Crítica | “Ray of Light” – Madonna

Na reta final dos anos 1990, Madonna andava extremamente “comportada”, dedicada a maternidade e envolvida em projetos diversos que tratavam de ensaios e observações para um de seus álbuns mais conceituais, Ray of Light, um sopro de luz na cultura pop que durante o período, era representada pela juventude e adolescência rebelde de Britney Spears e Christina Aguilera. Com afastamento musical dos temas trabalhados anteriormente, o sétimo álbum de Madonna foi recebido com louvor pela crítica e consumido vorazmente pelo público. As premiações musicais também ficaram atentas e concederam ao material as devidas honrarias.

Sem os estereótipos comuns ao que se produzia no terreno pop do período, tematicamente o álbum retrata a fase de conversão de Madonna aos rituais da Cabala. O “orientalismo” presente nas canções, tanto no quesito lírico quanto nos arranjos musicais, revela um trabalho mais maduro e coeso, repleto de introspecção. Em seu tecido musical, Ray of Light trouxe a junção de vários elementos musicais: música clássica, tecno, trip hop, longe music, soft rock, drum and bass, etc. Lançado em fevereiro de 1998, Ray of Light segue a linha pop + música eletrônica. Há bastante manipulação dos vocais, tendo em vista a tecnologia disponível na época, num trabalho que também estava mais coeso por conta das aulas de técnica vocal para a realização do musical Evita, de Alan Parker. Madonna abandonou o vibrato para o álbum que marcaria a sua transição para o novo milênio.

Nova era, nova Madonna. Para que o trabalho fosse bem sucedido ela fez uma ampla observação do cenário da música eletrônica para saber as possíveis parcerias que pretendia estabelecer. Assim, William Orbit, Marius de Vries e Patrick Leonard se juntaram para formação do time de produção do novo álbum. Em seus 66 minutos e 52 segundos (a edição padrão), Ray of Light teve os vocais de Nick Haris e Donna De Lory, bateria e percussão de Fergus Gerrand e arranjo de cordas de Craig Armstrong, o mesmo eficiente produtor musical da trilha de Moulin Rouge – Amor em Vermelho.

Ray of Light é o single que nomeia o álbum. Em entrevistas, Madonna afirmou que a canção era “um olhar místico no universo e quão somos pequenos”. Ela assinou a composição, em parceria com William Orbit, faixa que mescla elementos do trance, do eurodance e da musica tecno. Liricamente, trata da “liberdade”, um vocábulo/conceito comum com imensos significados. Acompanhada por assobios, bipes e sinos, Ray of Light é caracterizada por solos instrumentais longos, reminiscência do acid rock, tendo ainda em sua técnica um processo semelhante ao sensurround, processo sonoro utilizado pela Universal nos anos 1970 nas salas de cinema, tendo em vista dar maior intensidade ao áudio.

Frozen é uma das melhores faixas do conjunto. Assinada por Madonna e Patrick Leonard, a canção se inspirou no filme O Céu Que Nos Protege, de Bertolucci, e liricamente versa sobre um homem frio e sem emoções. Inicialmente acompanhada por um arranjo de coras acústicas clássicas, a faixa é guiada mais adiante por sintetizadores e técnica vocal incomum no trabalho de Madonna, numa espécie de referência aos cantos medievais. O tom de música ambiente cria a atmosfera e a paisagem sonora ideal, haja vista o conteúdo lírico.

Substitute for Love, assinada por Madonna, William Orbit, Rod McKuen, Anita Kerr e David Collins, a canção também é inspirada numa obra ficcional, mas desta vez, do campo da literatura: The Drowned World, de J. G. Ballard, publicado em 1962. Guiada por um ritmo lento típico do soft rock, a faixa é melódica e deixa qualquer rastro de agressividade para versar sobre as verdadeiras intenções das pessoas quando se é famoso. The Power of Good-Bye segue o clima melódico e calmo, numa reflexão sobre a perda e a saudade. Composta por Rick Nowels, a canção é guiada por primorosos violões e cordas liricamente trata do quão libertador é o término de uma relação mal sucedida.

Ray of Light ainda traz em seu pacote a espiritualidade de Swin; a estética despojada e os elementos do grunge em Candy Perfume Girl; os trechos do poema “What’s Fits?”, do poeta Max Blagg, em Sky Fits Heaven; a versão musicada da oração indiana Shanti/Ashtangi; a melancolia por observar o amante distante em To Have and Not To Hold; a homenagem e o olhar materno para a sua filha em Little Star; o ritmo acelerado e a batida mesclada entre dance/house de Nothing Really Matters; e uma reflexão sobre a meditação e a morte em Mer Girl. Para o desenvolvimento da equipe de design visual, o fotógrafo Mario Testino assumiu as imagens da concepção artística do álbum, trabalho repleto de frescor e vivacidade.

Renovada e pronta para uma fase ainda mais adulta, Madonna lançou Ray of Light num período concorrido para as mulheres na música pop, mas o resultado foi a calcificação de sua imagem no imaginário das empoderadas da indústria cultural. Aos 40 anos, bem sucedida e dona de uma carreira versátil, Madonna comprovou a sua destreza enquanto artista e o potencial do seu trabalho como uma cantora que flerta com as demais artes, em especial, o terreno do videoclipe. Para Larry Flick, da conceituada Billboard, “em Ray of Light, Madonna continua a ser uma figura vital para o público jovem terrivelmente inconstante”.

Trabalho considerado mais radical, “sem máscaras” e tão sincero quanto Like a Prayer, o álbum deu mais uma guinada na carreira da artista. Concordo com as críticas, apesar de não ser o tipo de som que me agrada enquanto consumidor e apreciador musical, no entanto, respeito a qualidade da pesquisa, o investimento em experimentação e as técnicas inovadoras para um período “mais do mesmo”. Salve Madonna!

Aumenta: Frozen.
Diminui:  Candy Perfume Girl.

Ray of Light
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 27 de fevereiro de 1998.
Gravadora: Warner Bros, Maverick.
Estilo: Pop e música eletrônica.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.