Crítica | REC

estrelas 3,5

Como o audiovisual pode emocionar o espectador tanto quanto a literatura pode emocionar o leitor? No que diz respeito a adaptações, essa com certeza é uma questão frequente e, talvez, ainda mais quando falamos no gênero terror.

Enquanto Steven Spielberg pode ser considerado um mestre da emoção pelo audiovisual – inclusive no terror – e Stephen King representa, no mínimo, um dos maiores desafios literários à predominante superficialidade do cinema comercial de horror, certos filmes se destacam mais, outros menos em fugir da mesmice de sustos a torto e à direita, regados a estrondos e a aparições de chofre na tela – assim não assustando ninguém de modo realmente marcante -, da requentada receita de personagens aleatórios, com os quais não nos identificamos minimamente, nem depois de suas mortes.

No caso do espanhol REC – que, adivinhe, não deixou de ganhar sua versão americana -, a balança, felizmente, pende para o mais. Filmado no estilo found footage (tal qual A Bruxa de Blair e tantos outros, mais recentes), como um falso documentário, o longa começa com a repórter Ángela Vidal (a carismática Manuela Velasco) e seu câmera, Pablo (Pablo Rosso) filmando um episódio para uma série intitulada Enquanto Você Dorme. O episódio da vez é focado na rotina de um corpo de bombeiros. A narrativa, como é de se esperar, começa tranquila, com Ángela se inteirando do cotidiano dos profissionais, conversando com eles, o que também nos permite uma primeira impressão acerca dos personagens centrais.

Logo, porém, o alarme toca durante a noite e os bombeiros são chamados para um prédio, no qual, ficam sabendo de antemão, houve certo incidente num dos apartamentos. Lá chegando, acompanhados de Ángela e seu câmera, os bombeiros descobrem vários moradores no saguão e alguns policiais. Os condôminos explicam que resolveram descer por conta de gritos horríveis num dos apartamentos, no qual, segundo eles, vive apenas uma senhora muito estranha. Lá vão bombeiros, policiais e nossos protagonistas – os últimos sob familiar protesto – investigar o apartamento. É aí que algo inesperado pela comitiva acontece, só para que logo depois o grupo se descubra preso no prédio, com os demais residentes, e daí por diante o caos é crescente.

Embora o filme sofra uma ou outra queda de ritmo, apesar de possuir menos de uma hora e meia de duração, e mesmo com a ameaça revelando-se pouco inventiva em certo ponto da trama, a produção é muito eficiente em imergir o expectador no caótico ambiente condominal. Não só o bom trabalho do elenco, mas também o bom roteiro e o ótimo trabalho técnico, na edição, captação e mixagem sonora, garantem grandes sequências de real angústia, principalmente, claro, nos momentos finais. Dada a competência com que os diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza evocam verossimilhança para o que se passa pelos olhos e ouvidos da câmera, é fácil nos sentirmos, de fato, aflitos com o destino dos personagens, particularmente, é claro, com a dupla de documentaristas.

Como boa história de terror, a esperança de um final feliz para os aprisionados é continuamente reduzida sob um viés psicológico, não só pela ameaça de dentro, mas pela maior preocupação de quem está lá fora em garantir a própria segurança. Mesmo quando, em meio ao grupo de confinados, quase tudo o que se ouve são xingamentos, acusações e até xenofobia, a salvação contra bestas teoricamente mais perigosas parece enfraquecer constantemente. A maior esperança, talvez, resida mais em que o mundo saiba da verdade, por meio de uma câmera, de olhos e ouvidos eletrônicos, do que na própria vida.

REC, portanto, é mais um exemplo satisfatório de como mesmo o audiovisual não tem de ser tão explícito quanto alguns parecem crer, inclusive no que se refere ao gênero terror. Na linha do que diria Pierre Bourdieu, ocultar, ao menos em parte, também é mostrar.

REC (Idem – Espanha, 2007)
Direção: Jaume Balagueró, Paco Plaza
Roteiro: Jaume Balagueró, Luiso Berdejo, Paco Plaza
Elenco: Manuela Velasco, Ferran Terraza, Jorge-Yamam Serrano, Pablo Rosso, David Vert, Vicente Gil, Martha Carbonell, Carlos Vicente, María Teresa Ortega, Manuel Bronchud
Duração: 78 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.