Crítica | Ran

Ran

estrelas 5

Cachorros se voltam contra os donos que desistem da caça.

Arriscaria dizer, sem muito medo de errar, que Ran é o filme que contém as mais grandiosas cenas de batalhas já produzidas para o cinema. É bem verdade que há filmes clássicos inesquecíveis como Lawrence da Arábia Uma Ponta Longe Demais ou obras modernas como Henrique VO Resgate do Soldado Ryan e até mesmo O Retorno do Rei, que apresentam cenas maravilhosamente bem coreografadas, com milhares de extras e momentos dilacerantes.

Mas tudo empalidece diante do ataque ao Terceiro Castelo e o cerco às forças do outrora poderoso Lorde Hidetora Ichimonji (Tatsuya Nakadai). Nessa cena, toda ela com os efeitos sonoros reduzidos a zero, com apenas a bela trilha sonora de Toru Takemitsu marcando a tragédia, vemos a suprema atenção aos detalhes que pontilha a carreira de Akira Kurosawa. Cada quadro desse longo plano sequência é preenchido metodicamente por uma coreografia nunca antes vista no cinema – e que nunca mais seria repetida, pelo menos até o momento em que escrevo essa crítica – demonstrando, ao mesmo tempo, o equilíbrio e jogo de poder entre os irmãos Taro (Akira Terao) e Jiro (Jinpachi Nezu), as traições inerentes a esse jogo e, principalmente, o inexorável caminho à loucura a que Lorde Hidetora é levado.

No entanto, Kurosawa não se contenta com essa lírica cena e trabalha a movimentação de tropas ao longo de todo o filme de maneira irretocável. Nenhum programa de computador simulando extras no set de filmagem pode repetir o que testemunhamos em Ran. São centenas e centenas de soldados em uniformes completos, agindo em uníssono em cenas pré-batalha e em aparente algazarra nas cenas de batalha em si. Digo aparente, pois cada detalhe foi coreografado pela equipe do diretor, sob os olhos mais do que atentos dele. Reparem como nada fica fora do lugar e como o trabalho de som é perfeito: os soldados de infantaria fazem barulhos peculiares de pedaços de armaduras batendo uns contra os outros e os soldados da cavalaria fazem barulhos condizentes com o roçar de placas e armas no dorso dos cavalos. Tudo funciona quase que literalmente como um majestoso e mortal balé.

Esse é o resultado, na verdade, do encontro de dois titãs das arte. O primeiro é William Shakespeare e o segundo, claro, é Akira Kurosawa. Não é a primeira vez que Kurosawa adapta Shakespeare, mas Ran é, certamente, sua adaptação mais fiel de uma peça do bardo inglês: Rei Lear. A história é extremamente cativante: um grande lorde (Hidetora), já idoso, resolve abdicar de seu trono e dividir seu reino entre seus três filhos. O mais velho teria o título do pai e o Primeiro Castelo e os demais, o Segundo e Terceiro Castelos, com as respectivas terras, e todos trabalhariam em conjunto em prol do reino. Hidetora manteria apenas sua guarda de 30 soldados e revezaria sua moradia no castelo de cada filho. Enquanto que Taro e Jiro, com suas palavras bajuladoras, aceitam a ideia, o filho mais novo,  Saburo (Daisuke Ryû) acha tudo uma insanidade e, com toda sua sinceridade e rispidez, pede ao pai para voltar atrás. Ao ser mal compreendido, Saburo acaba sendo deserdado e encontra abrigo com Lorde Fujimaki (Hitoshi Ueki). O resultado é o caos total (aliás, “ran” significa “revolta”, “rebelião”, “distúrbio”) e a vagarosa e extremamente dolorosa descedência de Hidetora à loucura.

Kurosawa estabelece toda a situação fazendo o magistral uso das já famosas cores de Ran. Cada filho tem uma cor. Taro é amarelo, Jiro é vermelho e Saburo é azul. As cores fortes e normalmente ligadas a calor, sangue, excitação e morte de Taro e Jiro contrastam com a cor mais pacífica e sábia de Saburo. Hidetora, por sua vez, veste o branco, a fusão de todas as cores. E, para reforçar a fusão, ele usa a metáfora da flecha, mostrando aos filhos que uma flecha sozinha pode ser quebrada facilmente, mas que três flechas juntas não. Acontece que Hidetora, honesto e inteligente, usa o joelho como alavanca para quebras as três flechas, demonstrando que mesmo uma aparente solidez pode desaparecer de um momento para o outro.

E as cores funcionam, também, para guiar o espectador. Kurosawa tinha que lidar com três exércitos principais, mais a guarda pessoal de Hidetora e dois exércitos dos reinos vizinhos e a confusão seria grande demais se ele não criasse o contraste necessário, especialmente se considerarmos que o filme quase não tem close-ups, apenas planos abertos e distantes.

Mas o diretor, que também co-escreveu o filme, não contente com a já complexa trama formada, ainda traz elementos externos à narrativa clássica de Rei Lear. O primeiro deles é a brutalidade passada de Hidetora. O que sentimos pelo velho lorde é compaixão, pena mesmo. No entanto, Kurosawa aos poucos revela como Hidetora alcançou a paz na região: queimando castelos, matando famílias e cegando crianças. Nesse ponto, o diretor passa a brincar com nossos sentimentos o que nos faz indagar se ele queria mesmo que sentíssemos pena ou raiva do idoso senhor. A resposta é simples. Kurosawa queria que entendêssemos que nada é preto ou branco. A vida é composta de tons de cinza, mesmo que vistamos roupas coloridas e alegres.

O outro elemento que Kurosawa traz para a estrutura de seu Rei Lear é, na verdade, outra criação shakespeariana: a figura de Lady Mcbeth, travestida de esposa de Taro, Lady Kaede (Mieko Harada). Movida por sentimentos de vingança, Lady Kaede precipita situações indizíveis, contribuindo ainda mais para a já inevitável tragédia que vemos desenrolar na tela. Mas, também como Hidetora, há uma dubiedade em suas ações. Seriam elas justificadas? Fica para o espectador decidir.

E as atuações de Tatsuya Nakadai como Hidetora e Mieko Harada como Lady Kaede são irretocáveis. Nakadai, então com apenas 53 anos, faz convincentemente um senhor de 70 que, paulatinamente, vai ficando mais velho e mais enlouquecido. Há muita teatralidade em sua atuação, especialmente durante sua queda final aos rincões da insanidade, mas acreditamos no personagem, algo em que somos ajudados pelo fenomenal trabalho de maquiagem, semelhante ao estilo que vemos em Dodeskaden. Harada, por seu lado, é a encarnação do mal, da loba em pele de cordeiro. Mas ela faz seu papel naturalmente, quase sem esforço, o que nos faz ter mais raiva ainda de suas ordens, gritos e maquinações. É um daqueles personagens que dá vontade de entrar na tela para socar.

Seja pelas belíssimas batalhas coreografadas por Kurosawa, seja pela intensidade dos sentimentos que o filme faz aflorar, Ran é uma obra inesquecível e essencial para qualquer cinéfilo que se preze.

Ran (Idem, Japão/França – 1985)
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni, Masato Ide (baseado em peças de William Shakespeare)
Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryû, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Pîtâ, Masayuki Yui, Kazuo Katô
Duração: 162 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.