Crítica | Ray Donovan – 1ª Temporada

estrelas 4

A primeira temporada de Ray Donovan provavelmente desapontará um grupo de espectadores na mesma proporção que surpreenderá outro. Haverá um terceiro grupo, também, que potencialmente ficará tão desapontado quanto surpreendido. A que grupo este crítico pertence? Bem, continuem lendo.

O personagem título, vivido por um soturno Liev Schreiber, é o equivalente hollywoodiano de Mr. Wolf, o mítico personagem vivido por Harvey Keitel em Pulp Fiction. Ele é um fixer, ou seja, alguém que conserta os mais variados problemas dos ricos e famosos de Hollywood, como parte de seu contrato com o escritório de advocacia comandado por Ezra Goldman (Elliot Gould) e Lee Drexler (Peter Jacobson). Sua capacidade de lidar com a vida sexual desregrada de astros do cinema e de jogadores profissionais é inversamente proporcional à sua capacidade de dar um jeito em sua própria vida pessoal.

Apesar de a série começar com um escabroso caso duplo de uma mulher morta ao lado de uma estrela e a filmagem de outra estrela fazendo sexo com um transsexual, Ray Donovan não é, de forma alguma, uma série que usa a batida estrutura de “caso da semana”. É por isso que mencionei que um grupo de espectadores, quase que enganado pela estrutura do primeiro episódio, poderá desapontar-se dali por diante, já que o verdadeiro mote da série é a família Donovan e seus problemas em todos os frontes. Por outro lado, se o espectador estiver aberto a um drama sombrio e pesado, encontrará na temporada um prato cheio, ainda que ela exija paciência e tranquilidade para sua degustação.

A desordem na vida de Ray, casado com Abby (Paula Malcomson), pai dos adolescentes Bridget (Kerris Dorsey) e Conor (Devon) e irmão do treinador de pugilismo com Mal de Parkinson Terry (Eddie Marsan) e de Bunchy (Dash Mihok), adulto com mentalidade de adolescente (re)começa quando o patriarca da família, Mickey (Jon Voight), é libertado cinco anos mais cedo da prisão em que estivera por 20 anos. De Boston, cidade natal de todos os principais personagens, Mickey logo vai para Los Angeles e mergulha de cabeça na vida dos filhos e netos, apesar do ódio palpável que Ray sente pelo pai, algo que não é refletido diretamente em Terry e Bunchy, o primeiro suportando-o e o segundo em alguns momentos idolatrando-o e, em outros, sendo indiferente. O fato é que o castelo de cartas de Ray começa a desabar com a abrupta e inesperada entrada de Mickey na vida de todos.

Mas o mais interessante na estrutura da série criada por Ann Biderman (também criadora de Southland) é que os roteiros são pouco reveladores dos passados dos Donovan em um grande exemplo de economia de palavras aliada à uma fotografia inteligente, que mostra aquilo que outras séries descreveriam em textos longos ou em flashbacks exagerados. Assim, ao poucos – muito aos poucos – vamos aprendendo especialmente sobre Ray e seu passado em Boston, o que levou seu pai à prisão e como é sua relação com Ezra Gould, que também funciona como seu mentor. O espectador, assim, não deve esperar diálogos longos e repletos de texto expositivo. Aqui, o silêncio e as imagens valem mais do que as proverbiais mil palavras a todo o momento.

Sem dúvida alguma, porém, a temporada tem a característica do que os americanos chamam de slow burn, ou seja, a combustão acontece com vagar, mas em uma constante que não necessariamente leva a uma explosão no clímax. A série é contemplativa, não de ação, em um mix de drama familiar com thriller criminal que depende muito do quão convincente é o elenco. E, nesse aspecto, a temporada tem seu ponto alto.

Liev Schreiber está, possivelmente, em seu melhor papel. Apesar da aparência quase imutável e sempre carrancuda de seu personagem ao longo dos episódios, o ator passa constante conflito e demonstra coração mesmo por trás da carapaça que o reveste. Vemos um homem perturbado por um passado que ele faz de tudo para enterrar, mas que insiste em vir à tona. Vemos um marido que luta para ser fiel e leal, mas que tem suas recaídas quase trágicas. Vemos um pai que ama seus filhos, mas que não sabe demonstrar esse amor como parte de seu dia-a-dia. É um homem contaminado por seu passado violento que foi moldado em um presente também violento em que trocar uma camisa suja de sangue (normalmente de terceiros) é algo corriqueiro. Um grande para papel para um ator que se mostra à altura dele.

