Crítica | Questão de Escolha

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Por que filmes de temática religiosa, feito por religiosos para religiosos precisam ser idiotas? Sim, idiotas.

Por que eles não ficam restritos à projeções nas igrejas e templos ou disponíveis em serviços de streaming e download?

Por que eles ocupam as já pouquíssimas telas de cinema que temos no Brasil?

Essas foram as perguntas que imediatamente vieram à minha cabeça quando os créditos de Questão de Escolha começaram rolar. Será que os produtores (com o dinheiro do dízimo arrancado de seus fieis miseráveis, certamente) realmente acham que converterão mais gente para sua causa? Que espalharão eficientemente a palavra de Deus por aí com uma trama rasteira, maniqueísta, imbecilizante como a de Questão de Escolha?

Paul (Ted McGinley) é o sócio principal de uma empresa de segurança americana que está ameaçada de ser controlada por uma empresa brasileira, representada pela tentação de uma bela mulher chamada Julia Santos (Ana Ayora) que precisa se vestir de vermelho para deixar claro aos espectadores que ela representa o diabo ou alguma besteira semelhante a isso. Ele luta entre a possibilidade de um caso extraconjugal e o amor que sente por sua esposa em um casamento que já dura 20 anos. Mas tem mais, pois, para deixar evidente esse amor, o roteiro também precisa estabelecer que os dois estão prestes a renovar seus votos matrimoniais.

A coisa funciona assim: o amigo de Paul diz para ele que trair é normal e “o que os olhos não vêem, o coração não sente”; seu psicólogo diz a mesma coisa. Didaticamente. Mais de uma vez. E a montagem faz questão de cortar para um sermão em uma igreja, falando exatamente o oposto. Esperto o roteirista, não? Repararam no contraste? Entenderam a discussão?

Mas não é só isso. Paul é um tapado sem personalidade. Será o grupo religioso produtor do filme dizendo que seu rebanho é formado de completos imbecis? Espero que não, mas não posso chegar à outra conclusão. Paul tem dilemas morais que são tão artificiais, tão patéticos, que o torna um personagem impossível, ilógico.

Só que a coisa não para. Há um outro amigo do casal feliz que sua esposa diz traiu a esposa dele. Quando Paul se encontra com ele, o amigo conta que, na verdade, foi a mulher que o traiu e virtualmente ainda por cima. Há um claro subtexto na linha de que o problema é com as mulheres. Os homens de Deus são íntegros, mas as mulheres ou são o diabo na Terra (Julia, a mulher curvilínea de vermelho) ou, então, pecadoras. Estaria havendo preconceito aqui? E demonização da internet de quebra?

E, estruturalmente, a narrativa se passa em grande parte em flashback, com Paul em um avião indo ao Brasil e conversando com um passageiro – que, literalmente por milagre, é um pastor – que conhece naquele momento. Ele se abre completa e amplamente, como absolutamente nenhuma pessoa minimamente normal faria. E a montagem de jardim de infância, então, nos joga da cabine do avião a Los Angeles como se faz em séries de televisão, sempre determinando antes em que lugar a ação se passará porque, novamente, os produtores devem achar que o público desse tipo de filme é burro como uma porta.

Filmado com câmeras digitais sem filtros aparentes, Questão de Escolha não passa de um filme feito para TV para lá de péssimo, com o objetivo de pregar conceitos medievais sem um mínimo de inteligência ou sutileza. Tudo é explicado pelo menos duas vezes para ninguém deixar de entender o que está se passando e se sentir iluminado na saída do cinema. As atuações são tenebrosas, as músicas determinam como nós devemos nos sentir e a fotografia é simplesmente inexistente.

Mas a gota d’água é estabelecer que o vilão é aquele que tentou Paul, aquele que quase o levou a destruir o sacramento do casamento. E, novamente, a narrativa para – literalmente em uma pavorosa apresentação no escritório de Paul – de maneira que ele, olhando para a câmera diversas vezes, cite a Bíblia, conte a história de Jericó (que, surpresa, surpresa, é o nome do sistema de segurança digital da empresa) e conclui para nós o que nós devemos concluir, de maneira que não haja possibilidade de engano.

A presença de Questão de Escolha nos cinemas é literalmente um acinte à nossa já debilitada infraestrutura de salas, retirando a oportunidade da população de ver outros filmes que verdadeiramente a faça pensar e não que determine como ela deve pensar (e antes que alguém me pergunte, é melhor ver Transformers 4 – ou qualquer um deles – do que isso com certeza). Fica o aviso aqui ao menos sobre a qualidade dessa obra para que nossos leitores saibam o que escolherão ver.

p.s. Se você tiver alguma dúvida sobre a nota, saiba que ela só é zero estrela, pois não temos estrelas negativas no site. Seria o caso de colocar um aviso de lixo tóxico, mas vetaram minha proposta…

Questão de Escolha (Redeemed, EUA/Brasil – 2014)
Direção: David A.R. White
Roteiro: Tommy Blaze
Elenco: David A.R. White, Kevin Downes, Megan Alexander, Ana Ayora, Cameron Britton, Teri Copley, Mayuto Correa, Ted McGinley
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.