Crítica | “Queen II” – Queen

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estrelas 4

Existem duas formas de olharmos para Queen II (1974). A primeira, dentro da famigerada “maldição do segundo álbum”, que se encaixa aqui em alguns sentidos; e a segunda, como uma ligação entre o início “para marcar território” e a sequência para “criar uma identidade musical única”, como muito se disse a respeito do disco e que também é a minha opinião sobre ele.

Lançado em março de 1974, Queen II teve facilidades de produção que Queen (1973) não teve. Com horários sociais de gravação no Trident Studios, em Londres, além de um considerável orçamento para a produção, o disco nasceu com a ideia de ser diferente do primeiro em concepção musical (pelo sim, pelo não, Queen II é um álbum conceitual, mas falaremos mais disso adiante), já que a banda queria liberdade para fazer “o que bem entendesse” neste novo projeto. Tal liberdade trouxe algo que no primeiro disco havia sido ensaiado mas não executado: a fixação de um reconhecimento da banda através de suas canções. O Queen passou a se diferenciar amplamente de outras bandas britânicas e criar o seu mundo particular, a começar pelo importantíssimo papel de Brian May na linha musical, com o modelo de afinação de guitarra que virou marca registrada.

Lembrando exercícios de power chord à la Link Wray ou Elmore James, May afinava sua guitarra uma oitava acima ou abaixo do que era esperado para a maioria das canções, o que ajudava a criar um corpo sonoro particular e inigualável para o disco, um truque amplamente usado nas obras seguintes. Já a técnica de overdub, além de ser parte do trabalho vocal da banda, passou a marcar também as variações de guitarra, tanto nos acompanhamentos simples quanto nos solos. Contando com esses novos avanços, o Queen mostrou as garras de seu lado operístico (Freddie Mercury brilha, neste quesito), criando coros e contrapontos musicais para o rock como se estivesse executando uma ária com uma orquestra experimental.

A organização do disco em White Side e Black Side salienta ainda mais a ideia de ópera, embora essa divisão traia um pouco a banda porque dá a visão de um álbum de fato conceitual, quando na verdade, trata-se de uma ideia de organização. Não existe, a rigor, um conceito narrativo que dê um “tema” a Queen II. De todo modo, os dois lados trazem canções que se opõem (as rainhas!) e algumas letras que seguem a tênue linha de ideais opostos.
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White Side
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À exceção de The Loser in the End, assinada por Roger Taylor, todas as canções deste lado mais “claro e humano” do disco são de autoria de Brian May. Após Procession, a marcha fúnebre em overdub tocada em uma guitarra de múltiplos canais, temos Father to Son, um diálogo entre um pai e um filho sobre os caminhos da vida e sobre o que ela pode ser, dependendo de nossas ações. Trata-se de uma bela lição de sobrevivência e civilização executada com partes mais gentis, com o piano em destaque, e claros elementos de heavy metal (elementos que estão bastante presentes neste disco), contando também com um sentimentalismo notável na voz de Freddie Mercury e um vocal narrativo da banda que torna a canção ainda mais reflexiva.

A ligação entre Father to Son e a excelente White Queen (As It Began) acontece de forma sutil e conta com uma notável mixagem de som, iniciando mais uma jornada pessoal, aqui, de um eu-lírico que clama pela idealização de uma mulher perfeita, a “Rainha Branca” do título. Brian May se inspirou no livro A Deusa Branca – Uma Gramática Histórica do Mito Poético (1948), de Robert Graves, para conceber essa personificação da Rainha, e abre e fecha o ciclo com uma melancolia profunda e nuances de filosofia e mitologia. A relação entre partes acústicas e rock pesado foi a perfeita combinação para a criação dessa história com cara de saga.

Um pouco menos melancólica, por trazer uma mensagem de esperança já no título, Some Day One Day é primeira canção do Queen com vocais principais de Brian May e, apesar da simplicidade vocal, classifica-se como uma das mais bem concebidas musicalmente do disco, com um arranjo que comporta violão como base e termina com um solo editado de três guitarras gravadas em padrões rítmicos diferentes. Essa canção é a porta de entrada para a faixa de Roger Taylor e o encerramento do White Side, a deliciosa The Loser in the End, que conta com liderança vocal do compositor. A canção não é expressivamente impressionante mas mostra boas ideias de frases musicais destacando a guitarra (a composição foi feita em cima do diálogo voz-instrumento) e uma onomatopeia chiclete, o “u-huuu” agudo que torna simpática as repetições de alguns versos da canção.
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Black Side
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Neste segundo lado do disco, o “mais sombrio, ensandecido e fantasioso”, as canções foram compostas por Freddie Mercury. Todas são ótimas, à exceção de uma, Funny How Love Is, que começa bem, mas logo deixa a boa introdução de lado e adota um caminho pouco aceitável para a ideia geral do disco. Além da letra pouco inspirada, o fato de ter sido composta no estúdio deve ter diminuído o tempo de trabalho musical para a gravação, fazendo dela uma das execuções mais fracas de estúdio da banda nesse período operístico (Queen — A Day at the Races). De maneira curiosa, Mercury apresenta altos pontos vocais nesta canção, o que não dá para deixar passar.

