Crítica | Queer as Folk (A Série Completa – USA)

estrelas 4,5

Esqueça os beijos gays dos finais de novelas oportunistas. Esqueça também as demonstrações covardes dos temas ligados ao mundo da homossexualidade, um tema ainda tabu na contemporaneidade. Semelhante aos filmes que circulam no circuito “alternativo”, a série Queer As Folk abordou com profundidade celeumas da vida gay, através de discussões bastante pertinentes e que habitam o imaginário sobre o assunto: ser homossexual é um estilo de vida? Uma pessoa nasce gay ou transforma-se? Quem são essas pessoas que transmitem HIV propositalmente, os tais carimbadores? É possível deslanchar uma amizade com a pessoa na qual você se relacionou amorosamente?

Na história recente da televisão, foi Ellen DeGeneres quem começou a trazer polêmicas sobre sexualidade de uma maneira que a coisa tornou-se, digamos, “mais natural” ou “aceitável”. Will & Grace, de maneira mais suave, também apostou em paródias acerca dos estereótipos do mundo homossexual. Com a popularização da TV a cabo, houve o fortalecimento por conta da segmentação do público, situações que permitiram a produção da série pelo canal Show Time, com estreia em 03 de dezembro de 2000, tendo no Brasil o título de Os Assumidos.

Com episódios que trafegavam entre os 44 a 58 minutos ao longo das temporadas, a produção foi uma parceria entre o Canadá e os Estados Unidos, baseada na versão britânica homônima, criada por Russel T. Davis. Adaptada para o contexto pop e frenético da cultura estadunidense, Daniel Lipman e Ron Cawen, responsáveis por construir a ponte continental, apostaram em cenas de sexo mais tórridas e diálogos mais contundentes.

A versão conta com cinco personagens principais: Brian (Gale Harold), Michael (Hal Sparks), Justin (Raddy Harrison), Emmet (Peter Paige) e Ted (Scott Lowell). Como coadjuvantes que beiram o protagonismo, temos Lindsay (Thea Gill), Melaine (Michelle Clunie), Bem (Robert Gant) e a fabulosa Debbie (Sharon Gless), a mentora da série.

Brian é um rapaz oriundo do lado mais conservador dos estadunidenses. Seu pai não aceita a sua condição, a sua mãe opina pouco diante dos desmandos do marido, principalmente por ser uma fanática religiosa. De comportamento egoísta, agressivo e explosivo, admira ícones como James Dean e é o mais promíscuo do grupo. Hedonistas, vive obsessivamente a cultuar o seu corpo, como se este fosse um templo para satisfazer os desejos dos gays que o circunda. Esperto e sagaz, Brian sempre consegue unir essas prerrogativas com a sua beleza, geralmente conquistando o que almeja em sua lista de metas.

“Sem desculpas, sem arrependimentos”. Esse é o lema do protagonista que não respeita a miséria alheia e preza os prazeres da vida materialista, diferentemente de Justin, o seu parceiro fixo ao longo das cinco temporadas, interessante para se pensar a evolução de um personagem dentro de uma narrativa.  Surge na série com apenas 17 anos e destaca-se por ser um ótimo desenhista, habilidade que possibilitará uma parceria com o sonhador Michael, eterno apaixonado pelo narcisista Brian.

Fã do Capitão Astro, Michael é o melhor amigo de Brian e nutre uma paixão platônica pelo rapaz desde a adolescência. Sempre manipulado, é doce e às vezes ingênuo, dono de atitudes irritantes de submissão e humilhação. Vai abrir o seu negócio próprio em uma temporada, descobrir que o seu pai é um transformista em outra, até conhecer o professor Ben (Robert Gant), um soropositivo que surge para mudar a sua visão de mundo.

Emmet (Peter Paige) é a “diva” do grupo. Seu lema é “não viveria uma mentira por ninguém”. Fora do armário, é autêntico e cheio de vivacidade. Politicamente assumido, guarda memórias da sua infância influenciada por ícones gays. É apaixonado pelas divas da “era disco” e cita passagens marcantes do cinema hollywoodiano clássico constantemente, como por exemplo, as referências ao drama Casablanca e ao musical Funny Girl. No meio da série, vai confundir amor e amizade: assume um namoro com o complicado Ted (Scott Lowell), outro destaque no roll dos cinco personagens protagonistas.

Ted é um contador de 33 anos extremamente insatisfeito com o seu corpo. Declaradamente apaixonado por Michael, é o ponto erudito do grupo, pois consome ópera e conhece bastante de gastronomia. Viciado em sites pornográficos, vai se envolver com drogas em determinado ponto da série e adentrar numa fase cavernosa que precisará bastante da ajuda de amigos para sair com vida e sem profundas cicatrizes.

Neste universo de perfis gays, temos alguns personagens importantes que gravitam em torno de tanta diversidade. Lindsay é uma delas, artista frustrada, colecionadora de mágoas, pois não consegue estabelecer uma boa relação com a família por ser lésbica. Atua como professora do Departamento de Artes de uma faculdade e depois como gerente de uma galeria de artes. Tem um filho com Brian e de vez em quando sente atração por homens, algo que incomoda Melaine, a sua companheira, uma advogada durona de origem judia.

Por ter a experiência do avô nos campos de concentração nazistas, algo marcante na memória da família, a advogada vive em constante luta pelos direitos dos homossexuais. É extremamente séria e dedicada ao trabalho. Em um dos episódios da quarta temporada, utiliza Michael como pai biológico da sua filha, mas tal situação vai atrair problemas judiciais logo adiante, típico do formato folhetinesco deste tipo de narrativa.

