Crítica | Rambo – Programado Para Matar

Quando se fala em Rambo, a primeira coisa que vem à mente da maioria das pessoas é um extremamente musculoso Sylvester Stallone flechando vietnamitas ou metralhando soldados soviéticos, já que os divertidos, mas completamente descerebrados Rambo II – A Missão e Rambo III, lançados em intervalos sucessivos de três anos depois do primeiro filme, é que tomaram o imaginário popular oitentista dos filmes de brucutu. E ainda arriscaria dizer que a segunda coisa que vem à mente das pessoas quando o nome é pronunciado é a quarta parte da história, Rambo IV, temporã e com Stallone já estufado de botox manejando uma enorme metralhadora e novamente moendo gente, desta vez militares birmaneses.

No entanto, a grande verdade é que o primeiro filme, baseado em romance de David Morrell, é bem diferente – e superior – a seus sucessores. Antes de se tornar um super-herói invencível que coleciona corpos inertes, John Rambo era um boina verde, veterano da Guerra do Vietnã, simplesmente tentando achar os últimos amigos sobreviventes de sua unidade militar. Ao entrar na cidadezinha de Hope (ou Esperança, em português, uma ironia nada discreta que é logo jogada na cara do espectador), o xerife local, Will Teasle (Brian Dennehy em papel que, ao longo de sua carreira, ele repetiria diversas vezes, de uma forma ou de outra), sem cerimônia alguma e demonstrando profundo preconceito com veteranos da guerra maldita, coloca Rambo em seu carro e o leva de volta até os limites do município, “simpaticamente” pedindo para ele seguir em frente. Claro que o ex-soldado nem pestaneja, dá meia-volta e começa a caminhar de volta para Hope, o que obriga Teasle a encarcerá-lo só por que quer.

Claramente sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT por aqui e PTSD, em inglês), sua prisão e, claro, as maldades de praxe de todos os policiais da cidade, que devem ser membros do mesmo Clube de Sádicos do xerife (ok, com exceção de um jovem David Caruso, que ainda tenta contemporizar a questão, mas é ignorado) o faz relembrar da tortura que passou no Vietnã como prisioneiro de guerra e isso desperta sua fúria ensandecida que o coloca em fuga primeiro de toda a força policial da cidade e, depois, dela (ou do que sobra dela) e da Guarda Nacional. A escalada de violência chega ao ponto de atrair o Coronel Sam Trautman (Richard Crenna), mentor e ex-comandante de Rambo, que vem não exatamente para salvar seu soldado, mas sim impedir que ele termine de botar abaixo todo mundo que se aproxima dele.

Por mais que a figura de John Rambo logo evolua para um homem que simplesmente não pode ser parado, aqui ele é muito mais parecido com o John McClane de Bruce Willis no primeiro filme da franquia Duro de Matar do que com o próprio Rambo dos filmes seguintes. Trata-se de um herói – ou anti-herói, como queiram – humano, cheio de fragilidades, mas que, uma vez acuado, não arreda o pé até ver a justiça ser feita de seu jeito. A ação é sim importante e toma grande parte da curta duração da fita, mas ela fica em segundo plano se compararmos com a importante crítica social que é abordada no romance de Morrell e que é trazida quase intacta para a adaptação co-escrita por Michael Kozoll, William Sackheim e pelo próprio Stallone: o quanto uma guerra mal conduzida acabou afetando a percepção da população sobre seus próprios soldados, injustamente transferindo a eles sua ojeriza pelo acontecido.

O roteiro é simples e objetivo, mas passa sua mensagem anti-bélica com precisão, mesmo considerando que o protagonista praticamente destrói a cidadezinha ao final. Curiosamente, porém, o corte original do filme tinha mais de três horas de duração e todos, especialmente Stallone odiaram a ponto do ator e co-roteirista ter chegado a decidir comprar todos os direitos sobre o filme para destruir as cópias e evitar que sua carreira acabasse ali. Mas a montagem salvadora de Joan E. Chapman conseguiu milagre ao reduzir a duração, em pós-produção, para pouco mais de 90 minutos, resultando em uma produção bem cadenciada e perfeitamente lógica, apesar dos prováveis quilômetros de celuloide que ficaram na sala de edição.

