Crítica | Querido John

estrelas 2

Com base na obra do escritor californiano Nicholas Sparks, o mesmo autor do romance que deu origem ao ótimo filme dirigido por Nick Cassavetes, Diário de Uma Paixão (2004), o sueco Lasse Hallström trouxe às telas o insosso Querido John (2010), uma obra que dividiu a crítica e que dá mais munição aos que a condenam do que aos que a defendem.

O filme conta a história de John e Savannah, dois jovens que se conhecem nas férias (ela, da faculdade; ele, do Exército), e se apaixonam perdidamente, embora não de imediato. O rapaz tem um temperamento hostil e uma vida pregressa não muito louvável, mas que não é explicitada, o que dá ao diretor um ponto de bom senso. A garota é uma quase-perfeita que milita em obras de caridade e é sentimental demais, característica que a torna pouco simpática do público, embora isso vá mudando no decorrer da trama. Com os dias que correm, a relação entre os belos jovens se intensifica, mas chega o momento em que a partida dele para a guerra põe uma pausa decisiva no duo-amor jurado para sempre. Ambos trocam cartas e cartas até o momento em que Savannah declara ter se apaixonado por outro homem, o que faz com que o espírito destrutivo de John renasça e ele faça da guerra a sua sublimação. O filme caminha um pouco às voltas com a fórmula “conquista-perde-reconquista”, mas consegue levar o espectador por um caminho mais belo e, de certa forma, mais poético que os “romances básicos” a que estamos acostumados.

John está tão angustiado consigo mesmo que a única coisa que consegue fazer bem, o filme inteiro, é ser soldado. O desapego do rapaz chega a ser de mal gosto e sua frieza em demonstrar sentimentos, idem. A relação do jovem com o pai (interpretado pelo excelente Richard Jenkins, o único ator-fenômeno do filme, que dá vida a um autista com uma paixão colossal) é ainda pior, mas não podemos culpá-lo de todo pois aí se encontra uma ingrata armadilha de roteiro, onde causas psicológicas explicadas aos pedaços deveriam enriquecer a trama, mas na verdade só complicam a persona do jovem protagonista. Para um romance comercial que se pretende “um pouco mais”, faltou o “empurrão a mais”.

Savannah (Amanda Seyfried, que se saiu um pouco melhor em Mamma Mia!), irrita com suas idiossincrasias e um senso de realidade quase surreal, algo que irrita profundamente e não vejo nenhuma justificativa artística, cênica ou fílmica do diretor e roteirista para manter um perfil tão quase repelente em uma película onde se devia ao menos amar a protagonista-mocinha-pura-perfeita.

O desfecho da obra – em caminho abissalmente oposto ao livro, segundo me disseram – não agrada nem mesmo quem não leu o volume. Ou melhor: agrada àquelas pessoas que ainda vivem nos tempos das princesas de Walt Disney.

A fotografia de Terry Stacey (o mesmo fotógrafo de P.S. Eu te amo) é ótima e responsável por boa parte da poética visual da obra. Sua planificação sob os cuidados de Hallström é simples, sem nenhum virtuosismo ou invenções descabidas, algo que traz à realidade diegética o máximo de “realismo” possível.

A música de John Powell vai pelo mesmo caminho da fotografia mas não é usada com nenhuma diferença daquilo que sempre tivemos. Até em Chocolate, Hallström foi mais preciso quanto a relação imagem fílmica e trilha sonora. Aqui, embora interessante, a trilha não vai além do básico.

As minhas maiores críticas vão para Lasse Halltröm, que baixou a guarda e pulverizou açúcar hollywoodiano onde poderia haver a unidade indecisa típica do existencialismo de algumas de suas obras anteriores, ou de clássicos de seu país de origem. O resultado fílmico é daqueles que não se pode definir direito. Encanta, mas fica devendo muito ao espectador crítico e isso vale para os atores e para a obra como um todo. Querido John é fruto de um neo-romantismo incompreendido ou cópia em nova roupagem do que já tínhamos nos romances cinematográficos? Eis aí algo que cada um terá algo possivelmente diferente para justificar antes de responder.

Querido John (Dear John, EUA, 2010)
Direção: Lasse Hallström
Roteiro: Lasse Hallström
Elenco: Amanda Seyfried, Channing Tatum, Cullen Moss, D.J. Cotrona, Gavin McCulley, HenryThomas, Jose Lucena Jr., Keith Robinson, LesleaFisher, RichardJenkins, Scott Porter
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.