Crítica | Ray Donovan – 3ª Temporada

estrelas 4

Obs: Há spoilers somente das temporadas anteriores, cujas críticas você pode ler aqui.

A terceira temporada de Ray Donovan é marcada pela saída de Ann Biderman, a criadora da série, do cargo de showrunner não muito tempo depois do final da temporada anterior. Aparentemente, a Showtime estava insatisfeita com a incapacidade de Biderman de se manter dentro do orçamento e, com isso, David Hollander, que já era produtor executivo da série, assumiu o cargo. Mas a criadora permaneceu como consultora criativa, o que não necessariamente significa muita coisa na prática.

Mas a indagação justa que todos farão é: a série mudou com essa troca? A resposta, porém, não é tão simples como um “sim” ou um “não”. Hollander trouxe mais ênfase aos conflitos pessoais do personagem-título vivido maravilhosamente bem por Liev Schreiber, ao mesmo tempo que sacudiu um pouco o status quo matando Ezra (Elliott Gould), mentor e amigo de Ray e praticamente substituindo-o pelo magnata Andrew Finney, vivido pelo sempre ótimo Ian McShane. E àqueles que acharem que soltei um spoiler, calma, pois essa “morte” acontece nos primeiros minutos do primeiro episódio desta temporada e funciona não só para acrescentar mais uma culpa na consciência de Ray, que entregara Ezra à polícia no último episódio da temporada anterior, como para forçar a mudança completa do personagem, que está sozinho, separado da família, sem seu braço direito Avi (Steven Bauer) e literalmente sem rumo.

O envolvimento com Finney acaba se dando naturalmente e isso contribui para o lado fixer de Ray ser mais organicamente integrado à narrativa, já que ele passa a trabalhar para o magnata fazendo tarefas das mais simples até as mais sujas. Por outro lado, Hollander sabe, assim como Biderman sabia, que o forte de Ray Donovan não está nas habilidades de Ray para “consertar” a vida dos outros e sim em sua inabilidade de ajeitar a sua própria vida. Dessa maneira, mesmo que a relação Ray-Finney, que conta, ainda, com a presença de uma estranhíssima e cadavérica (e com aparelho nos dentes) Katie Holmes como a ambiciosa filha do magnata, seja interessante, ela não é, assim como nas temporadas anteriores, o foco da narrativa, que continua sendo mesmo a família Donovan ao redor do patriarcado do cafajeste Mickey (Jon Voight), sempre arrumando confusão.

Portanto, de certa forma, as mudanças trazidas por Hollander não são mudanças verdadeiras ou radicais na série. Ele soube sim mesclar melhor o lado profissional e pessoal de Ray, mas manteve a estrutura básica da narrativa, o que, diga-se de passagem, é, sem dúvida, um aspecto positivo.

Outra marca desta temporada, talvez realmente a grande sacada de Hollander, é largar Ray um pouco de lado, abrindo espaço para a atuação do incrível Eddie Marsan como Terry, o irmão mais velho de Ray. Preso depois dos eventos da temporada anterior e sofrendo de Mal de Parkinson, o ator tem os melhores e mais dolorosos – em todos os sentidos – momentos, roubando todas as cenas em que aparece, com sua total entrega ao personagem. Se Ray se sente culpado por tudo que fez e não fez na vida, Terry é a personificação da culpa cristã, elemento que é bem desenvolvido aqui, com a inclusão do padre Romero (Leland Orser) como investigador clerical da morte do padre Danny nas mãos dos irmãos Donovan. E o drama pesado de Terry serve de veículo complicador da vida de Ray, claro, que precisa lidar com diversas situações ao mesmo tempo, sem efetivamente mergulhar em nenhuma delas.

Isso, portanto, afasta o protagonista ainda mais de sua esposa Abby (Paula Malcomson) e de seus filhos Bridget (Kerris Dorsey) e Connor (Devon Bagby). Esse aspecto da família imediata de Ray tem a vantagem de continuar abrindo espaço para Malcomson, mas acaba desperdiçando cartucho ao lidar com uma trama forçada envolvendo Bridget e sua tentativa de romance com um professor de sua nova escola. Dorsey tenta dar profundidade ao seu arco, mas o roteiro não ajuda muito, parecendo mais um acessório desnecessário à trama principal do que qualquer outra coisa.

E o mesmo vale, guardadas as devidas proporções, ao enfoque dado a Mickey. Aqui, sua história é praticamente paralela à de Ray, o que significa dizer que o tangenciamento narrativo só acontece bem mais para frente e de maneira exagerada e um tanto fora do perfil de ambos personagens. No entanto, aqui, há um elemento diferenciador importante: a atuação sempre cativante e arrebatadora de Jon Voight, o antagonista que adoramos odiar.

Mantendo a fotografia escurecida – apesar da claridade de Los Angeles – que caracterizou as temporadas anteriores e que ganha contornos mais profundos e ameaçadores com as tomadas internas na mansão rococó de Finney, o estilo neo-noir funciona bem, combinando com o estado de espírito de absolutamente todos os envolvidos. O mesmo vale para o figurino que carrega nos tons muito escuros mesmo em situações de aparentemente leveza. Aliás, sempre impressiona como, em termos atmosféricos, a mera presença de Ray em um ambiente, seja ele qual for, traz um peso à toda a cenografia, o que demonstra não só a força do roteiro e do design da produção como, também, a atuação de se tirar o chapéu de Schreiber, atuação essa que ganha mais latitude ainda em seu momento catártico bem ao final.

Ray Donovan não necessariamente mudou com a troca de showrunner, mas sua qualidade extraordinária se manteve, o que já é, sem dúvida alguma, uma vitória. O trabalho de Hollander, agora, é continuar assim.

Ray Donovan – 3ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Criação: Ann Biderman
Showrunner: David Hollander
Direção: Colin Bucksey, Ed Bianchi, Dan Attias, Lesli Linka Glatter, John Dahl, Tucker Gates, Michael Uppendahl, David Hollander
Roteiro: David Hollander, William Wheeler, Brett Johnson, Gina Welch, Michael Tolkin
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Steven Bauer, Katherine Moennig, Pooch Hall, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Elliott Gould, Peter Jacobson, Hank Azaria, Wendell Pierce, Ian McShane, Katie Holmes, Guy Burnet, Jason Butler Harner, Leland Orser, Christy Williams, Aaron Staton, Alyssa Diaz, Fairuza Balk
Duração: 636 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.