Debbie, mãe de Michael, é um membro ativo da Associação de Pais, Familiares e Amigos de Lésbicas e Gays. Vive constantemente imbuída de discursos panfletários e assume publicamente que se orgulha do filho ser um homossexual bem sucedido e assumido.

No que diz respeito aos aspectos estéticos, devemos atentar para dois espaços de maior concentração narrativa: a boate Babylon e a fictícia Liberty Avenue, ambientes que adornam a série com a verossimilhança necessária para aproximarmos as discussões propostas com a nossa dita realidade. Pittsburgh, na Pensilvânia, é a localização geográfica “materializada” das cinco temporadas. Além da boate e da avenida, temos a lanchonete onde a mãe de Michael trabalha como atendente e “psicóloga”, aconselhando, cuidando e orientando o filho homossexual e os seus amigos, bem como outros jovens perdidos, geralmente vítimas de homofobia pela sociedade e até mesmo por parte dos familiares.

No dia 07 de agosto de 2005, o último episódio da série foi exibido, repleto de nostalgia e depoimentos dos atores sobre a repercussão da série nos mais variados ambientes discursivos: cultura da mídia, meio acadêmico, etc. Com os seus 83 episódios, a série foi considerada por muitos, um marco na luta pelos direitos LGBT. Não navegou sempre no mar da perfeição, pois apresentou alguns episódios irregulares na 3ª e na 4ª temporada, naufragou nas intenções em determinados momentos bem novelísticos, mas recuperou-se em seus últimos suspiros.

Na seara dos momentos realistas hilariantes temos o exame de HIV realizado por Emmet em uma das primeiras temporadas. Ele vai acompanhar um amigo, acaba realizando o teste, há desencontros e o rapaz precisa esperar todo final de semana para saber do resultado. Nervoso, vive momentos de angústia diante da dúvida. Como apontaram os produtores, um dos interesses da série é “oferecer um olhar sem remorso da vida de gays e lésbicas, sem deixar de abordar questões políticas e de saúde que afetam a comunidade”. É com base neste diálogo que Emmet será orientado pelo médico ao receber o seu resultado. Segundo pesquisas do Ministério da Saúde, 20% das pessoas que fazem o teste não pegam o resultado, geralmente amedrontadas, inseguras ou mal informadas.

Esse trecho perpassa por outra preocupação contemporânea: os infectados que se intitulam como carimbadores. Conhecidos por passar o vírus sem o conhecimento e permissão do parceiro, estas pessoas são autoras de um ato criminal que prevê de 2 a 8 anos de sentença por “lesão corporal grave”. Por promover um mergulho nas problemáticas da cultura homossexual, a série não deixa de tocar nestas cordas sensíveis, mesmo que de forma rápida e pouco aprofundada.

No que tange aos momentos emocionantes, temos o desfecho da primeira temporada. Brian decide ir ao baile de formatura de Justin, e, ao som de Save Last Dance For Me, na versão do The Drifters, os jovens rapazes dançam apaixonadamente, sendo, infelizmente, surpreendidos no final por um ataque de homofobia por parte de um dos frequentadores do evento. A cena é um dos melhores momentos entre o casal que acaba por não acreditar no amor tal como o movimento romântico conceituou, mas percebem que há algo além do desejo sexual temperando a relação de ambos.

Outro ponto interessante é o conceito de homoafetividade diluído na série. Essa questão perpassa um debate que vai além dos desejos sexuais e foi um tema proposto pelo roteiro. É preciso pensar que as questões LGBT vão além da “carne”, afinal, a maioria dos filmes e demais produções artísticas ligadas a este universo pecam por reforçar o olhar para “perversão”, o sexo desmedido entre os homossexuais, deixando reflexões como a melhoria no debate sobre os direitos civis, por exemplo, fora do mapa.

Tio Vic (Jack Wetherall), irmão de Debbie, por exemplo, é um personagem soropositivo típico: deprimido por conta das suas limitações, aparece como alguém condenado à solidão e a privação. Numa leitura apressada, a análise nos leva ao estereótipo da negação da vida após a infecção pelo vírus, entretanto, a situação se modifica com a chegada de Ben, então namorado de Michael e professor que vive intensamente mesmo tendo o estigma do HIV como marca da sua vida.

Entregou episódios mais complexos e dinâmicos na temporada final, apresentando o habitual painel de destinos para cada personagem da trama. Lágrimas? Sim, para quem se relacionou devidamente com os elementos catárticos da série. Sorrisos? Sim, pois em meio às tantas informações, o saldo da série é positivo, haja vista a sua busca por apresentar a homossexualidade de maneira menos simplistas, como por exemplo, as produções televisivas contemporâneas brasileiras, narrativas irritantes que seguram o público até um selinho entre dois personagens ao final, ou então, explodem homossexuais em shoppings por conta da não aceitação do público.

Queer As Folk – A Série (EUA, 2000-2005)
Principais diretores: Michael DeCarlo, Kevin Inch, Kelly Makin, Bruce MacDonald, John Greyson, Thom Best .
Roteiro: Ron Cowan e Daniel Lipman.
Elenco: Gale Harold, Randy Harrison, Hal Sparks, Sharon Gless, Peter Paige, Scott Lowell,  Thea Gill, Michelle Cunie, Harris Allan, Robert Gant.
Duração: 42 a 58 min (cada episódio).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.