Crítica | Ray Donovan – 2ª Temporada

estrelas 4

Obs: Há spoilers somente da temporada anterior, cuja crítica vocês podem ler aqui.

A 2ª temporada de Ray Donovan começa do jeito que muita temporada ruim costuma começar: com o status quo alterado, somente para que ele volte ao normal no final do primeiro episódio. É aquele gostinho de coisa diferente, mas que nunca se concretiza.

No entanto, Ray Donovan não é uma série ruim, longe disso. Ann Biderman simplesmente continua sua história sobre um homem que sabe controlar tudo e todos ao seu redor, menos sua família. Esqueçam, portanto, o começo em tese enganoso, com Mickey (Jon Voight) no México e o casamento de Ray (Liev Schreiber) com Abby (Paula Malcomson) parecendo que está de vento em popa novamente. Essa é a superfície que, por alguns momentos, embaça a visão e dá aquela impressão de perfeição, somente para a showrunner mergulhar diretamente na continuação da narrativa da temporada anterior, especialmente com as consequências do assassinato de Sully (James Woods) bem ao seu final.

Entram no jogo, para engrossar o caldo, o diretor do FBI de Los Angeles e candidato ao cargo de diretor-geral do órgão, Ed Cochran (o ótimo Hank Azaria) e a bela repórter enxerida de Boston Kate McPherson (Vinessa Shaw), ambos para revirar o passado recente e tornar a vida de Ray mais complicada ainda. De um lado, Cochran tenta usar a morte de Sully para ajudar em sua campanha de bom moço e agente eficiente e, do outro, McPherson tenta descobrir a verdade sobre o que ocorreu. Não demora, claro, e aprendemos mais sobre a vida particular de Cochran, elemento chave para a narrativa e, claro, a repórter acaba envolvendo-se amorosamente com Ray, tornando as águas de sua mente sombria ainda mais turva.

No meio disso tudo, a vida continua com a família Donovan, com Mickey sendo quase que literalmente torturado pelo agente de condicional que Ray coloca em seu encalço, Bunchy (Dash Mihok) tentando superar seu trauma de infância, Terry (Eddie Marsan) lutando para construir vida nova com Frances (Brooke Smith), Abby lidando do seu jeito com a infidelidade de Ray, Conor (Devon Bagby) cada vez mais rebelde e, finalmente, Bridget (Kerris Dorsey) intensificando seu namoro escondido com Marvin Gaye Washington (Octavius J. Johnson). Como fica fácil ver, há uma grande variedade de narrativas tendo Ray como ponto focal, que ainda tem que lidar com seus clientes, um deles o sensacionalmente doido e guru de auto-ajuda Steve Knight (vivido de forma hilária e doentia por Eion Bailey). Chega a ser impressionante como Biderman consegue, de maneira muito eficiente, equilibrar todos os aspectos díspares ao redor do protagonista e entregar um todo coerente que consegue, ainda, avançar na personalidade não só de Ray, mas também as de Mickey e Abby, sem esquecer de cada um dos demais membros da família disfuncional de Ray.

Um episódio que vale especial nota e ilustra bem essa miríade de situações convergindo para um ponto apenas é Walk This Way, o 7º da temporada, em que Conor, vendo a situação cada vez pior ao seu redor, pede de aniversário uma festa só com membros da família. Dirigido pelo próprio Liev Schreiber, o que vemos é o ponto de ruptura, o momento em que Ray realmente perde controle da situação e tudo, absolutamente tudo dá errado. Pode parecer conveniência narrativa – e de certa forma é -, mas Schreiber, que antes havia apenas dirigido um longa, Uma Vida Iluminada, mostra controle de seu ofício atrás das câmeras, criando uma atmosfera que começa alegre e aberta, mas que vai gradativamente se fechando e se tornando mais sombria e trágica. Seu trabalho de câmera, que vai do plano aberto ao close-up emula bem esse sentimento de claustrofobia que vai aos poucos se agigantando até a explosão do final.

No entanto, há algumas narrativas paralelas que não funcionam muito bem e parecem atravancar a história como um todo. Uma delas é justamente a que envolve o mencionado guru de auto-ajuda. Apesar da inusitada atuação de Bailey, fato é que não há, ali, qualquer desenvolvimento necessário para a trama ou para Ray além de ser mais um caso que ele tem que lidar. Sim, há necessidade de se mostrar que o fixer continua na ativa, mas a escolha de Biderman por um caso recorrente e não casos novos diferentes soa estranha e, de certa forma, incompleta e insatisfatória. O mesmo vale para a narrativa que lida com Cookie Brown (Omar Dorsey) e Bridget. Há o suspense, claro, mas além do que já sabíamos sobre Ray, a construção da história soa artificial demais.

Mesmo com problemas, Schreiber está novamente impressionantemente intenso como Ray, talvez até mais do que na temporada anterior, com cada linha em sua testa marcando de verdade uma preocupação. Além disso, Jon Voight continua se divertindo na pele do patriarca Mickey e, nesta temporada, ele ganha ainda mais ênfase graças à situação com o agente de condicional e o envolvimento de Cochran, além de uma situação mais a frente que se desenvolve graças à sua amizade com o simpático Shorty (Steph DuVall), seu vizinho de porta com câncer. Malcomson é outra que também ganha espaço para brilhar, mostrando que sua personagem tem várias outras camadas, talvez tão sombrias quanto as de Ray, ao ponto de ela própria tornar-se, em determinados momentos, detestável em sua relação com o policial que conhece no estande de tiro.

Há, sem dúvida, muita riqueza e muita profundidade nos personagens da série e a 2ª temporada não se esquiva de abordá-los de maneira mais completa, ainda que, para isso, tenha que fazer alguns sacrifícios aqui e ali. Ray Donovan continua sendo uma série difícil de se assistir pela escuridão, crueza e violência que cercam seus personagens, mas a recompensa é ver grandes atores em grandes papeis, em uma história cativante se o humor do espectador estiver ajustado de acordo. Mesmo com um falso começo, a jornada sombria vale a pena.

Ray Donovan – 2ª Temporada (Idem, EUA – 2014)
Criadora e showrunner: Ann Biderman
Direção: Tucker Gates, Michael Uppendahl, Phil Abraham, Dan Attias, John Dahl, Liev Schreiber, Guy Ferland
Roteiro: Ann Biderman, David Hollander, Michael Tolkin, Ron Nyswaner, Brett Johnson, Cheo Hodari Coker
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Steven Bauer, Katherine Moennig, Pooch Hall, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Elliott Gould, Peter Jacobson, Denise Crosby, William Stanford, Sheryl Lee Ralph, Austin Nichols, Johnathon Schaech, Ambyr Childers, Hank Azaria, Sherilyn Fenn, Kip Pardue, Vinessa Shaw, Omar Dorsey, Eion Bailey, Brian Geraghty, Ronald Keith, Brooke Smith, Octavius J. Johnson, Steph DuVall
Duração: 636 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.