Crítica | Raça (2016)

estrelas 3,5

Os Jogos Olímpicos de 1936 entraram para a História como um dos mais politicamente emblemáticos, além de um dos que mais esforço e propaganda receberam de seu país sede, interessado em mostrar ao mundo uma face maquiada de si mesmo (como ocorre até hoje, aliás), encobrindo erros e ocultando ou interrompendo temporariamente crimes que cometia contra uma parte de sua população, apenas para se exibir mais positivamente para o mundo.

Dirigido por Stephen Hopkins (Perdidos no Espaço, Predador 2 e Sob Suspeita), o longa-metragem Raça (2016), olha 80 anos no passado e faz das Olimpíadas de 36 um motivo para a cinebiografia de uma fase do grande atleta estadunidense Jesse Owens, do início de seu treinamento até a disputa dos jogos olímpicos e as vitórias que lhe fizeram voltar para casa com 4 medalhas de ouro por vencer nos 100 metros rasos, 200 metros rasos, 4×100 metros rasos e salto em distância.

O filme adota desde cedo o tom emocional da biografia, e consegue um inicial bom resultado com isso. A longo prazo, porém, a mistura de momentos da vida pessoal de Owens com os blocos de suas performances atléticas não parece algo muito coerente do roteiro, mas não chegam a ter um peso tão grande, porque a montagem disfarça a interrupção ao intercalar e transitar com maestria entre um momento e outro, fazendo boas pontes dentro dos quadros e dando ao filme um ritmo preciso, não tornando as duas horas de duração um fardo para o espectador.

O grande erro dos autores, porém, foi a tomada de decisão para omitir e mudar algumas partes da História, não do jeito revisionista unicamente ligado ao entretenimento, como vemos de formas diferentes desde A Ponte do Rio Kwai até Bastardos Inglórios, mas de modo a passar uma mensagem com base em um fato mostrado parcialmente e com alguma lenda no meio. O roteiro se beneficiaria muito mais se não quisesse demonizar, apenas dramatizar o momento, mostrando Goebbels de uma forma caricata e psicopata sem muita atitude para com a organização dos jogos, apenas dando a entender que ele dominava o evento unicamente pelo medo, o que não é verdade. Não apoiar as atitudes desse homem nazista não significa esconder a intensa participação dele, como Ministro da Propaganda e braço direito do Füher em todo o processo. Uma pessoa infame como Goebbels não teria a importância histórica que teve se não tivesse outras capacidades que não a de odiar e mandar matar. No filme, nada de sua famosa oratória é mostrada e muitíssimo pouco de sua capacidade de administração de uma grande máquina de propaganda aparece.

A figura política dessas Olimpíadas ganha um peso necessário à medida que parte do roteiro se dispõe a falar sobre isso, do boicote proposto pelos cidadãos e por alguns membros das associações de atletismo na América até a campanha de “limpeza superficial” de todo o racismo e preconceito que dominavam a Alemanha Nazista em seu terceiro ano sob o domínio de Adolf Hitler. Ressalto que não estou cobrando uma recriação sociopolítica da sociedade alemã naquele momento, mas quando chegamos a uma cena em que Owens é chamado para cumprimentar Hitler (o que nunca aconteceu) e este já havia saído do estádio, temos uma mensagem forte sendo passada com algo que corresponde a uma lenda, não a um fato, e aí corre o perigo e um pouco do demérito do roteiro, que faz sim um bom trabalho nas discussões sobre racismo — inclusive expondo a hipocrisia americana de condenar os nazistas por suas ideias de segregação, racismo e posteriormente de morte aos que consideravam inferiores, e fazer exatamente a mesma coisa [com mortes desde a fundação da KKK em 1865] aos cidadão negros de seu país –, mas, por outro lado, peca ao construir um raciocínio com uma alteração desnecessária e desinformadora daquele momento.

O trabalho de Stephen Hopkins na direção é interessante, especialmente porque ele mescla com elegância diferentes linhas dramáticas, como o treinamento, a relação familiar, as abordagens políticas e organizacionais e algumas cenas com plots menores que unem ou completam esses lados. Seguem-no de perto os excelentes figurinos de Mario Davignon e a ótima trilha sonora composta Rachel Portman, com destaque para as peças dramáticas de todas as cenas passadas na Alemanha. Mesmo que o cineasta acabe cedendo um pouco aos clichês da biografia de esportes no início e no final, ele não perde a mão e consegue retomar rapidamente os pequenos desvios que surgem sempre que tenta destacar a vida pessoal de Jesse Owens.

Na segunda parte, abre-se um belo diálogo metalinguístico com a inclusão da brilhante cineasta Leni Riefenstahl (muito bem representada pela atriz Carice van Houten) que, com sua forte personalidade e excelente trabalho, conseguiu algo que não era muito comum às mulheres nos anos 30, especialmente no cinema. Algumas cenas que dão conta da preparação, dificuldades e inicias exibições de Olimpíadas e Mocidade Olímpica – Parte 1 Festa das NaçõesParte 2: Festa da Beleza, ambos lançados em 1938 e eternizadores de um evento que ainda hoje suscita debates calorosos.

Stephan James faz um bom trabalho como Jesse Owens, tanto na representação de um jovem sonhador e inconformado com a situação dos negros de seu país, quanto de um atleta com grande força de vontade e espírito competitivo. As cenas que divide com o ator David Kross, que interpreta Carl ‘Luz’ Long, retratam bem isso, tanto no plano técnico, quanto no plano histórico, ao colocar em cena a improvável amizade de um atleta negro e um atleta de um país nazista que não estava nem um pouco contente com a situação dos judeus e que temia pelo que poderia acontecer no futuro. Como sabemos, Long não foi poupado por isso, sendo enviado para o front na II Guerra Mundial e morrendo em campanha na Itália, aos 30 anos.

Completando o elenco, temos Jason Sudeikis em seu primeiro papel dramático. Ele não está ruim, mas também não é exatamente o que se esperava para esse tipo de filme ou personagem que interpreta, denotando, no fim das contas, um erro de escalação. Jeremy Irons dá um show como Avery Brundage, um empresário ligado à Associação de Atletismo que faz negócio com os nazistas e luta contra o boicote americano aos jogos. A interpretação ora enérgica, ora cínica e pacífica de Irons torna-o um dos mais intrigantes de todo o elenco. Fora o pouco aproveitado William Hurt, o elenco de apoio recebe bom tratamento do roteiro e do diretor. Só tive problemas aqui com a caricatura desnecessária feita aos alemães.

Raça é um filme que poderia ser bem melhor. Seu problema principal é a abordagem manipuladora, que acaba diminuindo parte de sua interessante mensagem e ressaltando erros que, em outro cenário, teriam importância bem menor. Mesmo assim, trata-se de um bom filme e um bom retrato das Olimpíadas de 1936 que vale a pena ser visto. As problematizações e o conhecido obtidos na projeção não podem ser ignorados, afinal, trata-se de mais uma, das centenas de versões que a mesma história pode ter. Conhecê-las é parte do processo que permitirá ao espectador e ao crítico refletir, discutir e divertir-se.

Raça (Race) — Canadá, Alemanha, 2016
Direção: Stephen Hopkins
Roteiro: Joe Shrapnel, Anna Waterhouse
Elenco: Stephan James, Jason Sudeikis, Eli Goree, Shanice Banton, Carice van Houten, Jeremy Irons, William Hurt, David Kross, Jonathan Higgins, Tony Curran, Amanda Crew
Duração: 134 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.