Crítica | RED: Aposentados e Perigosos

Pouco mais de um mês após Os Mercenários levar inúmeros astros de ação juntos para as telonas, RED: Aposentados e Perigosos trouxe uma similar premissa, essa, contudo, baseada nos quadrinhos de mesmo nome, de Warren Ellis e Cully Hammer. A diferença é que, de filmes do gênero, apenas Bruce Willis é escalado, atuando junto de indivíduos de renome da indústria, como Morgan Freeman e John Malkovich, fazendo desse uma obra sobre assassinos na terceira idade (ou bem próximos dela). A grande atratividade é óbvia, mas, infelizmente, não caminha junto da qualidade do filme.

A trama nos apresenta Frank Moses (Willis), um agente aposentado da CIA, que mantém flertes constantes por telefone com uma desconhecida, Sarah (Mary-Louise Parker). Quando a casa de Moses é invadida por um grupo de agentes/ soldados tentando matá-lo, ele foge e logo vai atrás da mulher com quem manteve contato, acreditando que ela também corre perigo. Juntos eles vão atrás dos antigos parceiros de Frank, para que possam descobrir quem está por trás dessa tentativa de assassinato e, claro, o porquê de estarem atrás deles. No processo acabam descobrindo que esse problema vai muito além de Moses e Sarah.

Chega a ser engraçado como o roteiro Jon e Erich Hoeber, apesar da simplicidade da trama, acaba se perdendo em detalhes, tentando criar uma história complexa e confusa, que falha em instigar o espectador, deixando-o confuso, ao invés de imerso na narrativa. O porquê de Frank estar sendo perseguido permanece um mistério durante praticamente toda a obra, mas, por muito tempo, sentimos como se o texto tivesse simplesmente esquecido ou ignorado tal fato, o que torna toda essa missão do já aposentado agente extremamente artificial. Não existe a menor motivação para ele fazer o que faz, além, é claro, de sobreviver – a trama poderia, portanto, facilmente seguir pelo caminho de um road movie com os personagens centrais fugindo o tempo todo.

Nenhuma artificialidade, no entanto, supera a de Sarah, que após ser raptada, drogada e quase morta, continua ao lado de Frank como se nada tivesse acontecido – de fato, ela parece estar gostando de toda essa experiência, gerando sérias dúvidas sobre sua sanidade, por mais que Mary-Louise Parker desempenhe seu papel na medida certa. Claro que a intenção é criar doses de comédia do absurdo, mas, para isso acontecer devidamente, seria necessário um acompanhamento do restante do humor presente no roteiro, algo que, visivelmente, não acontece. De fato, a obra segue mais pelo humor negro, ironizando as cenas de violência, as quais se configuram como o maior atrativo do filme, conseguindo, de fato, tirar algumas risadas do espectador.

Por outro lado, essas mesmas sequências penam nas mãos do diretor Robert Schwentke, que definitivamente não sabe dirigir cenas de luta, apenas de tiroteio com um número pequeno de pessoas. Como de costume no gênero, temos os sempre irritantes planos curtíssimos e muito movimentados, a tal ponto que, muitas vezes, não entendemos absolutamente nada do que está acontecendo. Uma dessas, talvez a pior, aparece logo nos minutos iniciais, quando a casa de Frank é invadida e, de uma hora para a outra, ele finaliza os inimigos, como em um passe de mágica. Sim, Bruce Willis já não está na flor da idade, mas nada que uma boa coreografia e um diretor mais habilidoso não conseguissem contornar.

A montagem também não faz maravilhas para o filme, especialmente quando transitamos de uma cidade para a outra e cartões postais do respectivo local aparecem no meio da tela. O recurso é totalmente exagerado, criando nítidas rupturas na narrativa, interferindo diretamente em nossa imersão. Trata-se de algo bastante pontual, mas que muito incomoda, deixando-nos até com certa tristeza, por ser algo que facilmente poderia ser removido da obra. Notavelmente, a inclusão desse recurso visa explicitar onde cada personagem está (e há muitas viagens de um canto dos EUA para o outro no filme), tratando o espectador como burro, já que o próximo destino sempre se faz presente nos diálogos, sem soar expositivo demais.

Mas nem tudo são trevas nessa adaptação dos quadrinhos, toda a relação entre o protagonista e seus velhos amigos é capaz de nos divertir do início ao fim, fazendo com que os enxerguemos, de fato, como velhos companheiros reunidos. É preciso ressaltar a perfeita escolha do elenco, que traz nomes de peso em papéis inusitados – afinal, ver Helen Mirren ou Morgan Freeman como assassinos não é algo que testemunhamos todos os dias. Juntamente do já citado bom-humor das sequências de ação, são tais elementos que garantem nosso engajamento com a obra, surpreendentemente sobressaindo aos aspectos negativos, nos deixando com uma percepção, em geral, positiva do longa-metragem como um todo.

No fim, RED: Aposentados e Perigosos funciona como um bom entretenimento, garantindo boas risadas, mesmo que às custas de algumas boas levantadas de sobrancelha, em razão dos muitos deslizes cometidos, tanto no roteiro, quanto na direção e montagem. Certamente os nomes presentes no elenco pesam muito nesse longa, que não funcionaria sem alguns dos experientes atores presentes nele. Pode não ser a melhor adaptação de quadrinhos, mas, ao menos, é uma capaz de nos manter engajados até o fim.

RED: Aposentados e Perigosos (RED) — EUA, 2010
Direção:
 Robert Schwentke
Roteiro: Jon Hoeber, Erich Hoeber
Elenco: Bruce Willis, Mary-Louise Parker, Heidi von Palleske, Karl Urban,  Chris Owens, Rebecca Pidgeon, Morgan Freeman, Jaqueline Fleming, John Malkovich, Brian Cox, Helen Mirren, Richard Dreyfuss
Duração: 111 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.