Ogre Battle, uma das melhores canções do disco, abre o lado B. A ideia de começar a música exatamente com a mesma linha final tocada de trás pra frente já nos dás uma noção inicial do que Mercury idealizou aqui. Fica fácil entender por que a banda não quis gravar a canção em seu disco de estreia. É muita informação e muita novidade para uma música só.

A divisão vocal de Ogre Battle é basicamente levada por Mercury e May, que fazem, respectivamente, a voz dos ogros e a harmonia do grito de batalha. A guitarra em som de simulação de guerra, a ótima manipulação de sons para dar a ideia de combate (destaque para a bateria desesperada de Roger Taylor), o gongo final e a letra interessantíssima com um sutil tom de humor são algumas das características centrais da canção.

A partir daí vemos que a fantasia se junta à loucura e à morte em The Fairy Feller’s Master-Stroke, completada musicalmente pela canção seguinte, Nevermore, podendo até ser vista como uma lamentação de um dos personagens de The Fairy, já que são muitos, como vemos no quadro homônimo do artista vitoriano Richard Dadd, que inspirou Mercury compor a letra. A banda e o produtor Roy Thomas Baker foram quase obrigados por Mercury a irem até a Tate Gallery, em Londres, estudar o quadro de Dadd e então criarem elementos diferentes e experimentais para a música. Perceba que, apesar de uma linha central ao piano que serve de base para a canção, existem inúmeras variações vocais e instrumentais com castanholas, cravo, guitarra hard e overdubs vocais que dividem-se em blocos de arranjo uníssono e duplicações e triplicações de vozes adicionais. O complemento ao piano, que finaliza a música, leva-nos à bela e triste Nevermore uma balada com vocais bem estruturados (lembrando um pouco a canção anterior) e sintetizadores na entrelinha musical.

Fairy

The Fairy Fellers’ Master-Stroke (1855–64), de Richard Dadd, o quadro que inspirou Freddie Mercury a escrever a canção de mesmo título.

Seguindo a ideia de contraponto, temos a impressionante The March of the Black Queen, que tem estrutura musical e execução ainda mais complicadas que Bohemian Rhapsody. Perceba que existe pelo menos duas mudanças rítmicas e polimétricas por minuto, e estamos falando de uma canção que dura 6’04”, cujo final liga-se imediatamente à já comentada Funny How Love Is.

A letra de The March of the Black Queen, que relaciona poder, morte, dominação e uma série de coisas randômicas é uma brincadeira poética épica executada com excelência, especialmente nos vocais, cuja tessitura tem variação de duas oitavas e meia (!). Da delicadeza de alguns momentos à mudança no andamento dos compassos The March of the Black Queen, é uma canção extremamente exigente e múltipla de estilos em si mesma, infelizmente complexa demais para ser tocada ao vivo.

O álbum termina com Seven Seas of Rhye, um pop rock com início ao piano que se resolve musicalmente já nos 20 primeiros segundos. A canção foi lançada em uma versão instrumental no álbum de estreia da banda, mas em Queen II ganhou uma variação de arranjo e uma letra dentro do mundo de fantasia que o título sugere, o mundo imaginário de Mercury que em Queen se mostrara também na canção My Fairy King. Vale também dizer que a música foi o primeiro hit de sucesso da banda e o único de Queen II.

A versão remasterizada de 1991 deste álbum lançou uma ótima faixa bônus (lançada em 1974 como lado B do single Seven Seas of Rhye e, no Japão, acompanhando o compacto com The Loser in the End) chamada See What a Fool I’ve Been, composição de Brian May e uma experiência bem curiosa do Queen com o blues, inspirada na canção That’s How I Feel de Sonny Terry and Brownie McGhee. A música foi lançada em fevereiro de 1974, nove meses antes da chegada de Sheer Heart Attack, e foi executada diversas vezes ao vivo durante as turnês da banda.

Queen II é um álbum de concepção interessante, com algumas canções inesquecíveis, mas um resultado final que, devido a tropeços pontuais, chega a ser um pouquinho menor que o do disco anterior, a despeito de obras-primas como White Queen (As It Began), Ogre Battle, Nevermore e The March of the Black Queen. Todavia, aqui estava o impulso e ânimo que o quarteto trazia desde o ano anterior e que então elevava a um padrão de identidade musical, o mesmo padrão que passariam a polir até a perfeição a partir de Sheer Heart Attack (1974), seu álbum seguinte.

Aumenta!: Ogre Battle
Diminui!: Funny How Love Is
Minhas canções favoritas do álbum: White Queen (As It Began)Nevermore

Queen II
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 8 de março de 1974
Gravadora: Parlophone (Europe), Elektra (EUA), EMI (Reino Unido)
Estilo: Rock, Rock Progressivo, Hard Rock

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.