Crítica | Rei Arthur: A Lenda da Espada

estrelas 2,5

O marketing e as canções de A Bela e a Fera podem até adotar o título de “conto tão antigo quanto o tempo”, mas essa definição certamente cabe mais à lenda do Rei Arthur. Já tendo ganhado diversas adaptações literárias, teatrais, televisivas, cinematográficas e uma penca de referências em praticamente todas as mídias, o conto do mítico Rei da Inglaterra é uma das histórias mais famosas de todos os tempos. É também uma que permite diferentes leituras e interpretações, o que garantiu que a história seguisse ganhando novas adaptações até hoje.

O que nos traz a este Rei Arthur: A Lenda da Espada do cineasta britânico Guy Ritchie, que traz consigo claras intenções de iniciar uma franquia com esses personagens, além de contar com a abordagem muito personalística do diretor de Snatch, O Agente da U.N.C.L.E. e aquela versão do Sherlock Holmes bombado. O que vemos em cena é um resultado misto, onde as habilidades de Ritchie adequam-se muito bem a determinados elementos da história, mas falham pavorosamente em outros.

A trama faz diversas mudanças na versão mais tradicional da história, apresentando-nos a uma guerra entre o Reino da Inglaterra com uma legião de Magos. O conflito é vencido pelo Rei Uther (Eric Bana) com o auxílio da poderosa espada Excalibur, para total decepção de seu invejoso irmão Vortigern (Jude Law), que secretamente cobiça o trono e arma uma aliança oculta com os Magos. Isso resulta na traição de Vortigern, que usurpa o trono e força seu irmão a exilar seu filho Arthur, o herdeiro legítimo, a fim de garantir sua sobrevivência. Anos depois, o jovem transforma-se em um negociante com as feições de Charlie Hunnam na cidade de Londinium, protegendo as colegas do bordel que o acolheu. Quando a poderosa espada Excalibur revela-se, Arthur é visto como o legítimo herdeiro e parte para salvar o reino das mãos de seu tio, que move montanhas para matá-lo e assumir o poder absoluto.

São pequenas mudanças, mas que contribuem para tornar este Rei Arthur muito distinto de suas encarnações anteriores. Para começar, a presença de elementos mágicos torna a história muito mais próxima de um épico como O Senhor dos Anéis ou Game of Thrones, duas obras que o longa constantemente tenta emular através de sua fotografia sombria, os longos planos CGI com exércitos e as batalhas exageradas com criaturas espalhafatosas – nesse quesito, acrescente o remake de Fúria de Titãs e sua pavorosa continuação ao leque de referências.

Todo esse aspecto grandiloquente e épico certamente rende imagens belíssimas do diretor de fotografia John Mathieson, além de um design de produção tipicamente inspirado e que não faz feio em comparação a outras obras do gênero. Todo o cuidado com o figurino, que é particularmente brilhante ao conferir um aspecto quase anacrônico às vestes de Arthur, sempre com sua camisa “tipicamente medieval” aberta, transformando o protagonista em uma variante do herói de jaqueta de couro, o típico badass que geralmente toma as telas nas produções do diretor. Todos esses aspectos práticos são impressionantes.

O problema, em parte, é Guy Ritchie.

É notável como o diretor simplesmente não se adequa a um trabalho cheio de efeitos visuais ou elementos mágicos. A cena de abertura do filme é de uma indecisão assombrosa, com o longa começando com um prólogo deslocado, uma tela com letreiros genéricos e então uma arrastada sequência de batalha que parece preguiçosa para dizer o mínimo, com uma mise-en-scène tão confusa e sem imaginação que eu já me estremeci na cadeira diante de uma introdução tão fraca. Piora ainda mais quando temos outras cenas do tipo ao longo da projeção, especialmente aquelas que envolvem criaturas gigantes e efeitos visuais que infelizmente não convencem. Seja pelo absurdo das ideias, que envolvem serpentes gigantes e sereias obesas, é algo que Ritchie nitidamente não se sente confortável, visto que as duas grandes cenas de luta com a Excalibur parecem saídas de um videogame ruim, com um Charlie Hunnam CGI lutando com outros oponentes genéricos (o chefão de fase no clímax é digno do Bane de Joel Schumacher) enquanto usa de um slow motion genérico na tentativa de “criar” algum estilo ali. Sabem aquelas lutas em games quando o jogador só precisar apertar alguns botões para dar continuidade a uma sequência de golpes já estabelecida? Mesmíssima coisa.

