Crítica | Rebelião em Alto Mar (1984)

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estrelas 3,5

Considerada a obra que mais fielmente retrata o motim no navio inglês HMS Bounty, que explora a rebelião de 1789 liderada por Fletcher Christian (aqui, interpretado por Mel Gibson) contra seu amigo e tirano capitão William Bligh (excelente interpretação de Anthony Hopkins no filme), Rebelião em Alto Mar (1984) não fica apenas à sombra dos eventos históricos que aborda. Ele também tem um lado épico em sua produção.

Antes de tudo, é preciso destacar que este filme começou como um projeto colossal do diretor David Lean, que entre 1977 e 1980 esteve envolvido na produção, ao lado de seu colaborador de longa data, Robert Bolt, no roteiro. Nos planos originais, deveria ser um longa em duas partes. A primeira, chamada The Lawbreakers, seguiria até a saída do HMS Bounty de Taiti (para onde fora em missão oficial, em busca de fruta-pão) mais o subsequente motim; e a segunda, The Long Arm,  acompanhava a jornada dos motineiros, o salvamento dos deixados à deriva e o envio do HMS Pandora para a captura dos rebeldes, em 1790, provavelmente seguindo até o seu trágico final, em 1791.

Uma série de infortúnios de produção, porém, afastou cada vez mais o projeto das mãos de Lean, que embarcou nesse meio tempo na direção daquele que viria a ser o seu último longa-metragem, Passagem para a Índia (1984). O cineasta até considerou que a obra fosse levada para a televisão, em uma minissérie em sete partes, todavia, os muitos cortes no orçamento, a convalescença e afastamento indeterminado do roteirista Robert Bolt, a “pouca acuidade histórica na construção do navio” (segundo o diretor), além da escolha do elenco que o produtor Dino De Laurentiis, já em fase avançada do projeto, empregou, fizeram-no abandonar o empreendimento. Laurentiis, que não queria perder o dinheiro já colocado na produção, aceitou a sugestão de Mel Gibson para que seu amigo Roger Donaldson assumisse o leme da fita.

Sob comando de Donaldson, Rebelião em Alto Mar perdeu a carga épica que teria nas mãos de Lean e ganhou bastante do lado dramático e histórico, aproximando-se aqui e ali da versão desses eventos filmada em 1935, O Grande Motim. Há um excelente aproveitamento das relações pessoais nesta obra, inclusive ampliando a dualidade do capitão William Bligh, que ora parece ser “inocente” na história; e ora parece merecer as coisas ruins que lhe viriam acontecer, dada a sua tirania na condução da tripulação e as exigências cada vez mais questionáveis, seguidas de punições extremas. Mas o público não deve esperar um tratamento fácil para nenhum dos lados, porque não há. No melhor estilo de “todos erraram”, o texto mostra como pequenas e grandes atitudes se juntam para criar uma situação maior do que qualquer um dos envolvidos pensariam, levando todos para um caminho sem volta.

O que atrapalha um pouco nesse trajeto são as interrupções para o julgamento de Bligh, respondendo pela “perda” de seu navio à Corte Naval Britânica, destacando-se aí a delicada e polêmica travessia do Cabo Horn, ponto geográfico no extremo sul da América do Sul que se configura uma verdadeira prova de fogo para quem quer fazer circunavegação ou que realmente precisa atravessar o lugar. Infelizmente, as tomadas da travessia não são exatamente interessantes como deveriam, apesar de darem uma noção visual do caos. Donaldson não consegue criar uma boa sequência de planos médios e gerais, por ser um diretor mais situacional, e este é o momento da obra em que somos totalmente guiados pela excelente trilha sonora de Vangelis, que marca não só o caminho desta sequência, mas de boa parte do filme, desde a sua introdução sombria até a última peça musical, cheia de desalento.

Mel Gibson e Anthony Hopkins são os grandes destaques, mas Daniel Day-Lewis também se faz notar aqui. Este foi o seu primeiro papel verdadeiramente importante no cinema e a solidez com que ele interpreta o seu personagem é um vislumbre do que viria nos anos seguintes. O elenco ainda conta com Laurence Olivier e Liam Neeson em papeis menores, mas muito bem interpretados, padrão que vemos por praticamente todo o elenco de apoio.

Os melhores momentos da direção de fotografia da película estão nas cenas do Taiti, embora o diretor perca a oportunidade de explorar o local a favor da obra, talvez dando mais ingredientes para a justificativa da vontade dos homens em permanecerem ali; preferindo centrar-se na costa e em locais fechados. Na montagem, a passagem dos dias em contraste, de um lado, com com o capitão em seu quarto; de outro, com os homens na ilha, não foi a melhor escolha, marcando outra oportunidade perdida, mas também não podemos dizer que estraga o ritmo daquela parte da obra.

Um pouco diferente em estrutura dos filmes com esta temática, Rebelião em Alto Mar mostra um momento histórico sob uma perspectiva parcialmente revisionista, o que pode incomodar alguns espectadores, mas não tira do filme o fato de ser um bom entretenimento.

Rebelião em Alto Mar (The Bounty) — Reino Unido, EUA, Nova Zelândia, 1984
Direção: Roger Donaldson
Roteiro: Robert Bolt (baseado no livro de Richard Hough)
Elenco: Mel Gibson, Anthony Hopkins, Laurence Olivier, Edward Fox, Daniel Day-Lewis, Bernard Hill, Phil Davis, Liam Neeson, Wi Kuki Kaa, Tevaite Vernette, Philip Martin Brown, Simon Chandler, Malcolm Terris, Simon Adams, John Sessions, Andrew Wilde, Neil Morrissey, Richard Graham, Dexter Fletcher, Pete Lee-Wilson
Duração: 132 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.