Crítica | Rainha & País

estrelas 4

Rainha & País (2014) não fala da guerra propriamente dita, mas daquilo que a alimenta, da mera obrigação, do senso de autopreservação ao idealismo. O Quartel General não é apenas um ponto de convergência, mas também de moldagem dessas posições perante a guerra, que tanto podem ser aliadas quanto inimigas de si próprias.

É a exploração dessa ironia que propõe o ótimo longa do veterano britânico John Boorman, sequência do muito bem recebido Esperança e Glória (1987), apesar do presente drama apenas aludir ao anterior e em quase nada prejudicar a sua força como trabalho independente. Boorman já conta 82 anos e tem em seu currículo obras importantes como Amargo Pesadelo (1972) e Excalibur (1981).

Na trama, durante a Guerra da Coreia, após quase uma década desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o jovem Bill Rohan (Caleb Landry Jones) é obrigado, aos 18 anos, a servir num quartel inglês, apesar da esperança do rapaz de que esquecessem dele. Assim, ele parte, deixando um suposto amor não declarado por uma garota para trás. No quartel, em meio à convivência com seus companheiros de farda, cria uma forte amizade com o inescrupuloso Percy (Callum Turner). Os dois logo entram em conflito com a típica figura opressiva de um dos sargentos, que vê no rigor e na não piedade a manutenção da disciplina. Para completar, em uma de suas escapadelas do QG Bill conhece uma garota que banca a misteriosa, pela qual se apaixona perdidamente.

Inteligentemente, o filme adota um tom predominantemente satírico no começo e vai nos mergulhando aos poucos dos dramas particulares ao coletivo. Trata-se, portanto, de uma obra que consegue claramente dizer a que veio sem parecer piegas ou deprimente em demasia. Somos muito bem inseridos na retratação da convivência entre os soldados, tanto pelo roteiro quanto pelas boas atuações; compartilhamos da cumplicidade, da camaradagem do grupo e, como eles, sentimos essa fraternidade amainar as intemperes do exército. A todo instante, fica claro que os jovens não querem estar ali, apesar de tudo, que sequer vêm qualquer sentido em tudo aquilo – que o digam situações vistas do ponto de vista do ridículo em nome do satírico – e que se interessam menos pelo bem estar do rei e mais pela imagem de uma rainha viúva do que pelo país do título (também uma referência irônica à devoção que, de fato, se espera da cultura inglesa por sua rainha e seu país).

Se a abordagem é tendenciosa, contudo, com certeza não cai no exagero, o que fica mais claro do que nunca na conclusão. Afinal, se de um lado temos os veteranos convertidos, fanáticos pelo militarismo, dispostos a literalmente levar qualquer um que se oponha a ele para o inferno e do outro jovens oprimidos e revoltosos, quando a coisa esquenta e as determinações de ambas as partes se colidem em cheio, cada qual paga o seu preço, seja pela loucura ou pelo choque com uma realidade colorida pelo maior tempo possível perante as duras circunstâncias, mas que acaba inevitavelmente vindo abaixo.

A boa trilha sonora de Stephen McKeon se destaca na primeira parte do filme, caminhando lado a lado com a sátira mais explícita. O único ponto no qual o roteiro escorrega um pouco é na cadência entre acontecimentos dentro e fora do quartel, como se uma parte da trama fosse abruptamente quebrada para que outra pudesse ser contada, sem situar devidamente o expectador. A quebra de ritmo é especialmente sentida durante o breve retorno de Bill à ilha na qual vive, esse, sim, o único trecho que faz mais sentido somado ao primeiro longa.

Fora isso, produção que faz jus à experiência de quem a dirige e roteirizou. Um belo filme.

Rainha e País (Queen and country), Reino Unido – 2014
Direção: John Boorman
Roteiro: John Boorman
Elenco: Callum Turner, Caleb Landry Jones, Pat Shortt, David Thewlis, Richard E. Grant, Vanessa Kirby, Tamsin Egerton, Aimee-Ffion Edwards, Miriam Rizea, Sinéad Cusack
Duração: 114 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.