Crítica | Queime Depois de Ler

queime depois de ler joel e ethan coen

estrelas 3

Ao longo de suas carreiras, os irmãos Coen pintaram um mundo cheio de controvérsias e loucura, algumas vezes tocando em temas políticos e sociais de forma indireta ou através de um núcleo dramático mais importante para o filme, como ocorre em Ajuste Final ou Fargo, por exemplo. Nunca, porém, eles foram tão incisivos em relação a “coisas do Estado” como em Queime Depois de Ler (2008), comédia de caráter absurdo sobre um funcionário da inteligência americana que é demitido, passa a escrever suas memórias e acaba perdendo esse material, que é encontrado por um funcionário de uma academia.

Com trilha sonora composta por Carter Burwell, aqui em seu 12º trabalho ao lado dos Coen (desde Gosto de Sangue), a dupla nos coloca em uma realidade de acidentes, azares, incompetência dos profissionais do governo e cicatrizes da Guerra Fria que parecem doer a cada nova “ameaça” envolvendo Estados Unidos e Rússia. Tanto o espectador quanto os personagens dos órgãos oficiais ficam espantados com os tais “segredos” oferecidos por Linda (Frances McDormand) e Chad (Brad Pitt) à embaixada russa. Da mesma forma que historicamente isso faz sentido, dentro ou fora da diegese — a brincadeira com o imaginário popular é clara aqui –, a ação é anacrônica, parece estranha demais, não pertence exatamente a este tempo.

Através da música com motivos militares na percussão ou inserção do piano em momentos pequenos das peças orquestrais meio macabras da fita, Burwell nos faz sentir em um ambiente cheio de paranoia, um cenário constantemente ameaçador. A ação dos personagens, suas preocupações e os acidentes que tornam tudo pior para eles reafirmam essa impressão, que se intensifica quando vemos que os diretores não colocam nenhum tipo de punição para os crimes, muito pelo contrário, imprimem no personagem de J.K. Simmons o tipo de Supervisor da CIA que quer se ver livre de qualquer problema, mandando queimar corpos, agradecendo às circunstâncias quando alguém morre e repetindo a máxima: “então ninguém sabe de nada, aqui? Bom.“.

A impressão que nós temos em Queime Depois de Ler é que todos os personagens querem fazer exatamente o que o título diz, queimar, destruir, colocar fim em um capítulo de suas vidas. Divórcios, cirurgias plásticas, mudança de profissão, tentativa de ser valente, tentativa de esconder problemas maiores… todos querem queimar alguma parte de si mesmos ou de um grupo que integram, após terem lido determinadas ações e desgostado do resultado. O único personagem que não passa por isso (embora não seja menos enigmático ou suspeito) é Chad, que por sua quase inocência e não demonstração de que quer mudar algo sobre si mesmo, tem um destino nada convidativo, cedo demais.

Ao longo do filme, essas muitas histórias se cruzam, pioram e culminam em um cruzamento de catástrofes, uma opção do roteiro que dispersa um pouco o espectador. São muitos personagens em suas pequenas crônicas que acabam se cruzando por coincidências demais. Este elemento até que está posto organicamente na narrativa, mas não é bom o suficiente para manter um texto sólido, com uma história da qual podemos tirar mais do que apenas um absurdo à superfície do desprazer de alguns e incompetência de outros.

Talvez por terem escrito o roteiro do filme enquanto adaptavam Onde os Fracos Não Têm Vez, os Coen optaram por um tratamento diferente para a violência. Por mais que haja distinção na atitude de seus personagens, eles acabam sendo vilões, causando coisas ruins para outros, mesmo sem querer. Todos, porém, são muito estúpidos e/ou alienados, e a maior parte deles são adeptos do culto ao corpo, à aparência. Essa superficialidade bela e fitness que mascara a feiura e vilania interior tem um ótimo propósito em si mesmo, mas, em uma análise mais rígida, não ampara exatamente o que o filme persegue todo o tempo, a linha humorística e absurda dos diretores para falar de algo aparentemente comum, tendo como alvo o governo e suas leis e o que as pessoas em outras pequenas instituições esperam dele.

Com um elenco muito bem entrosado e fotografia convidativa de Emmanuel Lubezki — ele cria o oposto da trilha sonora, fazendo-nos sentir confortáveis e bem-vindos em um universo que não é nem uma coisa, nem outra — Queime Depois de Ler é uma obra aparentemente simples, mas com muito mais coisa para fazer pensar do que aparenta. Com isso não quero dizer que há profundidade psicológica ou entrelinhas quânticas no filme. Mas há sim um cinismo embutido no roteio que abarca diversos setores da nossa sociedade, que vive em constante mudança, queimando partes de si mesma e seguindo em frente, fazendo o máximo para que a memória de tragédias sejam escondidas e ninguém saiba delas. Com sorte, as catástrofes podem trazer mudanças pelas quais tanto se esperava. No fim, e na maior piscadela de humor negro do roteiro, é possível até mudar a aparência negociando com o governo o esquecimento completo de erros que ele próprio cometeu. Pense. Isso lhe soa familiar?

Queime Depois de Ler (Burn After Reading) — EUA, Reino Unido, França, 2008
Direção: Ethan Coen, Joel Coen
Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen
Elenco: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, Elizabeth Marvel, David Rasche, J.K. Simmons, Olek Krupa, Michael Countryman
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.