Crítica | Ralé

estrelas 4Ralé foi o segundo filme de Kurosawa lançado em 1957, e que a exemplo do primeiro, Trono Manchado de Sangue, tem como base uma peça de teatro. A essa altura de sua carreira, o diretor já estava familiarizado em trazer a literatura para o cinema, e principalmente o teatro, que esteve presente nos roteiros do diretor desde os seus primeiros passos à frente de uma obra, quase duas décadas antes.

A peça em questão é Ralé (No Fundo), escrita por Maximo Gorki em 1901. Na obra, temos a história de um grupo de miseráveis que moram em um lugar sujo e em péssimas condições. Cada um dos inquilinos tem desejos impossíveis de serem realizados, portanto, fantasiam estar fora da realidade em que vivem. Em meio a tantos conflitos de interesses, é normal que desentendimentos e ridicularizações aconteçam, afinal de contas, o sonho de fuga de uma pessoa pode ser absurdo e ridículo demais para outra. Ralé, tanto a peça quanto o filme de Kurosawa, trabalha com muita crueza a realidade dessas pessoas, o seu acúmulo quase infantil de esperanças e a presença da realidade em meio a isso tudo, quando nenhum sonho se realiza e tudo parece ficar ainda pior.

A adaptação de Kurosawa é bastante fiel à peça original, e traz uma proximidade técnica muito semelhante à do palco, com as marcações dos atos e a centralização de um cenário-base, nesse caso, o interior da habitação dos miseráveis, e, como extensão da casa, a pequena área em torno, que conta também com a residência dos proprietários. De certa forma, a aparência claustrofóbica é sentida mesmo que a totalidade do filme não seja feita em um único espaço.

Talvez por trazer toda a essência da peça o filme não possua um momento de ápice extremo em oposição a sequências ou cenas mortas, calmas demais ou mesmo sem importância. Há uma interessante regularidade de ritmo durante a projeção e o espectador mantém-se atento às diversas não-realizações que roteiro cria. Todavia, de alguma forma, esse ritmo mais interessante cai um pouco na última sequência da fita, quando os conflitos vão sendo aparentemente resolvidos.

Esse resultado das coisas também é encontrado na peça, e a mesma estranheza que senti enquanto lia a obra, senti ao assistir ao filme. Particularmente as reticências amarguradas me encantaram, do que não consegui gostar foi o desaparecimento fácil das outras personagens. Claro que é uma observação estritamente pessoal, mas como interferiu na minha recepção do filme, tive que adicioná-la como um dos critérios pensados para o julgamento geral da película.

O cenário estilizado, inclinado e sem decoração de mobília evidente fez jus ao tema trabalhado, assim como o local externo, visivelmente um lugar que também servia como depósito de lixo. Outra indicação dramática para a escolha das locações está no terreno onde a casa-cenário foi construída, uma região encostada a um morro, dando a impressão de que estava sendo pressionada e que poderia ser soterrada a qualquer chuva muito forte.

O elenco contava com atores do teatro tradicional japonês bem como figurinhas carimbadas da filmografia de Kurosawa como Toshiro Mifune e Minoru Chiaki. É bastante agradável ver interpretações mais teatrais de atores que já conhecíamos de outros filmes, resultado que mais uma vez prova a versatilidade que Kurosawa tinha na direção de atores e gêneros cinematográficos.

Ralé definitivamente não é uma obra-prima, mas é um bom filme. Alguns espectadores acham-no chato ou despropositado em seus diálogos ou formato, mas se esquecem duas duas coisas: a) o filme é baseado em uma peça russa do início do século XX; b) Kurosawa sempre foi perito em captar a essência de todas as obras que ele adaptou para o cinema. Logo, antes de qualquer condenação sumária, é necessário que o espectador pense um pouco – e principalmente conheça – a fonte da qual veio o filme, para que se então se entenda o propósito do que vemos na tela.

Kurosawa soube trazer com bastante veracidade esse espírito de busca, esperança e reconstrução de vidas que encontramos na obra de Gorki. Todas as personagens lutam para conseguir sair do abismo social e mesmo pessoal em que se encontram, e Ralé é uma crônica sobre esse patético processo. Trata-se, em suma, de uma daquelas obras “ame ou odeie”, mas a posição final do espectador vai depender muito do entendimento que ele tem do que foi pensado e pretendido por Kurosawa para esse filme. De qualquer forma, é a penúltima obra do diretor nos anos 1950, e a sua primeira e última incursão no teatro russo, portanto, há motivos de sobra para vê-la.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.