Crítica | “Random Access Memories” – Daft Punk

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estrelas 4,5

Após oito anos sem lançar um disco novo (sem contar a trilha de Tron – O Legado), o novo álbum do Daft Punk deu o que falar no ano de 2013. Ainda me lembro quando o álbum foi disponibilizado para streaming e pude matar minha ansiedade. RAM foi uma explosão na cabeça de muitos, inclusive na minha. O duo responsável por gerar discos que mudaram os rumos da música eletrônica, era esperado pra causar mudanças nele mais uma vez. Só que Random Access Memories foi justamente o que alguns não queriam: uma desconstrução do estilo. Falar do álbum dois anos depois do lançamento é bastante interessante para se analisar o que os robôs conseguiram mudar na indústria com essa obra.

O Daft Punk se afastou do que criaram em seus outros álbuns e vieram com uma proposta bem diferente: uma visita retrô ao Disco e Soul nos anos 70 e 80. É interessate notar a evolução dos discos da dupla. Um debut que impulsionou o house com Homework, um período de descobertas com ares mais melódicos em Discovery, e um aviso em Human After All dizendo “Somos humanos, apesar de tudo”. A jornada dos robôs para a humanização chegou completa em Random Access Memories. Em um período da história da música onde o orgânico parece ter sido esquecido, a dupla mostra que não há nada a acrescentar ao eletrônico, mas, sim, retomar conceitos musicais que andam sendo esquecidos.

Abrindo o disco com a mensagem principal: Give Life Back To Music, a faixa nos leva totalmente aos anos dançantes de 70, dificilmente alguém ficaria parado diante de tamanha beleza, lembrando Off The Wall de Michael Jackson. Seguindo temos a extrema melancolia romântica de The Game Of Love, eles nos mostram que robôs também amam. Giorgio by Moroder é um dos destaques, onde um dos pais da música eletrônica que dá nome a faixa narra sua história de vida por cima de uma base eletrônica excelente. A faixa culmina em uma explosão de bateria e remixagens espetaculares que levam o ouvinte ao delírio.

A melancolia volta em Within com doces notas de piano e uma letra brilhante de romantismo e auto-descoberta (There’s a world within me that I cannot explain/ Many rooms to explore but the doors look the same). Instant Crush, parceria com o ex-Stroke Julian Casablancas é uma das faixas mais fortes, com uma melodia tão intensa quanto o solo de guitarra que é tirado da manga repentinamente. Em seguida, Lose Yourself To Dance, com participação de Pharell Williams, vem com um refrão chiclete que insere muito bem o Soul na música eletrônica.

Touch é a mais profunda, com direito a certo experimentalismo mostra uma letra fantástica parecendo vir diretamente dos pensamentos perdidos do duo de robôs (Touch/ Sweet Touch/ You’ve given me too much to feel/ Sweet touch/ You’ve almost convinced me I’m real). Get Lucky despensa apresentações, o hit de 2013 com os vocais de Pharell ficou presente em todas as rádios e é marcada pelo estilo retrô e a guitarra swingada de Nile Rodgers. Beyond se destaca pela batida bem simples e contagiante com uma letra brilhantemente derramada dentro das melodias. Motherboard é a que mais lembra os velhos tempos eletrônicos da dupla, ainda que apresente uma carga experimental diferente e muito bem vinda.

O AOR, estilo muito presente nas rádios nas décadas de 70 e 80, marcado por artistas como Christopher Cross, The Carpenters e bandas como Journey, parece ser homenageado na excelente Fragments Of Time, apesar de parecer estar na posição errada do álbum. Logo somos jogados na viciante Doin’ It Right com um refrão onipresente repetido quase como um instrumento durante toda a faixa. Contact é uma faixa de despedida, podemos, através dela, praticamente ver o duo indo embora em uma nave espacial. Alguns efeitos eletrônicos ascendentes unidos a uma bateria brilhantemente executada fecha o disco de maneira fantástica.

Se Random Access Memories realmente conseguiu revolucionar algo no cenário musical fica difícil responder. Em termos sonoros não trouxe nada novo, mas serviu como uma ideia a ser resgatada, como uma tentativa de trazer de volta o significado da música. Podemos ver que alguns DJs e produtores estão tentando buscar uma aura mais retrô, como Mark Ronson fez em seu recente disco. Fica a esperança de que RAM possa ainda virar um clássico da música e que boas mudanças no cenário ainda possam vir.

Acho que nunca esquecerei aquele dia após o lançamento. Acordei no dia seguinte como uma criança acorda no Natal correndo pra brincar com seus brinquedos. Aquele sentimento poucas vezes voltou com tamanha intensidade. As melodias apresentadas em Random Access Memories são tão açucaradas que podem viciar. De fato, a música pop atual poucas vezes foi tão impressionante assim. Como resultado, o Daft Punk abriu mão de muitos fãs pra homenagear uma era de ouro da música. Mas que homenagem…

Random Access Memories
Artista: Daft Punk
País: França
Gravadora: Daft Life, Columbia
Lançamento: 21 de maio de 2013
Estilo: Disco, Soul, Eletrônico

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.