Crítica | Rei Arthur

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estrelas 2,5

Nas diferentes versões cinematográficas da lenda de Arthur, embora amplamente diferentes em sua abordagem, a grande maioria seguiu os elementos básicos da lenda. Rei Arthur, por sua vez, dirigido por Antoine Fuqua, distancia-se do mito e busca nos entregar uma história com um pé mais firmado na realidade, saindo da era medieval, partindo para o período de ocupação romana da Grã Bretanha e colocando Arthur como o filho de um oficial de Roma encarregado de um grupo de soldados estrangeiros que lutam pelo império, ao invés da clássica figura do camponês que retirara Excalibur da pedra.

A narrativa tem início estabelecendo esse pano de fundo, já dizendo que a obra é baseada em achados arqueológicos recentes, deixando claro que essa não é a história com que estamos acostumados quando se trata da lenda arthuriana. Partimos, então, para uma época no qual Arthur (Clive Owen) já está crescido, à beira de ser dispensado do serviço à Roma, junto de seus cavaleiros. À beira dessa liberdade e da desocupação romana da Grã-Bretanha, porém, eles recebem uma última missão: resgatar uma família ao norte da muralha de Adriano, território dominado pelos saxões, inimigos de Roma. Sabendo que essa pode ser uma missão suicida, eles iniciam essa jornada que pode muito bem ser a última.

O roteiro de David Franzoni traz um ar tipicamente western ao conto de Arthur, colocando os cavaleiros da távola redonda como uma espécie de Sete Homens e um Destino (ironicamente, Fuqua realizaria um remake do clássico faroeste futuramente) e, não por acaso, são sete os guerreiros, contando com o futuro rei. Nesse sentido, o texto faz um ótimo trabalho em desenvolver a relação entre esses personagens, a tal ponto que sentimos a cumplicidade existente entre eles, por mais que, na realidade, sejam todos rasos e unilaterais.

O grande problema de Rei Arthur está na forma como a narrativa é construída, tornando-a excessivamente dilatada por se dividir em atos muito distintos. O texto se apresenta, desde o início, de forma muito fragmentada, episódica. As sequências de ação exageradamente prolongadas também não ajudam, especialmente considerando que soam genéricas demais, muitas delas não trazendo a menor relevância para a trama geral. Sentimos, portanto, como se David Franzoni tivesse muitas ideias, mas não sabia exatamente como colocá-las de forma orgânica na trama.

Fuqua até consegue garantir o ar mais épico do enredo, por meio de grandes planos abertos que, aliados ao excelente desenho de produção, que nos imerge completamente nesse período histórico, conseguem atrair a nossa atenção. Em virtude das muitas rupturas da trama, porém, nossa imersão é constantemente quebrada e, quando alcançamos a metade da projeção, já nos vemos cansados de assistir a obra, desperdiçando toda a construção da relação entre os personagens, um dos pontos positivos, já citados, da obra.

Esse ar mais épico, evidentemente incentivado pelo sucesso da trilogia O Senhor dos Anéis, também é mantido pela marcante trilha de Hans Zimmer, que instaura uma atmosfera de grandiosidade aos feitos desses cavaleiros. O tema principal, certamente a mais notável das composições da obra, está entre as melhores das adaptações cinematográficas da lenda arturiana, ainda que nenhuma supere a clássica de Excalibur.

No fim, Rei Arthur não é nada mais que uma facilmente esquecível adaptação da famosa lenda. Na tentativa de ser diferente, a obra acaba tornando-se somente mais um filme de ação genérico. Embora apresente muito bem a relação entre os Cavaleiros da Távola Redonda, o longa é fragmentado e apoia-se demais em sequências de ação, muitas das quais não demonstram qualquer valor para a narrativa principal. Com muito potencial nas mãos, Antoine Fuqua e David Franzoni desperdiçam quase tudo, fazendo desse um filme que diverte, mas que esquecemos com o passar dos anos.

Rei Arthur (King Arthur) — EUA/ Reino Unido/ Irlanda, 2004
Direção:
 Antoine Fuqua
Roteiro: David Franzoni
Elenco: Clive Owen, Stephen Dillane, Keira Knightley,  Ioan Gruffudd, Mads Mikkelsen, Joel Edgerton, Hugh Dancy, Ray Winstone,  Ray Stevenson, Stellan Skarsgård, Til Schweiger
Duração: 126 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.