Crítica | Região do Ódio

estrelas 4,5

Região do Ódio foi o penúltimo de cinco westerns que James Stewart fez com Anthony Mann (Winchester ’73, E o Sangue Semeou a Terra, O Preço de um Homem e Um Certo Capitão Lockhart), todos eles de primeira linha e com Stewart interpretando de maneira irretocável personagens temerosos de seu presente e atormentados pelo passado e Mann abordando de maneira objetiva a psicologia desses personagens, integrando-os uterinamente aos territórios que exploram.

A narrativa de Região do Ódio se passa entre o distrito de Skagway (Alasca, EUA) e Dawson City (Yukon, Canadá), no início da Corrida de Ouro de Klodike, em 1896. James Stewart dá vida a Jeff Webster, um homem de moral aparentemente boa mas que o roteiro disseca com crueldade. Mann faz a história crescer progressivamente através das belas paisagens gélidas da região e também a faz ganhar densidade quando o grupo protagonista se estabelece em Dawson City, fechando as janelas abertas no início da fita e dando novos significados à solidão e convicções pessoais de Jeff, o homem que não confiava em ninguém e dizia jamais precisar de quem quer fosse.

O tormento do protagonista é um elemento recorrente na filmografia de Mann desde os seus filmes noir, algo que nos westerns irá contribuir para a revolução do gênero e o apontamento de novos caminhos. Em Região do Ódio vemos o heroísmo desaparecer e dar lugar a um individualismo que se traduz, para Jeff, na luta pessoal pela sobrevivência. Ele não se mete nos assuntos dos outros e só compra briga quando é ameaçado. Desse modo, o espectador vive em conflito de identificação com o personagem e essa confusão é um triunfo dramático do roteiro de Borden Chase, que não adota a verborragia e sim as atitudes para marcar o território de cada um.

Por ser um diretor muito objetivo (a maior parte de seus filmes não passam muito de 100 minutos e contam histórias complexas e extremamente ricas), Anthony Mann não dá espaço para cenas que estariam ali apenas para contemplação do espectador e isso podemos comprovar em sua relação com a paisagem natural. Ao invés de filmar o belo espaço geográfico em separado ou estender uma sequência apenas para mostrá-lo por mais tempo, o diretor faz desse espaço um personagem, inserindo-o de maneira orgânica na tela e com participação essencial no desenvolvimento da narrativa, acompanhando a história inclusive em seus símbolos e metáforas.

Região do Ódio é um filme sobre mudanças. Em primeiro lugar temos a virada do inverno para a primavera, portanto temos a mudança da paisagem. Depois, a vontade de alguns personagens em mudarem sua condição de nômades ou seminômades e se estabelecerem em algum lugar e, como complemento, a mudança causada pelas ações de Jeff e seus amigos na pequena região das minas, onde a violência já atingia níveis alarmantes nem bem a corrida do ouro começara.

É impossível não se lembrar da dinâmica vista em O Tesouro da Sierra Madre, mas diferente do filme de John Huston, Região do Ódio traz uma visão social mais opressiva e uma condição psicológica que se expande e cresce em cada estágio, culminando com um enfrentamento quase patético (e filmado de maneira primorosa) em seu significado, com pistoleiros covardes morrendo na lama e a remissão tardia de um homem ainda bastante egoísta mas disposto a lidar com essa versão de si ao lado de pessoas que queriam começar uma nova vida, mudar em definitivo para uma região que, ironicamente, tanta dor lhes causou.

O sino preso à sela do cavalo, o ouro, os sonhos de uma jovem, o cinismo de um homem cujo ego e a introspecção são quase patológicos e a discussão sobre o que o dinheiro e o poder nas mãos de desonestos podem causar são símbolos e situações trabalhados em Região do Ódio, que ainda traz uma revisão crítica da sociedade americana em mais uma corrida do ouro.

Belos figurinos de regiões frias (destaque para os da atriz Ruth Roman e para os de James Stewart), fotografia em contraste e opacidade perfeitos para cada paisagem filmada (destaque para o tom de azul e o trabalho com sombras nas cenas noturas) e trilha sonora que abre e fecha o filme com perfeição (mesmo que no desenvolvimento da fita caia um pouco no marasmo conceptivo, através de temas pouco inspirados) Região o Ódio é uma história de mudanças em um território selvagem, um Northern (isso mesmo, um Northern – para saber mais leia Os Subgêneros do Western – Parte 1) infelizmente pouco conhecido, uma pequena pérola quase oculta na grande filmografia de Anthony Mann.

Região do Ódio (The Far Country) – EUA, 1954
Direção:
 Anthony Mann
Roteiro: Borden Chase
Elenco: James Stewart, Ruth Roman, Corinne Calvet, Walter Brennan, John McIntire, Jay C. Flippen, Harry Morgan, Steve Brodie, Connie Gilchrist, Robert J. Wilke, Chubby Johnson
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.