Crítica | “Reflektor” – Arcade Fire

estrelas 5,0

Os canadenses Win Butler e Régine Chassagne, vocalistas do Arcade Fire, conquistaram uma legião de fãs em um cenário ainda underground, em que o rock alternativo e aquilo que seria, posteriormente, chamado de indie consolidavam-se como estilo. O lançamento do primeiro álbum, Funeral, em 2004, já causou certo estrondo na indústria musical: com elogios de grandes críticos e artistas como David Bowie e Bono Vox (U2), tanto ao disco quanto às performances ao vivo, o na época recém-formado Arcade Fire recebeu diversas indicações a premiações importantes. Apesar de o sucesso ter sido repetido com o lançamento de Neon Bible, em 2007, foi somente em 2010 com The Suburbs que a banda se concretizou como um ícone da música e mostrou amadurecimento, principalmente ao causarem um baque quando ganharam o Grammy de melhor álbum do ano, em 2011.

Conhecida pelo uso intenso de instrumentos musicais — desde os mais comuns até os mais exóticos — e produzir faixas e discos diferentes e peculiares, no álbum-duplo Reflektor, o grupo liderado por Win Butler recorreu a diversas referências. A principal delas está em duas viagens que Win fez com Régine. A primeira foi para o Haiti (a vocalista tem família na ilha caribenha). Conforme o cantor, essa experiência mudou sua vida e preencheu o novo disco com influências latinas, tanto no instrumental (é notável a presença de instrumentos de cordas e percussão e o ritmo dançante, em alusão ao tradicional festival musical rara, do Haiti, e à festividade do povo), quanto nas letras, que retratam o costume e a cultura local, também postos em xeque em contraponto ao mundo globalizado e desigual. A pulsação agitada da maioria das faixas também é enaltecida pela co-produção de James Murphy (LCD Soundsystem). A outra viagem foi para a Jamaica, em que exploraram ainda mais os ritmos oriundos da África e, principalmente, o reggae.

Buscando ainda mais o âmago daquilo que procuram retratar, Arcade Fire utiliza duas grandes referências: o ensaio The Present Age do filósofo Søren Kierkegaard que, segundo Win, acrescenta ao álbum as críticas a respeito da alienação e a reflexão passional; e um filme ítalo-franco-brasileiro de 1959, Orfeu Negro, que anexa um tom sombrio e direcionado ao isolamento em Reflektor. Vale lembrar também a excelente tática do chamado “marketing de guerrilha” para a divulgação do disco, em que foram utilizadas pichações em alguns locais com símbolos ligados ao vodu haitiano, chamados Veve. É claro que ninguém sabia o que significavam esses ícones, sendo revelados somente depois.

Reflektor começa com uma faixa de nome homônimo. A produção de James Murphy e o backing vocal de David Bowie não poderiam gerar um resultado diferente: é uma música dançante que abre o álbum muito bem. As batidas do líder do LCD Soundsystem são complementadas pelos instrumentos de percussão em alusão ao Haiti. Enquanto o ritmo engloba a referência da ilha caribenha, a letra abre espaço para a alusão ao Orfeu Negro e o ensaio de Kierkegaard, principalmente pela “história” contada, que apresenta um romance, retrata o isolamento e, é claro, questiona a liberdade, aquilo que é real e a maneira com a qual raciocinamos.

O disco segue o mesmo ritmo em We Exist, com uma letra sensacional que critica o olhar da sociedade às minorias. É de se imaginar que a música tenha sido composta pensando na situação do Haiti, porém o clipe — que recebeu uma indicação ao Grammy de 2015 — mostra o quão versátil e multifacetada é a música, abordando todos aqueles desfavorecidos pela coletividade, ao retratar a discriminação sofrida por um indivíduo transgênero, interpretado impecavelmente por Andrew Garfield. Logo em seguida, Flashbulb Eyes introduz uma batida ainda mais caribenha, principalmente com as influências do reggae.

