Crítica | Quero Ser Grande

estrelas 4Quero Ser Grande é uma das obras mais icônicas da comédia-e-fantasia estadunidense do final da década de 1980. Por sua inocência, ternura, e peculiar toque cômico, não é de se espantar que tenha sido um sucesso de bilheteria, faturando, só nos Estados Unidos, mais de seis vezes os 18 milhões de dólares gastos em sua produção.

O roteiro de Gary Ross e Anne Spielberg nos apresenta uma história bastante simples (assim como é todo o filme), mas com um enredo cuidadosamente construído e sem desfile de incongruências de comportamento etário, trazendo para a tela situações possíveis a uma criança que tivesse o seu desejo atendido por uma espécie de guru de uma máquina estranha num parque de diversões. Os únicos tropeços são detalhes relacionados ao trânsito livre de personagens por diversos ambientes, e um funcionamento praticamente impossível de uma máquina trabalhista, especialmente em se tratando de uma grande empresa de brinquedos.

Quando Josh deseja “ser grande”, ele na verdade está repetindo o desejo de toda criança, que sempre em momentos de contrariedade ou quando não sabe lidar bem com alguma situação, imagina que se fosse adulto as coisas seriam muito mais simples e tudo se resolveria como num passe de mágica (vide De Repente 30 (2004), uma espécie de “revisão” de Quero Ser Grande, só que com uma protagonista feminina).

Ao acordar um adulto de 30 anos após a noite em que desejou ser grande, Josh tem o imediato e mais urgente problema de sua vida: encaixar-se no mundo. Sua mãe acha que ele é um ladrão e o faz correr de casa. Apenas seu melhor amigo, Billy, lhe acompanha durante toda a jornada, provando o poder da amizade, seja para dividir bons momentos, seja para chamar o outro a atenção, como acontece na reta final da película, quando a criatividade da criança em Josh começava a ser engessada pela Companhia onde trabalhava.

Foi com Quero Ser Grande que o trabalho de Tom Hanks passou a ser reconhecido e ele entrou para as graças do grande público. Seu ótimo trabalho aqui rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator e deu-lhe o Globo de Ouro na mesma categoria. Embora estivesse no cinema já a oito anos (desde Trilha de Corpos, 1980), e passado por filmes de regular alcance de público como Splash – Uma Sereia em Minha Vida(1984) e Um Dia a Casa Cai (1986), Tom Hanks era considerado apenas um jovem ator que “um ia chegaria lá”. Quero Ser Grande mostrou a sua capacidade de criação dramática, e não é preciso ser um especialista para perceber que sua atuação é que faz o filme ser o que é.

Uma das cenas emblemáticas do cinema é a que Josh (Tom Hanks) está em uma loja de brinquedos e encontra o seu chefe. Eles trocam algumas palavras e saem caminhando, quando sem querer Josh pisa em uma tecla de um piano instalado no chão. Segue-se então uma das mais simples e admiráveis cenas do cinema oitentista, Josh e seu chefe brincando nas teclas do piano.

Tecnicamente falando não há nada de especial na sequência. Os planos são burocráticos e a fotografia segue o ritmo que que esteve todo o filme, ou seja, bastante comum. Se é possível citar alguma coisa cênica que chama a atenção do espectador é a direção de arte. Mas colocada no momento certo do roteiro, com as atuações que recebe e o pontualíssimo uso da música, é impossível esquecer o que se passa ali. Esse é um dos exemplos mais notáveis em que temos a simplicidade superando expectativas.

Quero Ser Grande é daqueles filmes que acompanharam a infância de muitas crianças das gerações seguintes. No Brasil, foi reprisado ad eternum em programas de diversas emissoras. E não é pra menos. Uma fantasia com essa qualidade e com um roteiro tão inteligente, mostrando um tipo de criança em extinção (quem conhece adolescentes de 12 anos sabe muito bem o que estou falando) e valores há muito escanteados na educação de filhos e na vida cotidiana das pessoas, sejam amigos, namorados ou colegas de trabalho, não poderia ser simplesmente esquecida.

Quero Ser Grande é praticamente uma lição sobre o que devemos tentar exercitar o tempo inteiro. E eis aí um bom motivo para assisti-lo periodicamente. A nossa criança interior agradece.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.