Crítica | Real – A História Por Trás do Plano

estrelas 2

Há tempos o Brasil vive um clima político repleto de tensões partidárias. Qualquer narrativa que tenha como foco o grupo oposto deste sistema dual pode ser o início de discussões e polêmicas acirradas. Se fosse um filme sobre programas sociais como o projeto “Bolsa Família”, provavelmente os simpatizantes da “direita” iam cair matando. Se for uma narrativa que exalte a transição de figuras públicas como o midiático Sérgio Moro, provavelmente a “esquerda” promoveria protestos.

Real – O Plano por Trás da História está mais para o primeiro caso. Há a famosa e ultrapassada intenção da imparcialidade, algo praticamente impossível quando temos noção de linhas de pensamento como a Análise do Discurso. Há críticas aos personagens considerados heróis nacionais, há abordagens interessantes dos bastidores repletos de pessoas mais preocupados com suas imagens públicas, em detrimento da respiração econômica brasileira, mas no final das contas, se você for um espectador atento e reflexivo, perceberá que diante dos esforços há a balança pendendo para o “lado direito da coisa”.

Tal observação, por sua vez, não é o que define o filme como um grande equívoco narrativo. A trama se perde por outros motivos, sendo o partidarismo o menor dos males, haja vista que ao nos debruçarmos para a reflexão diante de um filme sobre os “heróis” criadores do Plano Real, é óbvio que a exaltação seria um dos ingredientes para a fermentação dramatúrgica. O problema, entretanto, é que a receita não sai como o esperado e o filme amarga momentos constrangedores e pouco expressivos, tendo em seu conteúdo poucas dinâmicas realmente interessantes.

Produzido pela Maristela Filmes, sob a direção de Rodrigo Bittencourt, tendo como base o roteiro de Mikael Faleiros de Albuquerque, o filme é uma obra que busca radiografar os bastidores de criação do plano econômico que ajudou a combater a inflação que assustava os brasileiros nos primeiros anos da década de 1990. Inspirado no livro 3.000 Dias no Bunker – Um Plano Cabeça e um País na Mão, de Guilherme Fiuza, o enredo destaca a importância do economista Gustavo Franco (Emilio Orciollo Netto) neste processo.

O filme começa em 1993 e tem como missão narrativa tornar um tema mais fechado e complexo, dramaturgicamente palatável para o público leigo, sem as fórmulas indecifráveis e nomes técnicos que geralmente surgem apenas como enrolação nos diálogos. O excerto ficcional de maior destaque é a entrevista que Franco se dispõe a fazer com a jornalista interpretada por Cassia Kiss, sempre ótima, mesmo que seu personagem apresente inconsistência, como é o caso desta cobertura fictícia na véspera dos depoimentos do economista na CPI do Banestado, em 2003, acontecimento que fragilizou a imagem do economista e causou furor no cenário político brasileiro da época.

Assim, o irritadiço Itamar Franco (Bemvindo Siqueira) havia assumido o posto que anteriormente pertenceu ao presidente Fernando Collor, afastado pelo impeachment após detonar com a economia brasileira. A já mencionada inflação no Brasil alcançou os temíveis 40% e o Brasil afundava em uma crise que começou a causar pânico social. Assim, diante do clima de instabilidade, o então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (Norival Rizzo) montou uma equipe de economistas, que, através de hipóteses e formulação de problemas típicos de uma aula de metodologia da pesquisa científica, elaborou o plano econômico que resgatou o Brasil do desastre absoluto.

Durante o desenrolar do filme, o plano é considerado cria de Gustavo Franco, economista que também era professor da PUC-Rio e, após ser convidado por Pedro Malan (Tatu Gabus Mendes) para encabeçar a equipe, escreveu o seu nome na história da política brasileira, mesmo que o nome tenha lá as suas rasuras, principalmente pela aversão do povo e de alguns políticos ao posicionamento arrogante e neoliberalista do “pai do Plano Real”.

No que tange aos aspectos da linguagem cinematográfica, Real – A História por Trás do Plano traz alguns simbolismos frágeis, tais como a constante presença de tabuleiros de xadrez e cenas que insistem em demonstrar pontos com chamas em alguns locais próximos ao Palácio do Planalto, como se quisesse nos gritar e direcionar: “olha, o clima lá dentro está em chamas”. É frágil? Sim, mas não chega a ser ofensivo, apenas óbvio demais. Já no que diz respeito aos enquadramentos, movimentos de câmera, o didatismo impera, mas em prol da boa qualidade técnica da narrativa.

As qualidades visuais do filme, entretanto, não podem ser comparadas ao roteiro esquemático. Os diálogos frágeis poderiam ser improvisados se o elenco fosse magistral, mas não é o que acontece. Parece que a produção estava muito interessada em aproximar os personagens reais dos atores que os interpretariam. O que ocorre é que em alguns momentos, a caricatura toma a maior parte do tempo, tornando os personagens reais mais inexpressivos do que eles geralmente já são, afinal, assistir a um filme onde Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco, Pedro Malan e Ruth Cardoso aparecem, mesmo que brevemente, requer uma dose extra de boa vontade por parte do espectador.

Nada contra as pessoas citadas, mas a postura idealista e heroica não combina com tais personagens, pessoas que parecem mais interessadas em suas conquistas, bem como deixar seus respectivos legados intocáveis e sem a sujeira típica que escorre pelo ambiente da politicagem. Mesmo que tenham dado contribuições momentâneas, todos os envolvidos nos bastidores do plano econômico abordado pela via cinematográfica parecem mais interessados na manutenção dos seus cargos, no equilíbrio da imagem tanto de seus partidos, quanto das suas representações sociais.

