro que o filme é cheio de clichês do gênero (em alguns momentos lembra os filmes de casamento americano, tipo, Entrando Numa Fria, só que melhor). Pois então, Que Mal Eu Fiz a Deus? não precisa ser levado a sério, mas rende boas risadas e até alguma discussão sem muito aprofundamento ao final da sessão.

Que Mal Eu Fiz a Deus? – (Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? – França – 2014)
Direção: Philippe de Chauveron
Roteiro: Philippe de Chauveron
Elenco: Christian Clavier, Chantal Lauby, Ary Abittan, Medi Sadoun, Frédérique Bel, Noom Diawara, Tatiana Rojo, Elie Semoun
Duração: 97 minutos

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.