Crítica | Rainha do Mundo

estrelas 4

Depois de seu Cala a Boca Philip, muito bem recebido pela crítica, Alex Ross Perry volta com Rainha do Mundo, dessa vez colocando Elisabeth Moss (que construiu sua carreira proeminentemente na televisão com as sensacionais séries Mad Men e Top of the Lake) no centro de suas atenções em um drama psicológico lento, mas que hipnotiza. Sem dúvida um filme difícil de agradar o público em geral, mas Perry não parece preocupado com isso e foca sua câmera em pequenos estudos muito pessoais que, se o espectador souber deixar-se levar, trarão recompensas.

Catherine (Moss) acabou de perder o pai (e empregador) e seu namorado, que a larga na sequência inicial que já estabelece o tom depressivo da trajetória da personagem. Para tentar lidar com as perdas, ela vai passar um tempo na casa do lago dos tios ricos de sua amiga de infância Virginia (Katherine Waterston). Lá, as duas vão aos poucos percebendo como, em suas semelhanças, são diferentes e o quanto o tempo as separou de verdade.

Ainda que o as lentes de Perry mirem em Moss, Waterson não é esquecida e ganha bom destaque ao longo da narrativa e, de certa forma, as duas constroem personagens que são difíceis de se gostar. Ambas são mimadas – Virginia não trabalha e aparentemente nunca trabalhou e Catherine só tem emprego em razão de nepotismo – e só tem olhos para seu próprio umbigo, ao ponto de elas mesmas, com a liberdade que a amizade antiga lhes dá, deixem evidente a amargueza que existem em seus corações.

Mas, como mencionei, o foco está mesmo na Catherine de Moss, com Perry estudando sua lenta queda em direção ao mesmo mal que levou seu pai, a depressão. O filme não é um thriller no sentido clássico da palavra, mas, de toda forma, falar mais do caminho tortuoso de Catherine ao longo da semana em que o filme se passa é estragar interessantes momentos que, se não trazem as respostas que se espera, intrigará o espectador. O importante, porém, é ver Moss se entregar ao papel e, com sua beleza pouco convencional, mostrar como a mente de sua personagem funciona (ou não). É enervante, desconcertante e triste.

Para criar sua atmosfera, Perry faz uso da fotografia de Sean Price Williams, que também trabalhou em Cala a Boca Philip. Aqui, ele escolhe filme com alta granulação para tentar emprestar um tom fortemente realista à atmosfera de sonho que ele cria em determinados momentos com filtros suaves nas sequências em que o lago fica mais evidente. Esse realismo também é ajudado pelo uso predominante de luz natural que o design de produção permite entrar com a disposição funcional dos vidros e janelas da casa, em um casamento eficiente. E, finalmente, Williams não se furta de trabalhar closes extremos que não deixam escapar nenhum detalhe das atrizes que, por sua vez, sob a direção de Perry, são submetidas a longos planos-sequência que extraem o máximo delas quase que de maneira inclemente.

Alguns poderão comentar que falta desenvolvimento dos personagens, com um arco de crescimento completo. Ainda que essa conclusão seja realmente possível, especialmente levando-se em consideração o final abrupto, tenho para mim que Perry nos apresenta à Catherine e Virginia já em seus respectivos estágios finais e, por meio de flashbacks – poucos e bem colocados – as desconstrói detalhadamente de maneira que, com pistas aqui e ali, entendamos o ponto em que se encontram no presente. Essa costura pouco convencional e delicada funciona graças à montagem de Robert Greene que constrói elipses quase fantasmagóricas.

O que incomoda muito, porém, é a trilha sonora de Keegan DeWitt, mas a culpa não recai exclusivamente no colo do compositor. Afinal, Perry deve tê-lo dirigido a compor músicas quase hitchcockianas para carregar em um suspense estranho e artificial que desde os primeiros segundos de projeção estabelecem o que o espectador deve pensar. Essa manipulação chega a ser boba, além de completamente desnecessária. A sincronização das notas-padrão de suspense nos vários momentos em que as imagens nos trazem sequências “estranhas”, muito longe de amplificar a sensação, retira ou traz a imersão para a superfície.

Rainha do Mundo não é fácil de se gostar tanto pela atmosfera opressiva como pelas personagens desagradáveis, mas se o espectador souber entrar no jogo psicológico de Perry, não sairá arrependido da sessão. E, claro, tem Elisabeth Moss para fazer tudo valer a pena.

Rainha do Mundo (Queen of Earth, EUA – 2015)
Direção: Alex Ross Perry
Roteiro: Alex Ross Perry
Elenco: Elisabeth Moss, Elisabeth Moss, Patrick Fugit, Kentucker Audley, Keith Poulson, Kate Lyn Sheil, Craig Butta, Daniel April
Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.