Crítica | “Queen of the Clouds” – Tove Lo

estrelas 5,0

Em 2013, no meio de tanto pop comportadinho e pseudo-maduro, surgia uma jovem sueca no auge de seus 26 anos, de voz melancólica e embalada por uma batida hipnótica, dizendo que tem que se manter chapada o tempo todo para esquecer que sente falta de outra pessoa. O clipe de Habits (Stay High) mostra a garota indo de bar em bar, de festa em festa, beijando homens e mulheres enquanto desfruta de copos de cerveja, tragadas de cigarro e shots. A música se tornou um sleeper hit – quando algo se torna um fenômeno sem ter tido muita promoção/divulgação –, e teve ainda mais buzz depois da versão remixada feita por Hippie Sabotage, que embala pistas do mundo inteiro até hoje.

Ainda não se sabia, mas a falta de limites de Tove Lo estava apenas começando. Um ano e um EP depois (Truth Serum), a sueca lançava seu disco de estreia, Queen of the Clouds. O trabalho é dividido em três partes: The Sex, The Love e The Pain (O Sexo, O Amor e A Dor, respectivamente), cada uma delas iniciada por um pensamento dito pela própria Tove.

Parte I – O Sexo: “A paixão inicial sempre será a melhor parte.”

A dinâmica My Gun já começa com a voz absurdamente hipnótica e sensual de Tove nos convidando para uma jornada íntima e sexual. “Cabeças se viram/Seu corpo queima/Tire suas roupas para mim/Me agarre/Vamos gritar/Dançando nus/Nos sentindo livres”… Ela já quer mostrar, logo na primeira faixa, que você deve se despir de todo e qualquer preconceito, pensamento, pudor ou frescura para embarcar na experiência Queen of the Clouds. “Você me acha fácil?”, ela indaga sem se importar com a resposta que receberá.

Depois de uma canção sobre gostar de se relacionar com jovens – como ela –, Like Em Young, Tove continua revelando suas aventuras sexuais em Talking Body, uma das melhores canções pop dos últimos anos e, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes do álbum. Incansável, devassa e insaciável, a cantora descreve como ninguém a fase de curiosidade/amadurecimento/despertar sexual de muitos jovens da casa dos vinte, com direito a baladas, sexo casual, beijos descompromissados e noites loucas, sem esconder a verdade, maquiá-la e, principalmente, sem se importar nem um pouco com julgamentos. “(…) Eu não me importo, eu faço o que você quiser/Bêbada do dia até a noite/Quero manter você aqui (…)” Ela canta os versos com a propriedade de quem viveu aquelas experiências, de quem sabe o que está falando, de quem aprendeu com a vida que todo mundo tem um lado selvagem, que pode aflorar com mais frequência em uns do que em outros, mas que cedo ou tarde dá as caras. “Se vamos falar de corpo/O seu é perfeito/Coloque-o em mim/Juro que não vai demorar/Se você me amar certo/Vamos transar a vida toda/Sem parar, sem parar”. É interessante ressaltar como Tove Lo trata o sexo e o ilustra muito bem durante todo o trabalho, forçando assim os mais puritanos a experimentar a sua visão do assunto: tão explícita, tão honesta, tão incomum no pop atual. “Lábios, lábios eu beijo/Me morda, enquanto eu experimento a ponta dos seus dedos”. Muitos podem chamá-la de vulgar, mas o melhor de tudo é saber que ela não está nem aí para isso. “Corpos, nossos corpos férteis/Só os usamos para nos divertir/Vamos usá-los/Até que cada pedacinho se vá/Sem parar, sem parar”.

Timebomb surge logo em seguida cheia de efeitos: a canção é como a ressaca de uma noite de loucura, a tentativa de lembrar quem é a pessoa que dormiu ao seu lado ou, ainda, a trilha sonora do famoso walk of shame (aquela saída de fininho para não acordar a pessoa com quem você passou a noite). A faixa também já vai dando o tom e preparando o terreno para a segunda parte do álbum: “Você pediu passagem enquanto eu estava saindo/Você furou fila enquanto eu pegava minhas coisas/E eu não conseguia definir se você era o ser humano mais irritante que já conheci/Ou a melhor coisa que já me aconteceu”.

