Crítica | Remake, Remix, Ripoff

estrelas 2

Hollywood, Bollywood, Nollywood. Todo mundo sabe que a máquina mundial produtora de filmes está nesses três lugares. Mas o mundo era um lugar diferente nas décadas de 60 e 70, com outro importante player no mercado: a Turquia. Sim, a Turquia, que produzia centenas e centenas de filmes por ano, basicamente para consumo interno e para a venda para países asiáticos vizinhos. Hoje, porém, essa enlouquecida indústria não mais existe.

O documentário Remake, Remix, Ripoff tem como objetivo partir da premissa do título e usá-la como um trampolim para demonstrar o porquê de a indústria cinematográfica turca ter acabado lá pelos anos 90. O grande problema, porém, é que o diretor, Cem Kaya, não sabe exatamente o que fazer com a riqueza de informações que tem.

Para começar, tanto o título quanto a sinopse dão a impressão que o que será mostrado na telona é como a indústria turca simplesmente se utilizava de qualquer expediente para produzir seus filmes. Não estou falando sobre a mera cópia do roteiro ou dos conceitos de filmes famosos lançados por Hollywood, mas sim de coisas absolutamente surreais como, por exemplo, o furto dos rolos de filme de Star Wars para serem utilizados em outra obra ou a utilização, palavra por palavra, dos diálogos de Por Um Punhado de Dólares. Isso sem contar com o uso de trilhas sonoras famosas, a partir de LPs originais adquiridos na Europa, nas mais diferentes obras, com especial predileção para a sensacional trilha de O Poderoso Chefão.

Momentos como esses arrancam gargalhadas de qualquer plateia e esses elementos, a indústria da cópia, é largamente utilizado para fins cômicos pelo diretor, tanto mostrando algumas sequências absolutamente trash, mas adoráveis exatamente por isso, como entrevistando velhos diretores turcos, que não tem nenhuma vergonha em dizer que sim, copiaram o que de melhor vinha do cinema estrangeiro. E é essa a força do documentário e a razão para seu título.

No entanto, como mencionei mais acima, o objetivo do diretor era ainda mais nobre: lamentar e denunciar a destruição da indústria local ao longo das décadas. As razões são várias, como péssimas condições de trabalho, inexistência de leis trabalhistas, o surgimento da televisão, o golpe de estado no país, a censura superveniente, o investimento de produtores em filmes pornográficos e o descaso da política governamental. Acontece que Cem Kaya não demonstra habilidade em transitar entre a comédia trazida pelas hilárias sequências que dão nome a seu documentário e os tristes eventos de levaram à derrocada do cinema turco.

Afinal de contas, depois de extasiar a plateia, por 40 minutos, com a incrível originalidade dos diretores turcos de outrora em fazer filmes com não mais do que um clipe, dois pedaços de barbante e um chiclete (a recriação de uma dolly com sabonete é impagável), basicamente em um dia apenas, mas certamente não mais do que uma semana, o tom de denúncia toma a fita de assalto e as várias razões para o fim da indústria turca são apenas jogadas no colo do espectador sem muito contexto, sem muito cuidado. Não que seja algo ininteligível, pois não é, mas acontece que há muito material interessante, muita discussão boa que poderia ter sido levantada por Cem Kaya que ele simplesmente decide passar por cima, sem se preocupar em nos dar detalhes, em nos cativar com esses elementos novos que criam gigantesco contraste com o tom jocoso de todo o terço inicial.

E pior, o diretor volta ao assunto da cópia no terço final, quase que demonstrando certa bipolaridade no tratamento de sua obra. É para rir ou para chorar? É para engajar o espectador em uma cruzada séria ou para fazê-lo rir com as obras turcas de antigamente?

Essa inconstância do documentário não só esvazia seu poder como ferramenta de denúncia, mas, também, torna sem objetivo toda sua premissa inicial. É como se o diretor tivesse ficado sem material suficiente para justificar a abordagem de um assunto só em um longa e tivesse sido obrigado a enxertar outros elementos. Pode não ser isso que tenha acontecido, mas, quando as luzes se acendem, a confusão foi estabelecida e já é tarde demais para tornar Remake, Remix, Ripoff uma obra relevante.

Uma pena.

Remake, Remix, Ripoff (Idem, Turquia/Alemanha – 2014)
Direção: Cem Kaya
Roteiro: Cem Kaya
Com: Cüneyt Arkin, Çetin Inanç, Izzet Günay, Esref Kolçak, Irfan Atasoy, Kayhan Yildizoglu
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.