Crítica | Quero Falar Com o Gerente

estrelas 1

E depois de Abendland e A Árvore dos Morangos, a Mostra SP traz mais mais um documentário cuja ideia de discussão em geografia política e econômica é diluída em inoportuno e lirismo e falta de foco narrativo.

Quero Falar Com o Gerente começa com uma frase interessante de William S. Burroughs: “Depois de uma só olhada neste planeta, qualquer visitante do espaço sideral diria: QUERO FALAR COM O GERENTE“. O documentário é dividido em episódios, cada um deles filmado em um país diferente (Índia, Bolívia, China, EUA, Itália, Tailândia e Venezuela) e em tese pretende traçar a ligação entre a ascensão de poderio econômico dos países subdesenvolvidos/em desenvolvimento e a decadência de outros elementos em seu interior enquanto esse desenvolvimento acontece.

Ao entender a premissa e assistir aos primeiros minutos do filme, o púbico fica curioso para ver até aonde a abordagem vai, porque este é definitivamente um documentário fora dos padrões didáticos a que estamos acostumados. Cada bloco possui pelo menos um depoimento-base e a partir deles o espectador deve entender o elemento que se discute ali. Mas este é o problema: nada é verdadeiramente discutido.

Enquanto os primeiros capítulos possuem força e temática razoavelmente condizentes com a proposta (para falar a verdade, à parte a introdução, os únicos episódios válidos são os da China, que aborda o programa de seleção para licenças de direção no país; e dos EUA, com a polêmica para a “nova morte” a partir de um processo criogênico executado por uma empresa nacional), o restante da obra é um amontoado de imagens soltas e desconexas com a ideia central do filme — apesar de algumas delas serem muito bonitas ou tenebrosas; destaque para as minas de extração de lítio na Bolívia — que pretendem ativar no público algum tipo de consciência política que na verdade não tem onde criar raiz. O filme que deveria ser uma crítica aos “estragos enquanto se cria o desenvolvimento” acaba sendo um filhote mal cuidado da micro-História, cujas demonstrações não sustentam o peso de sua proposta.

Neste ponto, ficamos realmente confusos se o diretor Hannes Lang quis enveredar pela contemplação das imagens e pelo significado que elas podem trazer para o espectador (pequenez, assombro, deslumbre) ou se ele realmente acreditou que esse tipo de incursão em um filme sobre economia e sociedades em desenvolvimento traria algo de produtivo. E quanto mais pensamos nisso, mais vemos os pequenos problemas cotidianos serem colocados como paradoxos do crescimento, como se o abandono de idosos e inválidos fosse parte do pacote de uma boa economia, ou como se questões bioéticas estivessem em pauta apenas em territórios com alto PIB, ou como se edifícios abandonados e ocupações populares representassem algo tão poderoso e tão essencial à luta contra a decadência urbana a ponto de merecer um documentário como se fosse o mote de uma revolução para ficar na História.

Hannes Lang parece ter almejado criar um longa com nuances de humanidade, sentimentos e crítica social, mas sua completa desordem na direção impediu que Quero Falar Com o Gerente tivesse algum proveito, de fato, dentro daquilo que promete. Os argumentos são fugazes (se é que existem) e o abandono completo deles da metade para o final da fita fazem o roteirista Mareike Wegener dividir a culpa de péssimo filme com o diretor Hannes Lang, que se esqueceu que os espectadores assistem telejornais, conhecem ou vivem em uma cidade para saber as minúcias do microcosmo urbano. Não é necessário um documentário para vomitar fatos e imagens em tela grande. Ideias, instituições e organizações, que são o verdadeiro DNA da coisa, ficaram de fora. O que faz deste filme uma daquelas obras que pretende apagar fogo soprando fumaça.

Quero Falar Com o Gerente (I Want to See the Manager) — Alemanha, Itália, 2014
Direção: Hannes Lang
Roteiro: Mareike Wegener
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.