Em Here Comes The Night Time, Win Butler aborda um dos temas que mais o importunou na viagem ao Haiti. Dando uma pequena desacelerada no ritmo em relação às faixas iniciais, a música fala, primeiramente, de como a luz do dia é importante para os haitianos, visto que, sem eletricidade, a noite é um marco para a população, que vai o mais rápido para suas casas, como mostra o trecho “When the sun goes down you head inside / Cause the lights don’t work”. Outra crítica é em relação aos missionários, feita de maneira mais explícita. De acordo com Win, é um tanto contraditória a atitude dos missionários e sua tentativa “catequizadora” aos haitianos quando, na verdade, a presença de um Deus seria algo que os habitantes do país têm de sobra; “And the missionaries / They tell us we will be left behind”.

As três últimas músicas do primeiro disco de Reflektor, Normal Person, You Already Know e Joan of Arc voltam às origens de Arcade Fire, e poderiam facilmente passar como faixas do álbum Funeral. A utilização de guitarras e o som do baixo são mais fortes, e os elementos haitianos e de reggae são sucumbidos pelo rock alternativo tradicional da banda, funcionando como espécies de músicas de transição entre o primeiro álbum e a nova fase do grupo. Enquanto Normal Person faz uma crítica aos padrões da sociedade, as outras duas são mais líricas e tratam de um romance impetuoso, resgatando a referência a Orfeu Negro.

O segundo disco é de Reflektor é aberto com Here Comes The Night Time II. Apesar do refrão e nome igual à do primeiro CD, as faixas parecem opostas. O ritmo é totalmente diferente e, enquanto a primeira retrata a noite como algo físico — a falta de luz — a segunda abstrai outro significado, relacionado principalmente ao isolamento, a solidão e a dor ocasionada pela escuridão.

Awful Sound (Oh Eurydice) usa os instrumentos de percussão de uma maneira mais lenta, e é uma das músicas mais melancólicas e bonitas do disco. Explorando um pouco mais da mitologia grega e o sempre presente Orfeu Negro, It’s Never Over (Oh Orpheus) engloba a maior parte dos ritmos presentes do álbum, inclusive o silêncio que permeia algumas músicas. Já Porno apresenta visivelmente influências de James Murphy, pelo uso intenso de sintetizadores. A canção parece nostálgica, enquanto a letra retrata o romance intenso e realista exprimido nas outras faixas.

Reflektor finaliza com Afterlife e Supersymmetry. Com um ritmo que mescla as influências anteriores da banda, principalmente The Suburbs, e os novos contatos e experiência que o grupo teve nesse novo álbum — especialmente as referentes ao Haiti — Afterlife apresenta, tanto em sua letra como em seu videoclipe, um estranho paradoxo entre sonho e lucidez. Uma das faixas mais completas do disco consegue simbolizar também a Arcade Fire como todo. Continuando o devaneio entre a ilusão e o real, Supersymmetry harmoniza as vozes de Win Butler e Régine Chassagne, o que condiz perfeitamente com o título da faixa e sua letra. Com um ritmo mais lento e a utilização de sintetizadores, a música fecha Reflektor conseguindo abranger todo o conteúdo do álbum, desde a relação com o Haiti, Orfeu Negro e o ensaio de Kierkegaard até a recente contradição da imaginação e o concreto, exibindo questões existenciais e sociológicas.

Alguns talvez considerem Reflektor como inferior aos anteriores da banda. Todavia, chega a ser injusto comparar este álbum com os outros. E não é por este ou outro ser melhor, contudo pelo simples fato de divergirem entre si. Mesmo resgatando e preservando algumas referências e influências, a banda conseguiu uma proeza enorme, que é constituir discos distintos, que mantêm a essência do grupo e são repletos de conteúdo.

Arcade Fire é espetacular. Ponto. Qualquer um que negue isso, infelizmente desconhece o trabalho sensacional da banda, e não deveria se privar de tal aprazimento. Imersos em uma indústria musical em que as músicas valorizadas são vazias, repetitivas e homogêneas, o grupo é um achado do mundo contemporâneo. Trazendo não somente canções agradáveis, com letras e ritmos formidáveis, eles também utilizam com maestria uma série de simbolismos, imagens e referências artísticas para construir suas obras — porque é isso que são. E o quarto disco de estúdio da banda, Reflektor, não é diferente.

Reflektor
Artista: Arcade Fire
País: Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Jamaica
Gravadora: Merge Records e Sonovox Studios
Lançamento: 25 de outubro de 2013
Estilo: Art Rock, Dance Rock, Indie Rock, Rock Progressivo

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.