Crítica | Reis e Ratos

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estrelas 3

Todo país cuja indústria de cinema é minimamente relevante já tentou recriar algum momento de sua História através de um filme. Historicamente corretas, livre adaptações ou apenas farsas baratas a História de uma nação que ganha as telas deve ser vista com um misto de cuidado e entrega: é preciso tentar entender o motivo pelo qual a obra veio à tona,  não se esquecer de que um filme é apenas um filme e que o cinema, além de outras coisas, também é entretenimento.

Reis e Ratos (2012), filho legítimo desse cinema que olha para a História de seu país, é uma farsa política com toques de chanchada, um filme que levanta possibilidades do por quê não houve uma reação imediata ao Golpe Militar de 1964 no Brasil. No meio desse enredo, presenciamos relacionamentos amorosos complicados, intrigas políticas entre capitalistas e socialistas, intrigas urbanas e criminalidade… uma espécie de alma séria para um filme que quer, acima de tudo, divertir.

É espantosa a quantidade de pessoas que levaram a sério as investidas históricas tortuosas do roteiro, também assinado pelo diretor Mauro Lima. Há incorreções, anedotas e subversão de acontecimentos políticos do conturbado Brasil de 1963, mas esta manipulação serve ao filme como elemento principal e característico, a sua metade fantasiosa. Mesmo que haja um verdadeiro contexto como base narrativa, a principal questão do filme é explorar as possibilidades do cinema dentro de um horror político como foi o nosso Golpe. Há quem diga que houve esvaziamento da verdade, que deixaram o verdadeiro sentido político do período… mas Reis e Ratos foi concebido para ser uma sessão de comédia que mixa História do Brasil, Comunismo, Guerra Fria, Filme B, Chanchada e sátira pura e simples, não um documentário anti-alienação.

Filmado em 17 dias, com as sobras dos cenários de O Bem Amado, Reis e Ratos jamais aparenta essa urgência de produção e limitação de recursos. Na verdade, o filme parece longo demais, chega até chatear o espectador porque alguns acontecimentos se arrastam infinitamente e o tom de road-movie que vem nas entrelinhas sustenta essa longa viagem ou deslocamento de personagens em situações que não se resolvem a médio prazo, empurrando todo o desfecho para os últimos momentos em vez de fazê-lo compassadamente.

Todavia, por mais que esse arrastar seja prejudicial e pouco simpático, ou que o longa tenha ícones humorísticos demais, é impossível não se deliciar com algumas incursões simbólicas no roteiro. Podemos começar a contagem pelos créditos de abertura em cirílico, uma alusão direta ao tema político do filme; pelas melhores tiradas de Selton Mello como o agente estadunidense que ama o Brasil e fará de tudo para permanecer aqui; pela ótima construção da personagem de Cauã Reymond, que na fase final do filme cede à terrível comédia fácil e pelo irreconhecível e ótimo Rodrigo Santoro como Roni Rato, um marginal carioca de importância máxima para os planos obscuros dos americanos que desejavam tirar do caminho o presidente que atrapalharia o movimento militar. A isso também vale ressaltar o recurso do preto e branco para o longo flashback, que tanto ressaltou a seriedade superficial do tema quanto reafirmou as citações de outras obras do cinema.

Toda a produção de Reis e Ratos é de um rigor notável. Tanto o elenco quanto a música, fotografia, maquiagem, arte e figurinos tiveram o cuidado de se expressarem o mais fantasiosamente possível. O trabalho da direção também vai além do comodismo da câmera em plano médio/geral e passeia pelos cenários criando sequências de reuniões, perseguições ou panorâmicas gerais muito inspiradas. Mesmo com os tropeços que a montagem e a edição nos trazem, especialmente no quesito ritmo, ainda é possível ver mais elementos positivos do que negativa na assinatura de Mauro Lima aqui.

Um olhar mais apurado diria que Reis e Ratos é integrante de um cinema brasileiro que tenta alcançar um ponto ainda não identificável. O filme faz parte de um braço do nosso cinema que busca se encontrar e criar uma identidade na comédia fora da facilidade e da futilidade. Muitas pessoas poderão não gostar, talvez por outros motivos, mas a tentativa é sempre válida e, ao menos para boa parte dos espectadores, será refletida em uma divertida sessão.

Reis e Ratos (Brasil, 2012)
Direção: Mauro Lima
Roteiro: Mauro Lima
Elenco: Selton Mello, Daniel Alvim, Seu Jorge, Cauã Reymond, Otávio Müller, Rodrigo Santoro, Rafaela Mandelli
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.