Crítica | Ray Donovan – 4ª Temporada

Obs: Há spoilers somente das temporadas anteriores, cujas críticas você pode ler aqui.

Ray Donovan é uma daquelas séries que consegue, em linhas gerais, manter um alto e homogêneo nível de qualidade ao longo de suas temporadas que, mesmo lidando com arcos distintos, conta uma macro-história sobre a família Donovan em Los Angeles, encabeçada por Ray (Liev Schreiber), um “resolvedor” de problemas das mais variadas celebridades que não se furta em tomar medidas radicais, ainda que cada uma delas deixe profundas cicatrizes psicológicas nele e naqueles que o cercam. Na quarta temporada, o showrunner David Hollander arrisca mais, ampliando os horizontes desse submundo do protagonista e acaba nos levando a um thriller familiar de altos e baixos que, porém, mais uma vez, mantém o sarrafo qualitativo lá em cima.

Continuando a partir dos eventos da terceira temporada, vemos Ray, no lado pessoal, tendo que lidar com seu profundo sentimento de culpa, algo que sua educação católica incutiu profundamente em seu ser e que, claro, não é compatível com tudo aquilo que ele sofreu e que escolheu (ou foi levado a) fazer de sua vida. Finalmente internalizando o abuso que sofrera quando criança, ele participa de um grupo  de ajuda capitaneado pelo padre Romero (Leland Orser) e, lá, estabelece uma ligação de amizade com Hector (Ismael Cruz Cordova), campeão de boxe que tem um relacionamento incestuoso secreto com sua própria e também extremamente problemática irmã Marisol (Lisa Bonet).

Na mesma toada, vemos o sempre inquieto Mickey (Jon Voight) em sua constante trajetória auto-destrutiva (tal pai, tal filho, afinal de contas) planejar um ousado roubo de um cassino na deprimente cidadezinha de Primm, em Nevada, a meio caminho entre Los Angeles e Las Vegas. Mantendo um caso com a cantora do local e vendo com olhos de extrema cobiça uma gigantesca ferradura com milhões de dólares “dando sopa” por ali, o velho golpista não resiste em continuar sua perseguição pelo que ele parece perceber como algo devido a ele.

Esses são os dois arcos narrativos de cunho pessoal que embalam a temporada como um todo e que são temperados pelos demais membros da família: Abby (Paula Malcomson) tem que lidar com problemas de saúde ao mesmo tempo que precisa controlar seu filho rebelde e sua filha sumida, Terry (Eddie Marsan) vê em Hector uma oportunidade de ouro para conseguir construir algo em sua vida, ao mesmo tempo que coloca debaixo de sua asa um promissor e jovem boxeador, Bunchy (Dash Mihok) tenta entender o que acontece com sua esposa, agora que a filha deles nasceu e, finalmente, Daryll (Pooch Hall) sente-se relegado a segundo plano em toda essa estrutura. Pode não parecer, mas as histórias pessoais de cada personagem central da família Donovan são trabalhadas como narrativas separadas, mas há um grande cuidado dos roteiros para que elas sempre tangenciem a história principal, convergindo fortemente no terço final da temporada em um final harmônico, ainda que talvez em desconformidade com tudo o que vimos antes na série, o que não é algo necessariamente ruim.

Perpassando todas as histórias e aí sim emprestando o que mencionei mais acima, ou seja, uma expansão bastante grande no campo de atuação de Ray, há a narrativa envolvendo a máfia russa, que decorre diretamente do massacre dos armênios por Ray e Mickey na temporada anterior e da pressão da detetive Muncie (Michael Hyatt) em cima de Ray. Servindo de ponte, a sofisticada dona de galeria Sonia Kovitzky (Embeth Davidtz), que age como fronte para a operação russa de tráfico de escravas sexuais e drogas, entra na vida de Ray, arregimentando-o para esse lado bem mais perigoso da história, com consequências diretas para sua família. Começa, assim, um jogo de xadrez que Ray precisa jogar com expertise e prevendo diversos passos a frente, perigosamente arriscando o desmoronamento de tudo que construiu.

Há muita repetição ao longo da temporada. A ameaça russa é onipresente, mas a forma como ela é materializada cansa um pouco, com Ray tendo que deslocar sua família para lugar seguro mais de uma vez, tomando tempo que poderia ser empregado em outras linhas narrativas ou simplesmente cortado da série como um todo. Por outro lado, o que pode parecer improvável no começo realmente acontece: há uma convergência natural para um explosivo ponto final que vai sendo cautelosamente construído ao longo de algo como 10 episódios. Essa construção não é óbvia e nem é frenética, o que, creio, exigirá paciência por parte do espectador.

Além disso, o primeiro episódio promete algo que não se concretiza, em uma indicação – que logo passa, ainda bem – que o showrunner usa esse começo para dar aquele clássico passo em falso, anunciando mudanças profundas no modus operandi de Ray, apenas para quase que imediatamente voltar ao status quo anterior. É, sem dúvida, um “truque sujo” do roteiro e algo que condeno em séries que se fiam demais nesse artifício. No entanto, aqui, a grande verdade é que essa brincadeira não dura muito e não interfere na narrativa, ainda que tenhamos que aceitar a quase integral exclusão do padre Romero da história.

O elenco continua excepcional, particularmente Schreiber, Voight e Marsan, com um emocionante trabalho de Malcomson, que realmente parece encontrar sua personagem aqui. O contraponto suave, mas firme de sua Abby à dureza com coração de Ray rende belos momentos conflituosos em um relacionamento que é testado ao máximo. Embeth Davidtz, que entra na série nesta temporada, também não faz feio, como uma “vilã” extremamente dúbia e por quem, apesar de conhecermos seus atos horripilantes, podemos nos compadecer.

Ao sair de sua zona de conforto, abrindo a série para máfias internacionais, altas apostas, reviravoltas constantes e mortes em quantidade, David Hollander arrisca perder a essência que marca Ray Donovan. No entanto, com roteiros bem costurados, mas que exigem paciência, ele consegue manter em evidência o lado familiar tão importante para a criação de Ann Biderman, reduzindo a influência dos mais diferentes eventos que são eficientemente desenvolvidos. Os conflitos de Ray, tendo que gerenciar um complexo tabuleiro de xadrez, continuam fascinantes e relacionáveis, mais uma vez mostrando que a série é uma ótima constante.

Ray Donovan – 4ª Temporada (Idem, EUA – 26 de junho a 18 de setembro de 2016)
Criação: Ann Biderman
Showrunner: David Hollander
Direção: Liev Schreiber, John Dahl, Michael Apted, Phil Abraham, Robert McLachlan, Daisy von Scherler Mayer, Tricia Brock, Tucker Gates, James Whitmore Jr., Stephen Williams, David Hollander
Roteiro: David Hollander, Mike Binder, Rob Fresco, Miki Johnson, Sean Conway, Chad Feehan, David Sonnenborn
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Pooch Hall, Steven Bauer, Katherine Moennig, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Peter Jacobson, Hank Azaria, Austin Nichols, Michael McGrady, Leland Orser, Michael Hyatt, Aaron Staton, Alyssa Diaz, Embeth Davidtz, Richard Brake, Lisa Bonet, Ted Levine, Gabriel Mann, Paula Jai Parker, Ismael Cruz Cordova, Raymond J. Barry, Pasha D. Lychnikoff
Duração: 654 min. (12 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.