Crítica | Que Viva Eisenstein! – 10 Dias que Abalaram o México

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estrelas 3,5

A peregrinação criativa de Sergei M. Eisenstein pela Europa entre o final de 1928 e início de 1929; e pelos Estados Unidos e México entre 1930 e 1932 é até hoje motivo de especulação, algumas também criativas, como as que gerou este longa do cineasta britânico Peter Greenaway, Que Viva Eisenstein! – 10 Dias que Abalaram o México (2015).

Tendo rodado mais de 30 horas de filme entre abril de 1931 e janeiro de 1932, Eisenstein tinha em mente realizar um épico sobre a cultura e o cotidiano mexicanos, especialmente a relação desse povo com a tragédia e a morte. O diretor, porém, jamais teria a oportunidade de editar o filme e o resultado final acabou nas mãos do assistente de direção Grigori Aleksandrov. Com algum material adicional, Aleksandrov editou o que foi filmado, décadas depois, obedecendo à risca as anotações deixadas por Eisenstein. O resultado foi Que Viva México! (1979), que tem 90 minutos de duração.

Valendo-se de dados históricos importantes e interessantes (como fotografias e reportagens de época, especialmente as que foram tiradas durante a passagem da equipe soviética por Hollywood) e algumas informações sobre a expedição, Peter Greenaway realiza uma obra que foca mais na vida pessoal de Eisenstein (muito bem interpretado pelo ator finlandês Elmer Bäck) do que em sua produção no país de Zapata. Em alguns momentos isso se torna a mesma coisa, é verdade, mas são apenas em alguns momentos. Durante a maior parte do tempo o roteiro explora os amores, desamores, reflexões, explosões de alegria, tristeza, ódio e ações malucas do diretor soviético, ações tão malucas e comportamento tão excêntrico que descaracteriza aquilo que historicamente se sabe, de fato, sobre Sergei Eisenstein, que era sim excêntrico, mas não ao nível que vemos aqui.

Nesse aspecto, o que mais pesa são as incorreções históricas e biográficas, embora o espectador consiga perdoar isso porque parte da proposta narrativo-formal de Greenaway é manipular, através do exagero e de um barroquismo que, por incrível que pareça, fica excelente na tela (pelo menos na maior parte das vezes), a história de coisas, obras e pessoas como as conhecemos, vide o que ele fez com Shakespeare em A Última Tempestade (1991). Por outro lado, explorar de maneira unívoca determinados aspectos do protagonista, como a sexualidade, por exemplo (Pera Atasheva, sua futura esposa, é uma estranha confidente aqui) ou praticamente isolar a produção de Que Viva México! em prol de interesses lascivos não tornou o enredo melhor.

Ainda é importante questionar a função da orquestra ensaiando a trilha de acompanhamento para Potemkin. Por quê ela não está ligada a nada de mais sólido na história? E o pior é que são vários takes da orquestra, sempre colocados em um momento de reflexão do diretor, quase como um lembrete de que aquele momento de sua vida era, para seu próprio espírito, “o grande filme”. Esta conclusão, no entanto, não sustenta o uso desleixado da orquestra, pois o mesmo conceito interpretativo poderia ser suscitado por outros caprichos estéticos, ainda mais quando falamos de uma mente criativa como a de Peter Greenaway.

No aspecto formal, fica difícil não se encantar com o trabalho. Desde a orientação para uma montagem-colagem e execução muito peculiar de “enquadramento final” (resultado da arte-montagem em um único quadro, também levando em consideração o (s) enquadramento (s) do plano) são alguns dos maiores atrativos para o espectador, muito mais do que o próprio enredo do filme a partir do momento em que a ligação entre Eisenstein e Palomino Cañedo se torna mais intensa (especialmente após a noite do “ritual de desvirginização”, que traz uma cena desnecessariamente longa e filmada sem nenhum esmero, nem parece ser de Greenaway).

Com excelentes interpretações e uma abordagem questionável mas não menos interessante, Que Viva Eisenstein! (ou Eisenstein em Guanajuato) é uma jornada de quebra de paradigmas para um artista que dentro daquilo que sabia fazer de melhor, dirigir filmes, já havia marcado o seu lugar na História do Cinema. Visualmente cativante — as angulares que fazem o ambiente ora côncavo, ora convexo; a direção de fotografia com muito brilho e excelente uso de luz focal e a montagem criativa e inovadora assinada por Elmer Leupen (conhecido de Greenaway desde 8 ½ Mulheres) são os pontos fortes da fita — e tematicamente polêmico (?), a obra é uma viagem sobre uma viagem, um exemplo de que existem formas bem menos convencionais e mais experimentais de se trabalhar com a metalinguagem no cinema.

Que Viva Eisenstein! — 10 Dias que Abalaram o México (Eisenstein in Guanajuato) — Países Baixos, Bélgica, Finlândia, México, França, 2015
Direção: Peter Greenaway
Roteiro: Peter Greenaway
Elenco: Elmer Bäck, Luis Alberti, José Montini, Cristina Velasco Lozano, Rasmus Slätis, Jakob Öhrman, Sara Juárez, Alaín Vargas, Maya Zapata, Stelio Savante
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.