Crítica | Reencontrando a Felicidade

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Reencontrando a Felicidade é um filme que discute com leveza e sem altas doses de melodrama, um tema extremamente delicado: o luto pela perda de um filho e os desdobramentos do acontecimento na vida de um casal e de outras pessoas que circundam essa relação. Ao longo dos 91 minutos, a narrativa flerta com a incapacidade dos protagonistas em saber lidar com a perda da criança, o que culmina nas lacunas sem preenchimento da vida atual. Eles não conversam, não interagem socialmente e não se entregam às intimidades do quarto desde o fatídico acontecimento.

Dirigido por John Cameron Mitchell, cineasta que consegue dosar a dor na tela, responsável por injetar algumas doses de humor em determinadas cenas, o drama foi realizado com base no texto da peça Rabbit Hole, de David Lindsay-Abaire, dramaturgo que também assinou o roteiro para cinema, Reencontrando a Felicidade trata de uma perda sem volta. Diferente do desaparecimento temporário de um filho, vítima de um sequestro, como visto em Nas Profundezas do Mar Sem Fim, também sobre um casal que precisa recolher os fragmentos do casamento após o sumiço de um dos filhos, na trajetória de Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), a tragédia não tem mais solução, isto é, ou eles aceitam a situação e seguem adiante ou vão viver num circulo vicioso de culpa e ressentimento.

O ponto de partida para o filme evita didatismo. A história começa com a morte do filho já estabelecida, sem aquelas explicações rocambolescas para plateias que precisam de tudo pormenorizado e o mínimo de reflexão/intuição. Sabemos, por meio dos diálogos que nunca são excessivos ou artificiais, que certo dia, o portão da frente da casa ficou aberto e o menino de quatro anos, após um pequeno descuido dos pais, saiu correndo atrás do cachorro da família e morreu atropelado.

Diante da situação exposta, o casal faz o que pode para tentar se reerguer. Depois de alguma insistência, Becca aceita o convite para um grupo de apoio aos pais que perderam filhos. Incrédula e distante, ela observa cada relato e gradativamente, a sua sensação de desconforto cresce a ponto de ser indelicada com uma das mães durante o seu relato. Ao utilizar a religião e a fé para justificar a perda da filha, a sofrida mãe diz que “Deus precisava de mais um anjo e levou a minha filhinha”. Becca, irritada, diz: “por que Deus não fez outro anjo, ao invés de levar a sua filha, afinal, ele é Deus não é?”. Boquiabertos, os presentes acham forte a fala, mas também não condenam o comportamento de Becca que pede licença e sai da sessão ciente de que aquilo não vai resolver em nada os problemas da aceitação do luto e da reconstrução da vida.

Há ainda os conflitos de Becca com a sua mãe e a irmã. Enquanto Howie encontra em Gaby (Sandra Oh) uma pessoa que lhe entende e fornece a atenção que gostaria de ter em casa, Becca é uma metralhadora cheia de mágoas, mas que evolui brilhantemente ao passo que o filme avança. É possível perceber sutilmente seu desconforto com a gravidez de Izzy (Tammy Blanchard), sua irmã mais nova, moça sem projetos de vida, alguém que aparentemente “não merecia ser mãe”. A dor também se encaixa nesses instantes, basta observar o olhar de Becca, as suas atitudes, controladas o tempo inteiro. Com a mãe o problema é ainda maior, pois Becca não aceita que Nat (Diane Wiest) compare a morte de seu irmão de 30 anos com a tragédia do atropelamento do seu filho. No entanto, a mãe, ao lhe aconselhar, observa: “não importa a circunstância, eu sou mãe, a dor é a mesma, perdemos um filho”.

Enquanto Howie fica preso aos vídeos do filho gravados no celular, a postura de Becca, em muitos momentos, nos remete ao que J. W. Worden analisa em Terapia do Luto: Um Manual Para o Profissional de Saúde Mental. Conforme a leitura avança, o leitor observa que Worden traça quatro passos básicos necessários para pessoas que estão na situação como a do casal ficcional. É preciso aceitar a realidade, experimentar a dor, buscar se adaptar ao mundo com a ausência do falecido e reposicionar o ente querido/perdido e olhar para o futuro. Becca, após muitas situações de dor e desconforto, busca a mudança. Uma delas é oxigenar a relação com o garoto responsável pelo atropelamento do seu filho, um encontro inusitado que acaba se desenvolvendo de forma inesperada. Ela sai, vai ao antigo ambiente de trabalho, busca reconexões, dentre outras posturas que refletem a necessidade de superação.

Narrado por uma câmera que muitas vezes observa discretamente os diálogos dos personagens, Reencontrando a Felicidade traz uma direção de fotografia equilibrada e leve. Assinada por Frank G. DeMarco, os enquadramentos são como pinturas em tons suaves, isto é, molduras ajustadas para a necessidade dramática da narrativa. O casal sofre e quer mudar, mas convivem com a “memorabília” que os remete constantemente ao falecido filho. O design de produção de Kalina Ivanov é eficiente nesse aspecto, ao contar com a cenografia de Diana Salzburg e a direção de arte de Ola Maslik: as paredes da casa, os brinquedos espalhados, as cores no quarto da criança, dentre outros elementos visuais, reforçam a todo instante a “presença” do filho. Destaque também para a condução musical de Anton Sanko, sem excessos e acordes interessados em extrair lágrimas facilmente do espectador.

Lançado em 2010, Reencontrando a Felicidade é um drama carregado de emoções fortes e ganha importância ao evitar mergulhar no melodrama e estragar as sutilezas do enredo. É uma edificante história de reconstrução de vidas sem soluções fáceis ou esquemáticas, pois John Cameron Mitchell e David Lindsay-Abaire, ao contrário do que se pode esperar de um filme do tipo, não propõem questões fechadas, ao contrário, deixam os conflitos inconclusos, o que torna a narrativa ainda mais reflexiva e viva após o seu encerramento. Destaque para a cena de Becca com a sua mãe no porão. A filha questiona se “aquilo” vai doer para sempre e a mãe diz que “nunca desaparece”, mas “se transforma em algo diferente”. Assim, o diálogo entre ambas se desenvolve, catártico, revelador e emocionante.

Reencontrando a Felicidade — (Rabbit Hole) Estados Unidos, 2010.
Direção: John Cameron Mitchell
Roteiro: David Lindsay-Abaire
Elenco: Aaron Eckhart, Dianne Wiest, Giancarlo Esposito, Jon Tenney, Julie Lauren, Mike Doyle, Miles Teller, Nicole Kidman, Patricia Kalember, Sandra Oh, Tammy Blanchard, Ursula Parker
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.