Dividindo a tela em pé de igualdade com Schreiber, há o veterano Jon Voight. O ator está à vontade em seu papel, extraindo do espectador os mais radicais sentimentos. Em determinados momentos, sua alegria e energia de viver é contagiante e conseguimos simpatizar com um homem que, depois de ser encarcerado (de acordo com ele, injustamente) por 20 anos, procura tratar cada dia como seu último. Em outros momentos, vemos um manipulador asqueroso que dá vontade de pular na tela e agarrar pelo pescoço. A complexidade do personagem e seu conflito interno são palpáveis, quase como uma versão mais velha do próprio Ray, característica essa que não foge à Ray, claro, que sabe o que o futuro lhe espera.

Mas a grande verdade é que, apesar de o foco ser efetivamente no embate Ray versus Mick, todo o núcleo adulto da família Donovan foi cirurgicamente escalado. Paula Malcomson como Abby é a esposa dona-de-casa que não tem saída. Ela ama seu marido, mas odeia o pouco que sabe sobre o que ele faz. Sua personagem lembra muito Carmela Soprano (Edie Falco) em Família Soprano, tanto em atitude quanto em aparência. Sua relevância na série vai em um crescendo, até um belo e representativo final na praia sobre o que é a vida dos Donovan: uma aparente calma em meio a sangue. Eddie Marsan, como Terry, o irmão mais velho de Ray, dono da academia de pugilismo Fite Club e portador de Mal de Parkinson é a intensidade encarnada. Mais até do que Schreiber, pois vemos em Terry uma espécie de raiva contida, de desapontamento com a vida que lhe legou uma doença debilitante e um afastamento de qualquer vida amorosa que chega a ser comovente. Finalmente, Dash Mihok, como Bunchy, o irmão mais novo e infantilizado de Ray é extremamente convincente como um alcoólatra e, como ele mesmo diz, um anoréxico sexual, com um passado horrível de abuso.

A série, ao começar de um jeito e se desenvolver de outro, quase que largando completamente os clientes problemáticos de Ray para focar no núcleo Donovan, perde tempo que poderia ter empregado na introdução mais suave de aspectos importantes, como a presença do FBI, a ex-amante de Mick e mãe de Daryll (Pooch Hall), Sully (James Woods) desafeto de Mick que é trazido de Boston para Los Angeles e, principalmente, a sub-trama do padre O’Connor, que acaba mal explorada. Todas essas peças, apesar de bem utilizadas (com exceção da última) carecem de preparação e, mesmo considerando que a série não prima por pegar a mão do espectador e explicar em detalhes o passado de cada um, poderiam ter se beneficiado de apresentações mais protraídas no tempo, menos bruscas.

As vidas de Ray e dos Donovan em geral, porém, são interessantes o suficiente para prender a atenção do espectador que tiver paciência e entender que a série é sobre família e não sobre um fixer e que não contém ação em níveis “esperados”. A contemplação é importante aqui e a fotografia, mantendo os tons mudos, caminhando para um lado mais escurecido, nos força a fazer isso e a mergulhar na mente em turbilhão do perturbado protagonista, em um mundo em que ninguém – ninguém mesmo – é inocente.

Ray Donovan merece uma chance, sem dúvida alguma. Ah, e se você ficou curioso para saber a que grupo de espectadores pertence este crítico, bem, assim como a série faz, deixei a resposta nas entrelinhas… (ou não…).

Ray Donovan – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2013)
Criadora e showrunner: Ann Biderman
Direção: Allen Coulter, Greg Yaitanes, John Dahl, Dan Attias, Michael Uppendahl, Lesli Linka Glatter, Guy Ferland, Jeremy Podeswa, Tucker Gates, Dan Minahan, Michael Apted
Roteiro: Ann Biderman, Ron Nyswaner, David Hollander, Sean Conway, Brett Johnson
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Steven Bauer, Katherine Moennig, Pooch Hall, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Elliott Gould, Peter Jacobson, Denise Crosby, William Stanford, Sheryl Lee Ralph, Austin Nichols, Johnathon Schaech, James Woods, Rosanna Arquette
Duração: 633 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.