De volta ao processo de construção de seu personagem, Emilio Orciollo Netto faz exatamente o que o roteiro pede. Histriônico na maioria dos momentos, ele está sempre a esbravejar ou acuar alguém que vá de encontro aos seus ideais neoliberais. Ambicioso, arrogante e movido exclusivamente pelo sucesso. A sua vida pessoal, por sua vez, caminha muito mal, pois devido ao regime excessivo de estresse no trabalho, a sua esposa (Paolla Oliveira) se transforma num mero objeto doméstico para suprir as suas necessidades mais intimas.

Para arrematar o ponto de vista que demonstra a obstinação tucana no filme, observe nas cenas finais, uma citação indireta ao juiz Sérgio Moro, personagem, que para a época em questão, não tinha a relevância que possui hoje em veículos midiáticos como a Veja, o Jornal Nacional e outros meios de comunicação criticados pela falta de compromisso ético com o jornalismo brasileiro. É um momento instantâneo que quase escapole, mas não pode ficar de fora de uma análise geral, afinal, o cineasta não vai querer dizer que a citação foi aleatória, não é verdade?

E se você não se recorda ao menos vagamente de alguns momentos históricos importantes das últimas décadas, pode ficar sem compreender algumas passagens. Em determinado momento do filme Gustavo Franco encontra-se absorvido por uma crise envolvendo os Tigres Asiáticos, ou seja, as economias do sudeste da Ásia (Hong Kong, Coreia do Norte, Singapura e Taiwan), conhecidas pelo agressivo crescimento e rápida industrialização entre as décadas de 1960 e 1990. Na abertura do filme, enquanto conversa (disputa de egos) com um amigo, defende legados como o de Margareth Tatcher, a Dama de Ferro britânica, que ao reverter o declínio econômico nacional, não abriu mão de estabelecer uma assustadora recessão e privatizar empresas estatais.

Ainda nesta conversa preambular, Franco cita a Perestroika, conjunto de ações políticas introduzidas na União Soviética por Mikhail Gorbachev em 1986. Com o ideal de reestruturação econômica, tendo em mira reduzir a quantidade de dinheiro gasto em setores como a defesa, por exemplo, a ação fez com que a ocupação no Afeganistão, algo custoso na época, fosse abandonada, bem como a negociação com os Estados Unidos para questões diplomáticas e a não interferência em outros países comunistas, estratégia conhecida como a Doutrina Sinatra.

Mesmo tendo permitido a liberdade no que diz respeito ao comércio exterior, a Perestroika é avaliada por muitos especialistas, atualmente, como um projeto que falhou por uma lista imensa de motivos, entre elas, o desfoco do objetivo principal, além da falta de habilidade do líder para organizar o processo de privatização de empresas e a indisposição no que tange aos elementos da necessária reforma agrícola na União Soviética.

O leitor pode estar se perguntando o que este giro global tem a ver com a narrativa fílmica ou com a análise de seu conteúdo. Tais fatos e elementos históricos estão presentes através de alguns diálogos, além de representar ideias que coadunam com o posicionamento político de Gustavo Franco, o protagonista responsável por dar conta do plano econômico abordado pelo filme. Sendo assim, compreender, nem que seja brevemente, tais citações é algo importante para os interessados por uma observação mais analítica da obra em questão.

Além destas citações, há uma referência clássica ao âmbito dos estudos econômicos: a socialização das perdas, termo cunhado no “canônico” livro Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Criada pelo governo da República Velha, por volta de 1906, a abordagem política apontava que toda a população precisava pagar pelos prejuízos oriundos pela economia cafeeira. O termo transitou pelo século XX e chegou aos meandros da contemporaneidade, ainda sendo perpetuado, mesmo sem a transparência dos seus primeiros momentos, mas com configuração semelhante: o massacrante e abusivo efeito do sistema tributário e fiscal sob as classes sociais.

Fica a dica: o filme traz algumas cenas da memória televisiva do Brasil, é organizado cronologicamente, trata de um assunto que faz parte da história recente do nosso país, entretanto, deve ser utilizado com cautela por aqueles que desconhecem o período em questão.  Agora os motivos: qualquer descuido pode fazer com que o espectador construa, de forma errônea, o percurso de um momento histórico que pode ser resgatado com maior facilidade e transparência por documentários, artigos acadêmicos e trechos de reportagens disponíveis para acesso em bibliotecas e plataformas virtuais.

A sugestão, por sinal, serve para qualquer representação fictícia de fatos históricos: ao assistir, você estará diante de uma versão de tantas, baseada em determinados elementos escolhidos pela equipe de produção para ser apresentado. Por isso, não deixe de assistir aos filmes, dialogar com a crítica e tecer uma rede mais ampla de reflexões, pois o filme é apenas o começo de uma cauda longa que envolve os realizadores, os espectadores e os críticos de cinema.

Real – O Plano Por Trás da História — Brasil, 2017
Direção: Roberto Bittencourt
Roteiro: Mikael Faleiros de Albuquerque, Guilherme Fiuza
Elenco: Anamaria Barreto, Bemvindo Sequeira, Bia Arantes, Carlos Meceni, Emílio Orciollo Neto, Fernando Eiras, Giulio Lopes, Guilherme Magon, Guilherme Weber, Juliano Cazarré, Klebber Toledo, Mariana Lima, Norival Rizzo, Paolla Oliveira, Tato Gabus Mendes, Thiago Justino.
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.