Crítica | Ratatouille

estrelas 5,0

Brad Bird, que estreara em grande estilo na Pixar com Os Incríveis, desta vez nos traz uma história mais intimista, colocando na tela a paixão de um chef pela culinária, um chef, porém, muito muito pequeno. Essa é a premissa básica de Ratatouille, unindo um rato com a cozinha francesa, trazendo para o espectador um dos personagens mais carismáticos de toda a história do estúdio, que desde os primeiros instantes de projeção já consegue afastar de nossa mente a falta de higiene que tal combinação demonstra.

Evidentemente, Remy (Patton Oswalt) é um roedor muito diferente dos outros, não só ele é mais “limpinho”, recusando-se a andar em quatro patas para não ter suas “mãos” sujas e possuindo um verdadeiro dom quando se trata de seu olfato e paladar. Esses sentidos aguçados do pequeno mamífero provocaram nele, desde cedo, uma ânsia por ser algo além do que seu clã – cheio de ratos que são realmente como os conhecemos – espera para ele. Após um acidente, porém, a oportunidade bate à sua porta e Remy se vê próximo de um famoso restaurante em Paris, onde conhece Linguini (Lou Romano) e, através dele, passa a não só roubar comida, mas criá-la.

O roteiro de Ratatouille traz uma pluraridade bastante peculiar, ausente mesmo nos outros filmes do estúdio. Ele traça uma narrativa repleta de linhas paralelas que compõem o quadro não através de um único ponto de vista e sim mesclando a perspectiva do roedor com a humana, ao mesmo tempo que coloca em cheque a liberdade, a busca pelos sonhos, os valores familiares, a lealdade e a força de vontade. Ao contrário de outros filmes, como Toy Story, que se limita a ter problemáticas centralizadas, em geral, únicas, a animação em questão procura apresentar diferentes dificuldades no caminho do protagonista, algo que perfeitamente se encaixa com o lema do famoso Gusteau – Qualquer um pode ser um chef -, que  permeia todo o longa, trazendo a importante lição de que devemos batalhar por aquilo que efetivamente queremos e, desta forma, atingiremos nossos objetivos.

Bird faz questão de mostrar como não é fácil conseguir o que se quer e o faz com maestria através dos personagens Skinner (Ian Holm), a família de Remy e, a provação final, o crítico culinário Anton Ego (Peter O’Toole). Por meio de cada um desses, novos aspectos da narrativa são explorados, garantindo uma maior profundidade ao longa. O que mais surpreende é a forma orgânica como tais elementos são inseridos no texto – não temos uma progressão linear que traz um problema após o outro, todos eles entram na trama aos poucos e nela permanecem em conjunto, trazendo uma agilidade para a obra, que em poucos momentos nos deixa dar um profundo suspiro de alívio.

Naturalmente, o trabalho de direção é essencial para essa fluidez. Ao realizar uma dinâmica mesclada entre planos mais longos, em geral presentes nos momentos de correria do rato, com alguns mais curtos, Brad cria uma linguagem veloz que perfeitamente traduz o clima da cozinha agitada onde passamos grande parte da projeção. Em paralelo temos a constante sensação de perigo passada pelo roedor, que, se descoberto, certamente terá toda sua vida estragada (junto à de Linguini). Mais uma vez a pluralidade entra em questão, fazendo o espectador, em momento algum, se sentir verdadeiramente seguro de que verá um final feliz.

E a ânsia por um desfecho com esse caráter é algo que ansiamos desde os minutos iniciais, fruto do trabalho de animação que faz de Remy um personagem não só memorável, mas facilmente relacionável. O pequeno roedor passa por situações pelas quais todos nós passamos, a pressão familiar, a sensação (ainda que momentânea) de solidão e, é claro, a paixão por algo. Seu olhar carismático, seu sorriso genuíno demonstra toda a qualidade da animação e a composição de sua pelugem é de deixar o queixo cair até hoje, trabalho que se iniciara lá atrás em Monstros S.A. A cada movimento do rato podemos sentir como se estivéssemos, de fato, diante de uma criatura viva, ainda que cheia de cor.

E já que entramos na coloração, impossível não sair faminto da sessão graças ao trabalho aqui realizado. A limpeza de Remy é oriunda de seus tons mais vivos, enquanto que cada comida, seja pela textura, seja pelas cores que trazem um nítido realismo aos pratos, parecem verdadeiras. O saudável cuidado do estúdio aqui deve ser observado, ao passo que foram contratados consultores culinários para trazer o realismo de cada alimento que vemos na tela. Somente de ver podemos sentir o gosto, seja do queijo, seja do ratatouille, presente em um clímax preciso, curto e de tirar lágrimas de qualquer um.

Ratatouille é mais um grande acerto da Pixar, que traz uma criativa abordagem da culinária, lidando, porém, com aspectos muito mais profundos que a pura cozinha. Não há como não se apaixonar pela grande aventura desse pequeno rato e ao assistir a essa obra senti-me exatamente como Ego no desfecho. A vontade é de simplesmente iniciar a projeção desde o começo novamente.

Ratatouille (idem – EUA, 2007)
Direção:
 Brad Bird, Jan Pinkava
Roteiro: Brad Bird
Elenco: Brad Garrett, Lou Romano, Patton Oswalt, Brian Dennehy, Peter Sohn, Peter O’Toole, Brad Garrett, Janeane Garofalo
Duração: 111 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.