Crítica | Rapsódia em Agosto

Independente de quaisquer outras considerações – que não me furtarei a fazer mais abaixo – creio que poderia assistir por um dia inteiro, sem cansar, a interação entre Kane (Sachiko Murase), a vovozinha sobrevivente da bomba atômica jogada em Nagasaki, e seus quatro netos em sua humilde, mas linda casa nos arredores da cidade durante as férias de verão deles, o que ocupa os 50 minutos iniciais do penúltimo filme de Akira Kurosawa, já com 81 anos quando do lançamento em Cannes. É de uma ternura e um naturalismo ímpar que se aproxima muito, mas de forma diferente (contraditório, eu sei, mas faz sentido, eu garanto) do que o diretor conseguiu extrair dos protagonistas no inesquecível Dersu Uzala.

Kurosawa, no crepúsculo de sua carreira, cria uma obra simples na superfície, mas impactante e talvez injusta sob um ponto de vista, quando vamos um pouco mais para a profundidade de suas intenções. Na medida em que a narrativa progride, os quatro netos, interessados em visitar o Havaí, para onde seus pais foram conhecer um dos irmãos de Kane, que imigrou bem antes da guerra e tornou-se muito rico com a plantação de abacaxis, vão descortinando o passado traumático da avó e, também, do povo japonês de Nagasaki no dia em que seu mundo foi obliterado por um cogumelo atômico que, dentre centenas de milhares de outros, levou seu avô.

A cada pequena anedota da avó as crianças mastigam o acontecido, primeiro deixando a raiva anti-americana tomar conta de suas mentes, mas, depois, graças à forma como Kane lida com o ocorrido 45 anos antes, relativizando seus raciocínios. Trata-se de um conto de três gerações, a que sofreu as consequências em uma ponta e a que não mais se lembra da magnitude do ocorrido na outra. No meio, há a geração adulta representada pelos filhos de Kane, que Kurosawa usa para representar o egoísmo extremo, em sequências que fazem o estômago revolver quando eles finalmente entram no longa. Em outras palavras – e antes de entrar na polêmica – o diretor e roteirista fazem o papel de observadores da Humanidade, não interessando o rigor histórico ou o olhar equilibrado para os dois lados dessa terrível moeda. Afinal, não se trata de um documentário, ainda que muitos documentários sejam bem mais unilaterais do que Kurosawa fez aqui.

Sim, é verdade que, ao final da projeção do filme em Cannes um repórter americano tenha se levantado e perguntado em alto e bom som “porque a bomba foi jogada, em primeiro lugar?”, e é compreensível uma reação como essa. Os americanos e os japoneses foram vítimas mútuas da guerra, com o Japão atacando Pearl Harbor e catalisando a entrada definitiva dos EUA no esforço de guerra contra o Eixo, o que ajudou a mudar a direção que ela estava indo. Os EUA, por sua vez, jogaram duas bombas atômicas na principal ilha japonesa, em um ato bélico que efetivamente encerrou o conflito, para todos os efeitos. Cada um dos lados desse terrível embate teve suas perdas e elas precisam ser respeitadas, mas não vejo desrespeito no que Kurosawa fez aqui, algo que muito provavelmente é mais fácil para um brasileiro, longe do coração da guerra.

Richard Gere, como Clark, filho do irmão de Kane, ao visitar Kane, pede desculpas pelo ocorrido e foi esse o motivo principal da revolta do jornalista e de vários outros depois. Mas, como nipo-americano, Clark está no meio desse conflito e é bastante crível essa sua reação emocionada e ela não representa necessariamente um posicionamento anti-americano de Kurosawa. Aliás, seria ingênuo demais pensar nessa linha. Afinal de contas, o diretor é normalmente tido como “o mais ocidental dos diretores japoneses” e, de fato, ele o é. Reparem como, em Rapsódia em Agosto, ele faz questão absoluta de determinar que os figurinos dos quatro netos sejam majoritariamente formado de camisetas de faculdades americanas ou com dizeres em inglês. Além disso, o roteiro constrói o irmão de Kane que só vemos em fotos como o único da família a ter se tornado rico, estabelecendo os EUA firmemente como a famosa Terra da Oportunidade e da Igualdade. E, como se isso não bastasse, Kurosawa não só imprimiu uma estética ocidental a seus filmes, como literalmente deve grande parte de sua carreira a diretores e produtores americanos que, em gestos belíssimos de agradecimento à importância do diretor nipônico, o retiraram do esquecimento a que estava fadado e que o levara a tentar o suicídio nos anos 70.

Isso, porém, não quer dizer que o roteiro seja “à prova de balas”, pois não é. Não só Kurosawa carrega nas cores do didatismo durante os ternos momentos da avó com seus netos em toda a metade inicial da película, como transforma esses momentos quase que em uma jornada turística de auto-descoberta, com ênfase no lado “turístico” da coisa, o que por vezes incomoda. Além disso, a reiteração e repetição das tomadas dos monumentos aos mortos em Nagasaki aprofundam essa sensação de “lição de história”, o que é ao mesmo tempo o objetivo do diretor, na linha do “não esqueçam o ocorrido” e também a sua forma de quase que fechar uma porta para um momento de sua própria história, ou melhor, da história de sua geração de japoneses, mesmo que ele não tenha ido à guerra em razão de problema de saúde. Da mesma forma, quando os pais das crianças chegam do Havaí, a retratação deles como vilões – por assim dizer – é meteórica e cambando para o diálogo expositivo que logo dão espaço para a chegada de Richard Gere, quase que um literal cavaleiro de armadura em um cavalo branco.

Mas, de alguma forma difícil de explicar, o resultado desse trabalho de Kurosawa é emocionante. Talvez seja a incrível performance de Sachiko Murase como Kane ou talvez a interação dela com os quatro jovens ou, talvez ainda, a forma simples, com câmera parada à meia altura e planos gerais apertados e econômicos com que o diretor captura essas interações. Ou, mais provável, a conjunção de todos esses fatores com um olhar naturalista, alguns arroubos de surrealismo quando o “olho atômico” aparece e até mesmo a estranheza natural causada pela chegada de Gere ao seio do elenco japonês e, ainda por cima, com o ator falando a língua (ele sempre praticou o budismo).

Rapsódia em Agosto sem dúvida é polêmico e as reclamações americanas procedem em parte, se interpretarmos o filme de maneira mais direta e simplista e esquecermos que é a visão de civis sobre atos de guerra, bem diferente da visão militar, obviamente (“a culpa é da guerra”, Kane deixa claro). Mas tenho para mim que essa forma de se ver a penúltima obra de Kurosawa é injusta e glosa a beleza inegável do relacionamento humano que ele deixa como parte de seu legado incomparável.

Rapsódia em Agosto (Hachi-gatsu no rapusodî, Japão – 1991)
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa (baseado em romance de Kiyoko Murata)
Elenco: Sachiko Murase, Hisashi Igawa, Narumi Kayashima, Tomoko Otakara, Mitsunori Isaki, Toshie Negishi, Hidetaka Yoshioka, Choichiro Kawarazaki, Mieko Suzuki, Richard Gere
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.