É interessante notar como Rambo não mata ninguém, a não ser um policial e, mesmo assim, indiretamente, depois de arremessar uma pedra no vidro do helicóptero onde ele estava empoleirado para alvejá-lo com uma espingarda de caça. Clara legítima defesa que o leva a, ato contínuo, tentar entregar-se, mas que os policiais, vendo apenas a morte do colega, não conseguem aceitar. Ou seja, a condução da narrativa obviamente nos coloca do lado de John Rambo, permitindo que nos compadeçamos por seu martírio e compreendamos suas ações. Fica, lá no fundo, a impressão que ele está agindo erroneamente, mas, na superfície, é evidente que não lhe é dada outra opção.

O mais sensível problema do roteiro está em seus minutos finais, com o discurso choroso e desesperado de Rambo, depois de destruir a delegacia e quase matar Teasle. Seu primeiro problema está em sua mais completa desnecessidade. Sim, Rambo, já entendemos que você é um herói de guerra solitário que sofre preconceito de seu país em razão de uma guerra desastrosa. Sim, John, já compreendemos que o que você fez o que fez, pois era matar ou morrer e Teasle não lhe deu saída. Sim, John Rambo, já percebemos que o governo que o mandou lutar não lhe dá qualquer tipo de apoio depois de sua volta para lidar com os horrores por que passou. Esse didatismo de revirar os olhos quebra um final que poderia ser silencioso, com o protagonista simplesmente se entregando ao seu coronel e à polícia, sem o chororô que, involuntariamente, chega a ser risível pela performance de Stallone nesse momento que parece encarnar um Rocky gritando “ADRIAAAANNN!!!!”, só que elevado à décima potência.

Ted Kotcheff, que nunca realmente despontou na direção de longas cinematográficos, faz aqui, provavelmente, seu melhor trabalho nesta qualidade. A simplicidade do roteiro ajuda muito, mas ele constrói tensão com sequências muito bem encadeadas e câmeras bem posicionadas de forma a nos colocar em posição subjetiva, esperando o ataque de Rambo e também observando a ação do veterano. A fotografia de Andrew Laszlo (Warriors – Os Selvagens da Noite e Viagem Insólita) é sóbria e fria, não só estabelecendo bem o clima chuvoso em Hope, como, também, a atmosfera opressiva da força policial desproporcional atrás de Rambo. É como uma versão do Inferno, seja para o ex-soldado, seja para os policias e a Guarda Nacional.

Outro elemento técnico que merece grande destaque é a trilha sonora de Jerry Goldsmith. O compositor cria uma obra melancólica, desesperançosa, que é instrumental no estabelecimento da atmosfera pesada que é tão importante para Rambo – Programado Para Matar dar certo. Mesmo quando a ação é o foco, os leit motifs da composição se mantêm e são acelerados, emprestando tensão e urgência, além de uma boa dose de suspense quando o protagonista embosca furtivamente cada policial na floresta com armadilhas e camuflagens, no melhor estilo O Predador (que, garanto, bebeu muito daqui). Até mesmo a única composição cantada, com letra sobreposta à instrumental It’s a Long Road, também de Goldsmith, com interpretação de Dan Hill, funciona bem para fechar o filme com uma nota entristecida.

Mesmo com o derramamento de lágrimas didáticas ao final, o primeiro filme da franquia Rambo, que ganhou até desenho animado(!!!), é um dos mais completos e bem-acabados exemplos dos filmes de ação oitentistas carregados de testosterona. Um verdadeiro triunfo em sua simplicidade e mensagem que em quase nada lembra as versões turbinadas do mesmo personagem nos dois filmes seguintes ou sua versão aposentada no quarto e (até agora) último capítulo.

P.s. Chamem-me de maluco, mas, em razão desse filme, eu tanto enchi a paciência dos meus pais que, mesmo em tenra idade, ganhei de Natal essa faca aí que o Rambo usa, com direito a cabo oco contendo um kit de costura, bússola, régua e uma penca de outros mini-apetrechos…

Rambo – Programado Para Matar (First Blood, EUA – 1982)
Direção: Ted Kotcheff
Roteiro: Michael Kozoll, William Sackheim, Sylvester Stallone (baseado em romance de David Morrell)
Elenco: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Brian Dennehy, Bill McKinney, Jack Starrett, Michael Talbott, Chris Mulkey, John McLiam, Alf Humphreys, David Caruso, David L. Crowley, Don MacKay, Charles A. Tamburro, David Petersen
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.