Parte II – O Amor: “E aí você pira porque, do nada, necessita daquela pessoa.”

Não só de luxúria vive Tove Lo. Nessa segunda parte, ela quer mostrar que pode direcionar sua honestidade e sinceridade, com a mesma precisão, para falar sobre si mesma e sobre o amor de uma forma mais melancólica. Na surpreendente Moments, ela abre o coração para falar de si – e, mais uma vez, fará com que muitos jovens de sua idade se identifiquem: “Não sou a mais bonita que você já viu/Mas tenho meus momentos/Não sou perfeita, nunca fui (…) Posso ficar bêbada/Fazer coisas que jamais faria/Mas nos meus melhores dias/Sou charmosa pra caralho”.

A batida de The Way That I Am, que flerta com o dubstep, é difícil de resistir. Enquanto Tove desabafa sobre querer alguém que a aceite como ela é – o que qualquer ser humano quer – beats se intensificam, mesclando-se à voz reflexiva da sueca. Em Got Love, um dos momentos mais agitados e agradáveis do álbum, ela parece encontrar a felicidade nos braços de alguém e desfrutar do que o amor tem a oferecer, expondo tudo numa balada enérgica. Not on Drugs é outro grande momento de Queen of the Clouds. A forma como o drop antecipa a voz de Tove e fica indo e voltando durante a canção visa o êxtase do ouvinte, além de nos convencer do drama de uma mulher que diz “Meu amor, por favor ouça/Não estou drogada/Não estou drogada/Só estou apaixonada”. À primeira audição, o verso pode parecer brega, exagerado e sem sentido, mas o contexto que Lo dá junto a produção da música, que tem, de fato, um certo sentimento de transe químico – temos até vozes ecoando ao fundo – resulta num pensamento legítimo e compreensível.

Parte III – A Dor: “E aí não existe uma forma boa de terminar as coisas, porque é um término, sabe?”

Na terceira e última parte de Queen of the Clouds, Tove Lo apresenta as consequências de se viver essa experiência louca chamada amar. Thousand Miles e This Time Around mostram o lado mais dramático da cantora, sempre acompanhado por ótimos hooks e drops bem pensados. A versão original de Habits (Stay High) canta, com mais detalhes do que a versão remixada, a dor de perder quem se ama e, como consequência, a entrega a uma espécie de estado anestesiado e inconsequente: “Como meu jantar na banheira/Vou a clubes de sexo/Ver pessoas esquisitas mandando ver/Isso não me deixa nervosa/Sou insaciável/Sim, já vivi um bocado e já vi de tudo”. Essa parte do álbum, principalmente Habits (Stay High), mostra como Tove acredita que amar é mesmo um ciclo (vicioso) que funciona na ordem das três divisões de Queen of the Clouds: ela se divertiu muito com alguém, se apaixonou, terminou e voltou para a (facilidade da) luxúria.

Run On Love é um presente final que a sueca nos dá. Extremamente atraente, impecavalmente produzida em conjunto com o DJ Lucas Nord e de letra otimista, a canção que esbanja um house irresistível é a cereja desse bolo delicioso chamado Queen of the Clouds.

O trabalho de estreia de Tove Lo é bem-sucedido em todos os sentidos da palavra. Desbocada, irreverente e, acima de tudo, honesta e sem frescura, ela faz com que Queen of the Clouds seja mais do que um excelente e muito bem produzido álbum de electropop, ele é um retrato fiel e sincero da rotina da casa dos vinte anos: as loucuras, as paixões, as decepções, os altos, os baixos, ou seja, as delícias e os dissabores da juventude. Por favor, Tove, continue entre nós, você não sabe o quanto sua atitude, autenticidade e franqueza são necessárias no cenário pop.

Aumenta! Talking Body
Diminui!
Canção favorita: Not on Drugs

Queen of the Clouds
Artista:
Tove Lo
País: Suécia
Gravadora:
Island
Lançamento:
24 de setembro de 2014
Estilo:
Electropop, Pop

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira