Crítica | Quem é o Pantera Negra?

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Dois anos depois de encerrado o volume 3 das revistas do Pantera Negra (famosa fase de Christopher Priest, iniciada em 1998 com o arco O Cliente), a Marvel investiu mais uma vez em um título solo para o personagem, contratando para a empreitada o roteirista Reginald Hudlin, que já era um profissional muito bem estabelecido no cinema e na TV; e os artistas John Romita Jr. e Klaus Janson para desenhos e arte-final, respectivamente.

Ainda sob o selo Marvel Knights — que seguiria até a edição #14 dessa Era, conferindo um pouco mais de liberdade para coisas violentas e polêmicas por parte do autor — o arco responde muito bem a sua pergunta-título. No começo, temos diferentes presenças externas e hostis ou curiosas em relação a Wakanda tentando invadi-la ou percorrer seu espaço sem a devida autorização: uma tribo vizinha no século V, os bôeres no século XIX, o Capitão América em 1944 e os vilões unidos para o presente arco no século XXI, já considerando todo o elemento de dominação e colonização econômica feita pelos Estados Unidos em países do continente africano.

Adotando um princípio relativamente diferente de seus antecessores no título, Hudlin procurou trabalhar a ameaça a Wakanda juntamente com sua resolução. A intriga internacional aqui representada não é simplesmente jogada como um tsunami de metas a serem cumpridas e inimigos a serem derrubados. Isso já foi visto em muitas outras revistas de super-heróis por aí. A diferença no caso de Quem é o Pantera Negra? é que a poderosa nação de T’Challa é explorada em suas defesas, em sua tecnologia, em sua história e sua tolerância para com algumas atitudes de governos interessados nos minérios e outras riquezas escondidas sob seu solo. Mesmo blindada, a nação sofre pequenas derrotas, tem vítimas e conhece de perto algo parecido com uma real ameaça. Percebam que o texto não inventa um apelo absurdo, cobrando demais da nossa suspensão da descrença para aceitarmos um espaço e um grupo de indivíduos sempre invencíveis. Eles são atacados e tomam alguns golpes. Mas eles sabem exatamente como e aonde bater, o que faz com que o contra-ataque seja comemorado pelo público e dê muito mais significado à aventura.

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Moral: ou você tem ou você não é o Pantera Negra.

Os desenhos de John Romita Jr. funcionam muito melhor na primeira parte da trama, no passado e nos flashbacks do novo Garra Sônica, que nesta versão tem uma dívida histórica para cobrar. Como a finalização de Klaus Janson é demasiadamente zelosa do lápis de Romitinha, parece-nos que todo o complô de invasão formado por Rino, Homem Radioativo (Igor Stancheck), Cavaleiro Negro (Dane Whitman), Canibal e Batroc, além da ajudinha de M’Buto, ditador de Niganda, se tornam “bonitinhos demais”, uma proposta artística que não combina exatamente com este tipo de drama. Se a arte-final de Janson fosse mais ousada, optando por algumas sombras, hachuras, contornos mais grossos ou de traços sobressalentes em cenas de batalha, a situação poderia ser diferente. Vale ressaltar que os desenhos não deixam de ser bonitos, mas o traço comportado do artista vende uma outra impressão geral para o leitor, diferente daquela passada pelo texto.

Além de reconstruir a origem do Pantera Negra, os rituais wakandanos e de esclarecer de uma vez por todas quantas são, como funcionam e como se entrelaçam as camadas hierárquicas do país (Wakanda tem um tipo de governo falsamente simples, se visto de fora), Reginald Hudlin discute sobre economia internacional, administração de recursos e brinca de A Arte da Guerra como se fosse a coisa mais fácil do mundo. O roteiro do arco é divertido e tem um número bem reduzido de falhas, que se concentram especialmente na definição geral para a invasão (o plano e a sequência que marcam a batalha em território wakandano são excelentes) e no encerramento da trama, que embora tenha sido mostrada para cada um dos inimigos abatidos, tem como elo fraco a presença dos soldados-zumbis norte-americanos que só servem mesmo para passar vergonha no final. E criarem o trampolim para uma das cenas mais inspiradoras de exibição de moral e realeza do Pantera Negra, embora isso não fosse exatamente necessário.

A presença de um último invasor escondido é um gancho forte para a continuação da saga, assim como a repercussão interna dessa invasão. Em tese, Quem é o Pantera Negra? é um arco de origem do herói e de conhecimento geral de sua cultura, mas pincelado com provas de que ele realmente é quem diz ser. Dá-lhe T’Challa!

Quem é o Pantera Negra? (Black Panther Vol.4 #1 – 6: Who is the Black Panther?) — EUA, abril a setembro de 2005
No Brasil: Panini (2006) e Salvat (2014)
Roteiro: Reginald Hudlin
Arte: John Romita Jr.
Arte-final: Klaus Janson
Cores: Dean White
Letras: Chris Eliopoulos (1 e 2), Randy Gentile (3 a 6)
Capas: John Romita Jr., Esad Ribic, Frank Cho, John Cassaday, Terry Dodson, Kaare Andrews
Editoria: Axel Alonso
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.