Crítica | Refém da Paixão

estrelas 3

O canadense Jason Reitman conseguiu um bom saldo em sua carreira nesses 16 anos em que dirige filmes (se contarmos desde o seu primeiro curta, Operation, de 1998). Diretor de referências pop bastante marcantes e tramas que facilmente conquistam o público, Reitman marcou seu nome na lista de cinéfilos pelo mundo afora a partir de seu longa de estreia, Obrigado Por Fumar,  obra seguida por dois filmes igualmente bons: Juno e Amor Sem Escalas (é melhor esquecermos Jovens Adultos e pararmos por aqui mesmo).

O diretor chega agora com Refém da Paixão, um drama com plano de fundo familiar bastante marcante e que certamente irá tocar uma boa parte dos espectadores. A história foi adaptada para as telas pelo próprio Reitman, do romance Fim de Verão, escrito por Joyce Maynard.

O desajuste pessoal e de relacionamentos é o background do filme, que transita facilmente por elementos líricos (não poéticos, como muita gente anda dizendo por aí – para quem tem dúvidas sobre como o termo pode ser adaptado ao cinema, leia o nosso artigo O Cinema Poético), onde um flashback relativamente eficiente nos conta a história de um foragido da polícia (Frank), interpretado por um Josh Brolin com cara de mau e que segura bem as pontas do personagem do começo ao fim do longa.

Por se tratar de um drama de encontro e desencontro, muita coisa acaba ficando entregue ao subjetivo do espectador, ou seja, podemos dizer que Jason Reitman faz uso correto dos elementos básicos do gênero e acrescenta doses homeopáticas de suspense e até de um ambiente semelhante ao horror – pautado sempre por silêncios e uma trilha sonora de traços momentaneamente minimalistas -, mas o caráter geral e final disso vai encontrar cada um de forma diferente, o que de certa forma influencia a parte citada antes.

Como o fracasso e a solidão são pontos agudos na vida de Adele (Kate Winslet em sofredora mas muito boa atuação) e Henry (Gattlin Griffith, um pouco desconsertado no início mas firme no final), não é difícil entendermos o impacto que a chegada de Frank causa nos dois. Henry está crescendo, descobrindo a sexualidade e lutando contra seus próprios demônios. Adele é uma mulher doente pela perda do amor.

Poderíamos escrever páginas e páginas falando sobre a razão psicológica disso, mas percebemos que o roteiro não tira de Adele a força necessária para a sobrevivência ou para defender o filho. Por mais que somatize e esteja deprimida por um longo processo de desgastes familiares e pessoais (os abortos, a consequente esterilidade e a separação do marido), ela ainda encontra motivos para lutar, à sua forma, por Henry – “eu sou mais forte do que aparento“, diz ela – e esperar durante anos por um amor que lhe foi privado.

Aliás, esse amor aparece no filme como um ponto cego, um sentimento que parece insistir em não aparecer para ninguém que aparece em cena – com exceção do imediato impacto de calor humano e consequente sentimento que Frank imprime em Henry e Adele.

O já comentado flashback é um ponto paradoxal na película, porque ao mesmo tempo que assume um caráter de aprimoramento estético (a fotografia, por exemplo, é muitíssimo melhor trabalhada nessas sequências do que no presente), sofre por uma montagem alegórica demais. Não que não exista uma síntese imagética da junção da cena A + cena B; o problema é que o que está entre essas cenas é picotado em excesso e espalhado de maneira pouco atraente durante todo o filme. Por mais que, em seu campo diegético, sejam muito boas, a aplicação dessas cenas na trama central é falha e um pouco desconcertante.

Dramas familiares possuem um imediato apelo popular, por motivos óbvios. Refém da Paixão com certeza se enquadra nesse grupo de filmes. A questão aqui é mais densa e psicológica do que a observada em obras relativamente recentes do gênero, como O Verão da Minha Vida, por exemplo. Jason Reitman realiza uma obra de um valor considerável. Às vezes pontuada por um vazio ou uma forma pouco louvável de expor as coisas, mas que mesmo assim, no final, acaba valendo a pena.

Refém da Paixão (Labor Day) – EUA, 2013
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman (baseado na obra de Joyce Maynard)
Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, Tom Lipinski, Maika Monroe, Clark Gregg, James Van Der Beek, J.K. Simmons, Brooke Smith, Brighid Fleming
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.