Crítica | Supergirl: Reinado do Superciborgue (Renascimento)

estrelas 4,5

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Goste ou não das séries da CW sobre os super-heróis da DC Comics, é inegável que eles contribuem muito para a formação do imaginário popular em relação aos personagens que nelas aparecem. Embora a qualidade de tais obras televisivas seja, no mínimo, duvidosa, elas impactam diretamente nas inúmeras reformulações, algumas vezes mudando somente o visual, enquanto outras, suas próprias histórias passam por profundas mudanças. Supergirl foi uma das heroínas influenciadas pelas sua contraparte das telinhas, com uma trama independente, mas que dialoga com o seriado nos conceitos e abordagem de certos personagens – Steve Orlando, roteirista desse primeiro arco, Reinado do Superciborgue, nos entrega uma moderna visão da kryptoniana, permitindo que novos leitores se aproximem desses quadrinhos.

supergirl-1-rebirth-plano-criticoA trama foca em Kara Zor-El, prima do Superman, que chegara a Terra apenas recentemente. Ainda com memórias vívidas da destruição de seu planeta, ela deve se acostumar com a vida entre os humanos, enquanto trabalha, com grandes limitações, para o DEO (Department of Extra-Normal Operations), a agência responsável por garantir a segurança no planeta quando se trata de metahumanos ou forças alienígenas invasoras. Os problemas de Supergirl, porém, se complicam ainda mais quando seu antigo inimigo, o Superciborgue, retorna à Terra alegando ser seu pai, Zor-El.

O que mais nos chama a atenção no roteiro de Orlando é como ele constrói toda a história de forma profundamente intimista. Mais que um embate entre o bem e o mal, temos aqui a necessidade de Kara superar a perda de seu planeta, amigos e familiares. Embora não seja exatamente uma história de origem, o que temos aqui soa como uma, ao passo que vemos uma heroína ainda inexperiente e repleta de insegurança. É esse fator que permite que nos identifiquemos imediatamente com a protagonista: ela ainda não está certa de sua missão, do que deve fazer ou do que as pessoas esperam dela, ela é impulsiva e segue seu coração, mas isso nem sempre a leva para um bom caminho.

Dito isso, existe um subtexto importante sobre a imigração e o quão importante é o papel do nativo de fazer o estrangeiro se sentir à vontade naquele novo local. Supergirl prega, acima de tudo, a aceitação, mas não deixa de lado o preconceito que as pessoas de fora, independente do local de origem, sofrem. Através dos pais adotivos de Kara temos a postura de aceitação, de acolhimento, enquanto que por parte de uma das agentes do DEO temos o contrário, com a desconfiança sendo demonstrada em cada fala da personagem. Esse elemento perfeitamente se encaixa com o enredo geral do arco, que aborda a falta que a heroína sente de Krypton – mais de uma vez a vemos se sentindo deslocada dentre os humanos, o que provoca uma inevitável angústia em nós, leitores.

Apesar dessa temática, o roteiro consegue ser bastante otimista e a arte de Brian Ching perfeitamente dialoga com isso, nos entregando uma protagonista que transpira inocência. Não há como enxergar um pingo de maldade em Supergirl e mesmo quando comete seus erros conseguimos ver em seu semblante que isso fora fruto de sua imaturidade, o que é apenas natural, considerando a idade da personagem. Mas a arte de Ching consegue ir muito além do encaixe orgânico com o texto e nos faz realmente apreciar cada quadro, que abandona a pasteurização costumeira dos quadrinhos atuais a favor de algo mais autoral, que realmente dá a impressão de que o artista desenhou tudo aquilo. Embora algumas formas fiquem distorcidas em certos momentos (especialmente as pernas), não há como não parar para contemplar os painéis da obra. Michael Atiyeh, por sua vez, consegue melhorar ainda mais a arte dessa história em quadrinhos, utilizando cores vivas que ajudam a compor toda essa atmosfera otimista.

Reinado do Superciborgue, primeiro arco de Supergirl pós-renascimento, se configura como um ótimo recomeço para a super-heroína que, desde cedo, demonstra o potencial que a personagem conta nessa nova fase da editora. Dialogando constantemente com a série da CW, a obra aqui criticada consegue se colocar muito acima de sua contraparte televisiva, nos proporcionando uma protagonista com a qual conseguimos nos identificar através de um roteiro que explora sua insegurança de forma intimista. Com um ótimo enredo e uma arte que se destaca, somos deixados com poucos motivos para não amar essa releitura de Kara Zor-El.

Supergirl – Vol. 1: Reinado do Superciborgue (Reign of the Cyborg Superman) — EUA, 2016
Roteiro: Steve Orlando
Arte: Brian Ching
Arte-final: Brian Ching
Cores: Michael Atiyeh
Letras: Steve Wands
Editora original: DC Comics
Datas originais de publicação: 2016
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: ainda não publicado
Páginas: 186

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.