Crítica | RBG

Prometo que abordarei o documentário sobre Ruth Bader Ginsburg, mas peço paciência de vocês aqui nesse começo, pois um aspecto da vida pregressa da ministra da Suprema Corte americana que, já com mais de 80 anos, tornou-se uma celebridade pop, chamou-me atenção acima de tudo: sua civilidade. E não só dela.

Em determinado ponto da obra, as documentaristas Julie Cohen e Betsy West abordam, ainda que brevemente e em tom anedotário, a relação de Ginsberg com outro ministro da mesma Corte, Antonin Scalia, falecido em 2016. Em razão de minha profissão principal (que, surpresa, surpresa, não é a de crítico!), conhecia razoavelmente a disparidade de opiniões jurídicas entre os dois, com Ginsberg no espectro mais liberal (mas não a mais liberal da composição) e Scalia na outra ponta. O que desconhecia é que os dois eram muito amigos fora do tribunal, algo evidenciado no documentário, inclusive com comentários dos próprios. A palavra de ordem: respeito. E isso me deixou triste. Triste por perceber como hoje as coisas tornaram-se tão aguerridas, tão completamente opostas, tão intolerantes tanto de um lado, quanto de outro. Hoje, uma pessoa de viés de direita é fascista e outra de viés de esquerda é comunista. Não existe diálogo civilizado, não existe mais uma tentativa de se encetar uma conversa, algo que reputo culpa primordialmente do uso desenfreado das redes sociais, diagnóstico com que, tenho certeza, Umberto Eco compartilharia.

Ver pessoas tão radicalmente opostas no campo das ideias e tão próximas no campo pessoal é refrescante e me dá esperanças de que o mundo não é realmente esse negócio polarizado infantiloide que tenho visto por aí. E olha que tenho até sorte, pois meus companheiros de site, cujas visões, em linhas gerais, normalmente são bem diferentes das minhas, sabem e gostam de argumentar em tom absolutamente civilizado (mas sempre com as bem-vindas brincadeiras e alfinetas, lógico), com o mesmo acontecendo com a maioria dos comentaristas que visitam nossas críticas, pelo que nem tenho tanto a reclamar, já que não fico arrumando sarna para me coçar nas malfadadas redes sociais.

Mas eu prometi que voltaria ao documentário e faço isso a partir daqui.

O repentino e inusitado estrelato pop de Ruth Bader Ginsburg, que passou a ser conhecida como The Notorious R.B.G. depois que ganhou o apelido de uma internauta admiradora, suscitou uma febre sobre a ministra ainda em atividade da Suprema Corte americana (lá, o cargo é vitalício), no alto de seus 85 anos, com direito a camisetas, canecas, memes e todo o restante do tipo de tratamento que uma celebridade hollywoodiana ou da música tem, algo que, aliás, como fica evidente no documentário, é completamente o oposto da personalidade dela. O documentário, portanto, é uma decorrência natural do aumento da curiosidade dos americanos pela senhorinha corcunda absolutamente lúcida que ocupa o posto mais alto da hierarquia judicial do mundo civilizado e Cohen e West o estruturam cronologicamente, desde sua época de escola (ainda que, aqui, bem rapidamente), passando por seus estudos em Harvard e Columbia, sua militância como advogada, sua carreira como juíza, sua carreira como ministra e, finalmente, sua recente celebridade. Como linha mestra para a lógica narrativa e que funciona como um bem-vindo “enfeite”, digamos assim, as documentaristas usam excertos da entrevista de Ginsburg pelo Congresso dos EUA, depois de sua indicação para a cadeira na Suprema Corte por Bill Clinton.

E grande parte da projeção tenta, de maneira muito bem-sucedida, contextualizar RBG (vou usar a sigla doravante, por economia) como uma forte defensora dos direitos iguais entre os gêneros. Esta sempre foi e continua sendo sua bandeira, mas uma bandeira traduzida em ação e não em panfletagem, não em discursos inflamados, mas vazios, não em rotulagens bobalhonas seguidas de palavras de ordem sucedendo hashtags. De forma muito parecida com a advocacia brilhante de Thurgood Marshall, cuja cinebiografia vale ser conferida (leiam a crítica), entendemos como RBG, em um universo quase que integralmente de homens, conseguiu destacar-se nos estudos e, mesmo com destaque, não conseguiu emprego nos escritórios de advocacia de Nova York unicamente por ser mulher. Da mesma forma, aprendemos sobre a RBG absolutamente devota ao seu marido Martin D. Ginsburg, que conhecera em Harvard e com quem viveria por mais de 50 anos, com filho e netos. Entendemos muito claramente que, em uma bela transgressão do ditado que diz que “por trás de todo grande homem, há uma grande mulher”, no caso dela foi justamente o contrário e foi o apoio incondicional de Martin ao que ela sempre quis que abriu o espaço que ela precisava para tornar-se o que se tornou. E o documentário não tenta desvincular RBG de Martin. Muito pelo contrário, um está absolutamente conectado ao outro, como não poderia deixar de ser.

O que quero dizer com isso é que RBG foge completamente ao estereótipo da mulher feminista ativista. Não que o ativismo panfletário e hiperbólico não seja importante, mas o que RBG fez na vida – e seus primeiros casos que ela defendeu perante a Suprema Corte são abordados em detalhes, com entrevistas com seus clientes -, assim como o que Marshall fez em sua vida no que se refere ao direito dos afro-descendentes, não se consegue gritando, mas sim, passo-a-passo, vagarosamente escolhendo casos para construir uma tese, para desenvolver teorias e para, acima de tudo, mostrar um status quo que muita gente achava que não existia e que muitos ainda acham que não existem. É absolutamente fantástico ver a evolução jurisprudencial de algo que muitos podem achar óbvio, mas que, na verdade não é. E não achem que a questão era e é americana, pois ela se estende também a basicamente todos os países do mundo civilizado (o mundo não civilizado, aquele que oficialmente determina que a mulher é propriedade do homem, não dá nem para comentar sem fazer cara de nojo).

Mas não esperem uma visão equilibrada, mostrando os lados negativos de RBG. Eles até são mencionados, mas sem relevância e até com um tom de brincadeira. O documentário é uma celebração dessa grande personalidade e ele é todo estruturado dessa forma, doa a quem doer (e sério, se você ficar doído com esse documentário, talvez seja o caso de tomar uns remedinhos). O ritmo é célere, a história e muito interessante e as diretoras não deixam a peteca cair em momento algum, trazendo uma riqueza de entrevistados (sempre falando bem de RBG, claro), vídeos e fotografias de arquivo (notadamente de seu marido e de Scalia) e uma montagem ágil e reverente à imagem da ministra.

RBG – agora falo do documentário e não de Ginsburg – é indecentemente agradável e tocante, capaz até de arrancar umas lágrimas aqui e ali. Um filme que mostra muito claramente que, se achamos que ainda há um caminho muito longo para chegarmos a um mundo ideal (uma utopia, eu sei, mas sonhar ainda é de graça), podemos ter certeza que ele é consideravelmente menor agora do que antes do trabalho incansável de pessoas como Ruth Bader Ginsburg, ou melhor, como a notória Ruth Bader Ginsburg.

RBG (Idem, EUA – 2018)
Direção: Julie Cohen, Betsy West
Com: Ruth Bader Ginsburg, Jane C. Ginsburg, Martin D. Ginsburg, James Steven Ginsburg, Sharron Frontiero, Bill Clinton, Orrin Hatch, Lilly Ledbetter, Antonin Scalia
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.