Crítica | Questão de Tempo

estrelas 3,5

Como crítico profissional, não tenho como evitar o uso de termos extremamente técnicos e herméticos para classificar obras cinematográficas. Questão de Tempo exige esse tipo de abordagem difícil, inacessível para você, leitor, que é incapaz de alcançar o Olimpo de críticos como eu. Estão preparados? Vamos lá: Questão de Tempo é um filme FOFO DEMAIS!

Assim mesmo, em letras maiúsculas e com ponto de exclamação ao final.

Se você não conseguir compreender esse termo técnico, não fique exasperado. O adjetivo “FOFO” deve ser lido como se fosse escrito com três ou quatro letras “O” em cada sílaba, com um sorriso no rosto e batendo palmas rapidamente, mais ou menos como adolescentes fazem quando aparece na frente delas algum personagem de Crepúsculo.

Mas, falando sério um minuto, o filme é mesmo, talvez, o  feel good movie de 2013. Isso não quer dizer que ele é necessariamente bom em termos técnicos, apenas que essa é uma daquelas fitas que inevitavelmente arrancam sorrisos dos mais endurecidos  corações, por mais que se tente dizer que não. É perfeito para uma tarde descompromissada em dia chuvoso, uma espécie de fuga garantida para a diversão, de preferência com sua cara metade.

Questão de Tempo é uma comédia romântica com viagem no tempo, mas sem ser ficção científica (se bem que, pensando bem, é possível arguir que qualquer filme que lide com viagem no tempo é ficção científica) que tem suas próprias e pouco usuais regras internas para tanto, de maneira que o foco recaia, de verdade, sobre a relação entre pai e filho e a busca de um jovem pelo amor.

Esse pai (que não tem nome) é vivido por Bill Nighy, que está extremamente à vontade e natural no papel. Quando seu filho Tim (Domhnall Gleeson, o Bill Weasley de Harry Potter) completa 21 anos, ele lhe conta um segredo: os homens de sua família tem o dom de viajar no tempo. Simples assim. Mas é uma viagem no tempo limitada a épocas em lugares em que o viajante já viveu e não existe a possibilidade da versão mais velha se encontrar com a mais nova e o chamado efeito borboleta só acontece em hipóteses muito limitadas. Ou seja, é uma conveniente ferramenta narrativa, criada com o objetivo único de contar uma história de amor entre pai e filho e entre filho e sua família com um twist pouco comum, ainda que viagem no tempo em filmes românticos seja bem mais comum do que Richard Curtis (diretor e roteirista) imagine…

De toda forma, a narrativa não trai sua própria lógica e isso é um bom começo. Assim, basicamente, as simples viagens no tempo ficam limitadas às frustradas tentativas de Tim de encontrar o amor. Quando ele finalmente encontra Mary (Rachel McAdams), sua cara metade – em um surreal restaurante em Londres sem luz, que é servido por cegos (!!!) – ele acaba tendo que fazer diversas viagens para que tudo dê certo.

A música é parte integral desse filme, literalmente funcionando como um coro grego, comentando as diversas cenas. Por sorte, a distribuidora da fita percebeu isso e providenciou legendas também das letras, tornando a apreciação mais completa. Mas não esperem somente hits fáceis. O trabalho de garimpo de canções que funcionam dentro do enredo é muito bem feito e realmente acrescenta ao filme.

De modo geral, e elenco está muito bem. Nighy é o velhinho charmoso de sempre e sua esposa, vivida por Lindsay Duncan, também. O casal de jovens tem química e realmente parecem estar apaixonados. Mas nem Gleeson nem McAdams são excelentes, apenas passam suficiente relaxamento e empatia para agradar a quem quer que assista às suas desventuras amorosas.

Com uma direção não muito ousada, Richard Curtis peca na duração da obra. O tema, muito simples e objetivo, é repetido uma, duas, três e outras vezes ao longo da projeção, estendendo-a desnecessariamente. Quando entendemos o que Tim busca – o que, francamente, não demora nada – Curtis faz com que a mesma situação aconteça novamente em contextos diferentes. Sei que estamos lidando com um personagem que podem fazer a mesma coisa acontecer diversas vezes, mas Curtis, com Mark Day na montagem, não oferece nada efetivamente novo e engajante para tornar a repetição verdadeiramente relevante. No final das contas, o resultado é uma fita que poderia facilmente ter, pelo menos, 30 minutos a menos.

Apesar de seus problemas, Questão de Tempo vai esquentar o coração mesmo dos mais cínicos e até do fã ocasional de ficção científica light. É impossível não se encantar com uma fita despretensiosa e com tantas atuações encantadoras.

E eu já disse que o filme é FOFO DEMAIS?

Questão de Tempo (About Time, Reino Unido 2013)
Direção: Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Richard Cordery, Joshua McGuire, Tom Hollander, Margot Robbie
Duração: 123 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.