Crítica | “Rebel Heart” – Madonna

estrelas 3

Este álbum de Madonna já enfrentou os seus desafios logo no processo de finalização da concepção visual. As principais faixas “vazaram” e o lançamento precisou ser adiantado. A situação não mudou em nada a qualidade do álbum, 13ª produção de estúdio da dita Rainha do Pop, pelo contrário, “causou” na mídia e nas redes sociais e ajudou a promover ainda mais as peças que o acompanhariam: os já esperados (e sempre audaciosos) videoclipes e performances nas principais premiações da indústria fonográfica.

Rebel Heart, faixa tema do álbum, faz uma retrospectiva da carreira de Madonna, apresentando um ícone cultural ainda muito relevante e forte, mesmo depois de mais de 30 anos de carreira. Com aproximadamente 97 minutos de duração, possui como estilo musical o pop, o dance e o EDM (Eletronic Dance Music), além da sequência sincronizada entre as faixas.

Lançado pela Interscope Records, traz a contagiante balada Living for love como primeiro single, acompanhado do videoclipe e das performances no Grammy e no Brit Awards. Inicialmente pensado para o Dia dos namorados, a faixa precisou ser liberada e comercializada para evitar prejuízos diante do dito vazamento no final do ano passado. A canção nos remete aos excelentes trabalhos sobre relacionamentos e força da mulher, como Express Yourself e Take a Bow, inclusive nos recursos visuais da divulgação e na expressividade poética da faixa.

Como convidados, Madonna traz Alicia Keys ao piano e a expressiva voz do cantor MNEK. Com um trabalho vocal confiante e um eixo temático envolvendo as questões comuns ao trabalho da artista, como religião, política e liberdade de expressão, o álbum foi bem recebido pela crítica especializada estadunidense, e traz como destaques as canções Devil Pray, uma balada sobre drogas, Ghosttown, uma canção sobre a perda da esperança da civilização contemporânea, repleta de destruição, a faixa tema Rebel Heart, a melhor do conjunto, além da divertida Illuminati, sátira que cita magia negra, a Fênix e o Iluminismo. Em Joana of Arc, Madonna aproxima-se da metáfora e propõe uma guerra imaginada, assumindo, inclusive, que os tempos de projeção estão cada vez mais difíceis. Como produtos descartáveis, destaco Unapologetic Bitch e Bitch, I am Madonna, canções pueris e destoantes do conjunto.

Cabe observar que diferente de cantores e bandas antigas, que vivem eternamente de canções do passado, Madonna busca reinventar-se e traz sempre algo novo. MDNA, álbum anterior, pode não ter sido um primor, mas trouxe faixas muito interessantes, como I´m a Sinner e Masterpiece. Neste novo álbum, Madonna nos remete aos anos 1980 e 1990, mas deixa o ouvinte bem situado no contexto histórico, principalmente pela abordagem contemporânea de algumas canções. Para a produção, aliou-se ao moderno Diplo, a Toby Gard e até mesmo a Kanye West, além disso, assinou todas as faixas do álbum.

Importante ressaltar que a ética na produção desse texto também foi um passo fundamental para a reflexão que nosso campo da crítica de arte necessita. Sem afetações, considero o álbum entre o mediano e o bom. Meu livro Madonna Múltipla – cinefilia e videoclipe, lançado este ano, com relançamento marcado para hoje, por sinal, apresenta a multiplicidade da cantora, as referências ao cinema e as demais artes em seus videoclipes e canções, bem como os seus shows impactantes. Mas não é por isso ou por ser um admirador do trabalho da artista que os meus ouvidos estão vedados para o bom senso: Madonna ainda importa, mostra-se como uma artista competente ao gerir uma carreira longa dentro de uma cultura considerada como prosaica e banal (o discurso pop), mas a carreira já apresenta sinais de cansaço, ou da falta de possibilidade de apresentar o tão desejado “novo” em um mundo entregue à virtualidade, ao excesso de informação e a democratização dos meios de comunicação. Mas a cantora não precisa se preocupar com a posteridade. A dimensão do seu trabalho é ampla e múltipla, muitas artistas contemporâneas entoam os seus hinos feministas sabendo que alguém já o fez no passado e ainda o faz no presente, com muito mais garra e determinação.

Um álbum interessante, mas longe de ser um trabalho memorável. Vamos esperar pela turnê, porque vender álbum no atual painel de embates entre a indústria fonográfica e a internet tem se tornado uma atividade constante, como se diz no popular, “para os fortes”. Em tempos de Britney Spears, Jennifer Lopez, dentre outros produtos genéricos, Madonna pode ser considerada como sublime diante de tanta banalidade.

Rebel Heart
Artista: Madonna
País: Estados Unidos
Lançamento: 6 de março de 2015
Gravadora: Boy Toy, Live Nation, Interscope
Estilo: Pop

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.