Crítica | Relatos Selvagens

estrelas 5,0

Filmes compostos por várias histórias costumam ser irregulares. É difícil fazer um longa neste formato e apresentar os vários episódios de maneira objetiva e sem comprometer a qualidade da narrativa. Poucos são os longas que conseguem esse feito nos cinemas de hoje, e o argentino Relatos Selvagens, sem dúvida, está entre eles.

No longa temos seis histórias contadas de forma independente, que trazem em sua essência uma narrativa bem humorada, mas ainda assim, com toques de violência desmedida e caricata. Em comum, as histórias trazem homens e mulheres em situações rotineiras, levados a um nível de estresse estratosférico e que libertam o que possuem de mais irracional. Juntos, os relatos formam uma espécie de ode à fúria e a ira humanas, a nossa falta de paciência frente a situações inusitadas, e mais, o ódio sem motivo aparente que ronda a sociedade atual.

Dirigido pelo argentino Damián Szifron, Relatos Selvagens confirma uma excelente fase do cinema argentino e será o candidato dos hermanos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014. Szifron é ainda um nome em ascensão na Argentina, e aqui mostra maturidade e técnica na tarefa de dirigir um filme em episódios. Sua direção é acertada e segura, fazendo com que as seis histórias sejam muito bem amarradas (todas têm começo, meio e fim bem definidos). Em cada uma delas, o diretor usa de artifícios para trazer a fúria de cada um de seus personagens à tona, tornando algumas cenas tensas e sufocantes, mas sem nunca perder a veia cômica e o humor negro, características de todas as histórias que compõe o filme.

As doses de humor, misturadas com a violência, podem ser atribuídas a um nome que aparece nos créditos do filme: Pedro Almodóvar. Ele e o irmão Augustín assinam juntos a produção de Relatos Selvagens e é possível ver na tela e nos diálogos dos personagens a essência do diretor espanhol. Destaque também para a fotografia de Javier Julia, pontuando muito bem os momentos mais importantes das tramas e explorando as tomadas externas (principalmente no episódio protagonizado por Ricardo Darín) e a trilha de Gustavo Santaolalla.

Mas vamos às histórias. A primeira delas é curta, mas já ambienta o espectador na atmosfera do longa e o prepara para o que estará por vir nas próximas horas. O segundo relato traz uma garçonete que em uma noite chuvosa atende o homem que levou sua família à falência e ocasionou a morte de seu pai. O terceiro ato traz dois homens dirigindo pelas desertas estradas argentinas. A impaciência de ambos leva a uma série de episódios engraçados e absurdos. Em seguida, temos Ricardo Darín brilhando, como sempre, como um engenheiro que tem seu carro guinchado de forma irregular. Em busca da reparação pelo erro, ele precisará lutar contra a burocracia do sistema de trânsito de uma grande cidade. O final é, sem dúvida, espetacular.

No quinto bloco, um homem rico precisa livrar o filho da cadeira após ele atropelar e matar uma jovem grávida pelas ruas de Buenos Aires. Aos poucos, a trama vai se tornando uma grande lição de que ninguém é incorruptível. A última e não menos importante história traz uma inusitada festa de casamento onde a noiva descobre que o futuro marido andou pulando a cerca.

O roteiro, assinado por Szifron e talvez a maior arma de Relatos Selvagens, beira a perfeição. Os seis episódios são construídos em cima de premissas interessantes e realistas e os diálogos de seus personagens são excepcionais. Difícil eleger um melhor entre os seis. Para mim, são quatro histórias ótimas e duas espetaculares.

Relatos Selvagens consegue, com humor, ótimas atuações e um roteiro impecável, nos mostrar que dentro de cada um existe um gigante adormecido que quando despertado pode causar muitos danos. Mais um ótimo exemplar do cinema dos nossos vizinhos que já possuem dois Oscars na estante (A História Oficial e O Segredo dos Seus Olhos) e chegam com chances para a terceira tentativa.

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, Argentina/Espanha – 2014)
Direção: Damián Szifrón
Roteiro: Damián Szifrón
Elenco: Liliana Ackerman, Luis Manuel Altamirano García, Alejandro Angelini, Damián Benítez, Cristina Blanco, Gustavo Bonfigli, Ricardo Darín, Gustavo Curchio, Camila Sofía Casas, Claudio Delan, Diana Deglauy
Duração: 122 min.

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.