Essa é a parte ruim deste Guy Ritchie, e se digo que o diretor parece desconfortável em lidar com sequências desse porte, é porque o cineasta está absolutamente em casa quando dedica atenção àquilo que faz melhor: rua. Nunca antes houve um Arthur tão malandro e “street smart” quanto este vivido por Hunnam, que protagoniza sequências maravilhosas onde a montagem enérgica que combina as falas de múltiplos personagens e diferentes pontos temporais – Ritchie sempre mostra uma cena, para só depois revelar as maquinarias por trás dela -, algo que funciona muitíssimo bem ao acompanharmos as negociações de Arthur por Londinium. De forma similar, a maneira como a montagem acelera o crescimento do protagonista, de criança abandonada até o protetor do bordel, é fantástica. Seja pela precisão dos cortes, os planos rápidos e ágeis de Ritchie em focar as diferentes moedas que o protagonista vai adquirindo ao longo de seu crescimento, eficientemente contando uma história direta de forma concisa e dinâmica.

Porém, essa mesma técnica de passagem de tempo enfraquece outros segmentos do longa. Por exemplo, a ida do protagonista à chamada Terra Sombria representa um dos momentos mais importantes na jornada do herói, onde Arthur enfim aprende a manusear a Excalibur e confrontar os fantasmas de seu passado, mas acaba sendo reduzida a uma sequência de cortes rápidos e avanços na narrativa que vão privando o espectador de acompanhar o crescimento do personagem – há pouquíssimo espaço para desenvolvimento aqui, ainda que Ritchie ao menos saiba como enfatizar o flashback que revela a identidade do assassino monstruoso que assombra seus pesadelos; no mais óbvio dos plot twists.

Sobre o elenco, Charlie Hunnam entrega tudo o que o papel exige do ator, com um Arthur mais malandro e típico da galeria de personagens de Ritchie, quase assemelhando-se com um Han Solo mais casca grossa – sua postura ao chegar ao castelo de seu tio, por exemplo, sabiamente resume toda a personalidade do personagem. De resto, infelizmente todos os parceiros de Arthur acabam subdesenvolvidos, provavelmente pelo estúdio contar com uma continuação para engrossar o caldo, mas temos performances carismáticas de Djimon Hounsou e Aidan Gillen. Quem se diverte é Jude Law, que impressiona pela capacidade de fazer de Vortigern uma figura complexa e perturbada, rendendo um antagonista respeitável – com exceção de sua forma “maligna” ridícula no clímax…

Finalmente, o grande tempero do filme, o responsável por transformar as mais banais da cenas em coisas minimamente interessantes e de auxiliar o estilo dinâmico e ágil de Ritchie no ápice da produção: a trilha sonora original de Daniel Pemberton. Por um milagre do Universo, o compositor ascendente acabou no caminho de Ritchie em 2015, quando entregou a fantástica música de O Agente da U.N.C.L.E., e provavelmente garantiu um emprego vitalício para os próximos projetos do diretor. Em Rei Arthur, Pemberton traz uma abordagem fascinante, ao usar muito vocal (assovios, gritos, suspiros ofegantes) para compor suas melodias, oferecendo um resultado diferente de tudo o que vemos na maioria dos blockbusters contemporâneos. Aliado à uma criativa percussão com cordas, trombetas pesadas e outros instrumentos que exploram o abstrato, não seria exagero dizer que A Lenda da Espada é, muitas vezes, um mero videoclipe para divulgar o trabalho de Pemberton.

Esta nova versão de Rei Arthur certamente traz muitas qualidades notáveis, especialmente quando aceita o fato de que é um filme de Guy Ritchie, mas que ao mesmo tempo surge perdida e confusa quando almeja resultados próximos de um épico medieval mágico. Tem personalidade e é capaz de divertir, mas é frustrante pensar como foi uma oportunidade perdida. Se por algum milagre uma continuação acontecer, que seja inteiramente sobre Arthur resolvendo as políticas de seu reino na base dos street smarts.

Rei Arthur: A Lenda da Espada (King Arthur: Legend of the Sword) — EUA/ Reino Unido, 2017
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie, Joby Harold, Lionel Wigram
Elenco: Charlie Hunnam, Jude Law, Eric Bana, Djimon Hounsou, Astrid Berges-Frisbey, Aidan Gillen, Tom Wu, Freddie Fox, Annabelle Wallis
Duração: 126 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.